Supremacistas brancos 'apenas saíram do armário', diz Angela Davis na Flip

Davis relata encontro com homens condenados à prisão perpétua em Pelican Bay, destacando como acesso tardio à educação e leitura poderia ter alterado suas trajetórias.
Se ao menos tivessem reconhecido antes que esse tipo de experiência era possível, não estariam lá
Davis reflete sobre homens condenados à prisão perpétua que descobrem a leitura e a poesia apenas quando já é tarde demais.
Mark

Quando você fala em abolição carcerária, as pessoas imediatamente pensam em segurança nas ruas. Como você responde a isso sem parecer ingênua?

Mimi

Não é ingenuidade. É reconhecer que o sistema atual não torna ninguém seguro. Ele apenas concentra a violência em lugares específicos, longe dos olhos de quem tem poder. A justiça transformativa pergunta: por que essa pessoa agiu assim? O que a sociedade não ofereceu? Educação, oportunidade, dignidade.

Mark

Mas há pessoas que cometeram crimes horríveis. Você realmente acredita que educação teria mudado suas trajetórias?

Mimi

Não posso dizer com certeza. Mas posso dizer que vi homens condenados à prisão perpétua em Pelican Bay lendo Foucault, descobrindo a poesia, e pensando: se tivessem tido isso aos 15 anos, estariam ali? Talvez não. E talvez sim. Mas pelo menos teríamos tentado.

Mark

Você diz que supremacistas brancos apenas saíram do armário. Isso não minimiza o perigo que representam?

Mimi

Não. Significa que não estão crescendo em número — estão apenas sendo mais visíveis. Trump voltou porque as pessoas deixaram de votar, não porque a maioria do país virou supremacista. Há uma diferença importante entre estar assustado e estar derrotado.

Mark

O movimento progressista parece fragmentado. Como se reconstrói uma força política coerente?

Mimi

Essa é a pergunta que todos estamos fazendo. As bases existem. As pessoas querem mudança. Mas não encontramos as formas organizacionais para expressar isso. É como ter a música sem a partitura.

Mark

E quanto à questão palestina? Como você navega entre solidariedade e acusações de antissemitismo?

Mimi

Estou nessa luta há décadas e também sou contra o antissemitismo. Essas duas coisas não são contraditórias. A tentativa de equipará-las é uma tática conservadora para silenciar crítica legítima. A maioria dos americanos agora apoia a Palestina. Isso não é antissemitismo. É justiça.

Mark

Você rejeita ser chamada de ícone. Por quê?

Mimi

Porque ícones são seguros. São colocados em pedestais e adorados, mas suas ideias deixam de perturbar. Eu não quero ser adorada. Quero que as pessoas pensem criticamente, que se organizem, que imaginem um mundo diferente. Um ícone não faz isso.

  • Angela Davis em sua décima visita ao Brasil para a Flip em Paraty
  • Defende abolição do sistema carcerário e justiça transformativa
  • Encontrou grupo de leitura em Pelican Bay com homens condenados à prisão perpétua
  • Nega que supremacia branca esteja em ascensão nos EUA, apenas mais visível
  • Trabalha em livro sobre a pianista de jazz Geri Allen com Gina Dent e Terri Lyne Carrington

Davis critica o sistema carcerário como estruturalmente racista e defende justiça transformativa que atenda vítimas e raízes sociais da violência. A ativista nega que Trump represente a maioria americana e aponta que progressistas carecem de organização política eficaz para expressar seus sentimentos.

Angela Davis, em sua décima visita ao Brasil, defende o fim do sistema carcerário e argumenta que supremacistas brancos apenas saíram do armário, não estão em ascensão nos EUA.

Angela Davis chegou ao Rio de Janeiro para sua décima visita ao Brasil, e a expectativa em torno de seu nome na Flip — a Festa Literária Internacional de Paraty — é palpável. Mas a escritora e ativista, uma das maiores referências do feminismo contemporâneo, não parece particularmente impressionada com o próprio status. Numa manhã de entrevistas, sessões de fotos e gravações para redes sociais, ela mantém a postura de quem está ali para fazer diferença usando as plataformas disponíveis. No próximo sábado, às 18h, ela falará para uma plateia de 700 pessoas no Sesc Caborê, acompanhada por Gina Dent, sua companheira de vida e de projetos intelectuais.

Juntas, Davis e Dent trabalham em um livro sobre jazz e defendem algo bem mais controverso: o fim do sistema carcerário. Quando questionada sobre como responde a quem teme que a abolição das prisões minimize o sofrimento das vítimas de crimes violentos, Davis oferece uma resposta que reposiciona toda a conversa. Ela não acredita que abolição minimize sofrimento algum. Muitas pessoas se identificam com a justiça transformativa, explica, porque essa abordagem presta atenção não apenas às necessidades de quem foi vitimizado, mas também às formas pelas quais a própria sociedade gera as forças que empurram pessoas a agir de maneiras violentas e contraproducentes. O argumento é que o papel dos abolicionistas é reivindicar uma sociedade que não precise dessas estruturas violentas — e o único modo de fazer isso é atendendo às necessidades humanas e encorajando a imaginação por meio da educação.

Sobre o papel crescente de reconhecimento facial, inteligência artificial e algoritmos preditivos na segurança pública, Davis é direta: acha perigoso. A base é o racismo estrutural. O policiamento preditivo, diz, é projetado para manter as estruturas sociais e econômicas exatamente como estão. Ela trabalhou com questões prisionais por muito tempo e observou pessoas que nunca tiveram chance de ir à escola, de pensar sobre si mesmas criticamente, de experimentar a alegria da leitura, da escrita, da poesia e da arte. Muitas vezes elas não descobrem essas possibilidades até estarem na prisão, quando já é tarde demais. Há pouco tempo, Davis se encontrou com um grupo de homens, sobretudo negros e latinos, em Pelican Bay, uma das piores prisões dos EUA — um grupo de leitura formado por homens que passarão o resto de suas vidas encarcerados. Ela ficou impressionada ao vê-los lendo Michel Foucault. Se ao menos tivessem reconhecido antes que esse tipo de experiência era possível, pensou, não estariam lá. Foi emocionante e muito, muito triste.

Quanto à supremacia branca nos Estados Unidos, Davis nega que esteja em ascensão. "Eles apenas saíram do armário", diz, com uma risada que reconhece a imperfeição da metáfora. A supremacia branca faz parte da história americana, mas quando os exemplos mais extremos foram responsáveis pelo ataque ao Congresso em 2021, representavam talvez um quarto da população. Dizer que o presidente representa a grande maioria é falso. O retorno de Trump, segundo Davis, aconteceu porque muitas pessoas deixaram de votar. Se esquecermos disso, assumimos que o conservadorismo e a supremacia branca estão em ascensão. Ela não acredita que estejam. Sobre o movimento "Defund the Police", Davis reconhece que fracassou em grande parte por causa de intervenções conservadoras, mas as bases foram lançadas. As formas como comunidades se levantaram contra o ICE em lugares como Minnesota e Chicago indicam que o nível de resistência ainda é grande.

Quanto à questão palestina, Davis argumenta que há muitas pessoas envolvidas na luta palestina há décadas, inclusive ela, que também se posicionam contra o antissemitismo. A tentativa de equiparar antissemitismo com solidariedade palestina é uma tática usada pelos conservadores. Nos EUA, pesquisas indicam que a maioria se inclina mais para a solidariedade palestina do que para o Estado de Israel — é a primeira vez que vemos essa expressão, e é lamentável ter sido necessária a destruição genocida de Gaza para que essa sensibilidade política emergisse.

Sobre a maior fraqueza do movimento progressista atual, Davis é clara: não estão organizados da forma que deveriam. As possibilidades estão aí, mas não encontraram as formas organizacionais que permitirão dar expressão a esses sentimentos políticos. Partidos conservadores ganham apoio entre trabalhadores, jovens e grupos socialmente minorizados em diversos países, e Davis acredita que isso tem muito a ver com a ascensão dos bilionários e o fato de que a riqueza está concentrada de uma forma que nunca experimentamos na história da humanidade.

Quando questionada se ainda vê o Brasil como um "farol de esperança" após a derrota de Jair Bolsonaro, Davis responde que sim. Ela se lembra da primeira vez que veio ao Brasil em 1997, quando as pessoas ficaram empolgadas porque foi entrevistada por uma mulher negra na televisão — e foi só porque havia duas mulheres negras na TV. Ela pensa naquele momento e em como é empolgante fazer parte dessas mudanças. Sobre ser vista como um ícone, Davis é enfática: detesta isso. Reconhece que existe o risco de a "iconização" tornar suas ideias menos perturbadoras e mais fáceis de serem abraçadas pelo mercado. Ela não se vê como um ícone, mas como alguém tentando fazer diferença ao usar as plataformas disponíveis. Atualmente, está trabalhando em um projeto com Gina e Terri Lyne Carrington, uma das bateristas de jazz mais importantes hoje, escrevendo um livro sobre Geri Allen, pianista de jazz que morreu prematuramente em 2017. Allen foi muito influente mas não reconhecida; eles entrevistaram cerca de 60 músicos de jazz e estão tentando corrigir esse registro histórico.

Eles apenas saíram do armário
— Angela Davis, sobre supremacistas brancos nos EUA
Não me vejo como um ícone, mas como alguém que está tentando fazer a diferença ao usar as plataformas que se tornam disponíveis
— Angela Davis
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