No Brasil, o governo federal mantém artificialmente baixos os preços dos combustíveis por meio de subsídios que somam R$ 46,2 bilhões — um alívio imediato para o consumidor que, segundo o economista Alexandre Bertoncello, esconde uma conta adiada para depois das eleições. As desonerações da gasolina e do etanol encerram-se em 9 de novembro, quinze dias após o segundo turno, momento em que a pressão inflacionária represada poderá se manifestar com força sobre uma economia que já supera sua própria meta de inflação. É a geometria clássica do tempo político em conflito com o tempo econômico.
Subsídios de R$ 46,2 bi criam 'cavalo de Troia' nos combustíveis, alerta economista
A conta fica para os contribuintes, tenham carro ou não
Por que o economista chama isso de cavalo de Troia? Parece uma crítica política, não apenas técnica.
Porque o benefício é visível agora — combustível mais barato antes das eleições — mas o custo fica escondido. R$ 46,2 bilhões em subsídios não desaparecem; eles pressionam a dívida pública e a inflação depois.
Mas quanto desse impacto inflacionário é realmente certo? Ele diz que se os combustíveis subirem 17,5%, o impacto pode chegar a 1,4 ponto porcentual. Isso é uma projeção, não um fato confirmado.
Verdade. Ele usa a metodologia do IBGE para calcular o efeito, mas o tamanho real da alta em novembro é desconhecido. Pode ser menor, pode ser maior.
E quanto aos beneficiários? Quem realmente se beneficia desses subsídios?
Empresas do setor de combustíveis recebem recursos públicos. Consumidores pagam menos agora. Mas o custo recai sobre todos os contribuintes, tenham carro ou não.
Ele não detalha quanto cada grupo se beneficia. Sabemos o total — R$ 46,2 bilhões — mas não a distribuição entre empresas, transportadoras e consumidores finais.
E a comparação internacional? O Brasil realmente está tão fora da linha?
Sim. Gasolina 20% mais barata que a média mundial, diesel 15% mais barato. Mas ele nota que outros países também subsidiam combustíveis por causa da guerra no Golfo Pérsico.
Então a questão não é se subsidiar, mas quanto subsidiar. E se o Brasil está exagerando.
Exatamente. E o timing político — terminar em 9 de novembro, 15 dias após as eleições — levanta questões sobre as intenções por trás da política.
Le Pouls
- O governo subsidia gasolina, etanol e diesel em bilhões de reais, mantendo preços na bomba descolados do custo real — uma distorção que o contribuinte financia mesmo sem possuir automóvel.
- Sem os subsídios, a gasolina poderia custar 14% a mais, o diesel 21,37% a mais, em um país onde a inflação já acumula 4,58% nos últimos 12 meses e ultrapassa o teto da meta oficial.
- O calendário é o nó central: as desonerações terminam em 9 de novembro, exatamente 15 dias após as eleições, sugerindo que o impacto foi deliberadamente postergado para além do momento eleitoral.
- Se os combustíveis subirem em média 17,5% após o fim dos benefícios, o choque inflacionário estimado pode alcançar 1,4 ponto porcentual, agravando uma dívida pública já pressionada por gastos não previstos no orçamento.
No Brasil, o governo federal mantém artificialmente baixos os preços dos combustíveis por meio de subsídios que somam R$ 46,2 bilhões — um alívio imediato para o consumidor que, segundo o economista Alexandre Bertoncello, esconde uma conta adiada para depois das eleições. As desonerações da gasolina e do etanol encerram-se em 9 de novembro, quinze dias após o segundo turno, momento em que a pressão inflacionária represada poderá se manifestar com força sobre uma economia que já supera sua própria meta de inflação. É a geometria clássica do tempo político em conflito com o tempo econômico.
O economista Alexandre Bertoncello alerta que o governo federal está sustentando os preços dos combustíveis artificialmente por meio de desonerações e subsídios que somam cerca de R$ 46,2 bilhões. A gasolina recebe desconto de R$ 0,89 por litro, o etanol de R$ 0,19, e o diesel importado conta com subvenção adicional de R$ 1,40 por litro. Em São Paulo, o litro de gasolina comum custa em média R$ 6,34 — um valor que não reflete o custo real do produto, mas sim uma realidade distorcida pelo dinheiro público.
Sem essas intervenções, os preços seriam substancialmente maiores: 14% a mais para a gasolina, 4,86% para o etanol e 21,37% para o diesel. O impacto inflacionário não é trivial. Pelo método do IBGE, cada 1% de variação nos combustíveis repercute em até 0,08 ponto porcentual no IPCA quando considerados os efeitos indiretos sobre transporte, produção e distribuição — e o país já acumula inflação de 4,58% nos últimos 12 meses, acima do teto de tolerância de 4,5%.
O ponto mais sensível é o calendário. As desonerações da gasolina e do etanol encerram-se em 9 de novembro, apenas 15 dias após o segundo turno das eleições. Bertoncello estima que, se os combustíveis subirem em média 17,5%, o choque sobre a inflação poderá chegar a 1,4 ponto porcentual. Parte dessas despesas não estava prevista no orçamento, pressionando ainda mais a dívida pública — enquanto empresas do setor recebem recursos dos cofres públicos financiados por todos os contribuintes.
Bertoncello resume a situação com uma metáfora direta: o governo construiu um cavalo de Troia para a sociedade brasileira. Os benefícios visíveis de hoje encobrem custos estruturais que se revelarão depois das eleições. A pergunta que permanece em aberto é política — e será respondida em janeiro de 2027.
O economista Alexandre Bertoncello levanta um alerta sobre uma estratégia fiscal que, segundo ele, mascara uma crise maior. O governo federal está mantendo os preços dos combustíveis artificialmente baixos através de subsídios e desonerações que já somam aproximadamente R$ 46,2 bilhões em custos públicos anunciados. A gasolina recebe uma desoneração de R$ 0,89 por litro, o etanol de R$ 0,19, e o diesel importado conta com uma subvenção adicional de R$ 1,40 por litro. Esses números, extraídos de dados da Agência Nacional do Petróleo, do Banco Central e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, revelam o tamanho real da intervenção.
Sem essas desonerações, os preços poderiam ser significativamente maiores. A gasolina custaria aproximadamente 14% a mais, o etanol 4,86% e o diesel 21,37%. Em São Paulo, onde a ANP monitora os preços, o litro de gasolina comum custa em média R$ 6,34, o etanol R$ 3,91 e o diesel R$ 6,55. Esses valores refletem uma realidade distorcida pelo subsídio. O que o consumidor paga na bomba não corresponde ao custo real do produto; a diferença é financiada pelo orçamento público ou representa impostos que deixam de ser arrecadados.
O impacto inflacionário dessa política é considerável. Segundo a metodologia do IBGE, uma variação de 1% no preço dos combustíveis provoca um impacto direto estimado de 0,06 ponto porcentual no IPCA. Quando se incluem os efeitos indiretos sobre custos de transporte, produção e distribuição, o impacto total pode chegar a 0,08 ponto porcentual. Essa relevância ganha peso especial em um contexto onde a inflação já acumula 4,58% nos últimos 12 meses, superando a meta oficial de 3% ao ano e ultrapassando o limite superior de tolerância de 4,5%.
Comparativamente, o Brasil oferece combustíveis significativamente mais baratos que a média mundial. A gasolina custa aproximadamente 20% menos no Brasil, enquanto o diesel apresenta uma diferença de cerca de 15%. Embora diversos países estejam adotando subsídios para conter a alta dos combustíveis diante da guerra no Golfo Pérsico, a magnitude da intervenção brasileira se destaca.
O ponto crítico está no calendário. As desonerações da gasolina e do etanol estão previstas para terminar em 9 de novembro, apenas 15 dias após o segundo turno das eleições. Bertoncello não especula sobre um aumento imediato de 15%, mas aponta que o fim dos benefícios trará uma nova pressão sobre o bolso dos brasileiros. Se os combustíveis subirem em média 17,5%, o impacto estimado sobre a inflação poderá chegar a 1,4 ponto porcentual, considerando efeitos diretos e indiretos. Isso em um país que já acumula inflação elevada.
A questão fiscal é igualmente preocupante. Parte dessas despesas não estava prevista no orçamento original e poderá pressionar ainda mais a dívida pública brasileira. Simultaneamente, as empresas do setor de combustíveis estão entre as beneficiadas, recebendo recursos dos cofres públicos enquanto a conta é financiada pelos contribuintes brasileiros, independentemente de possuírem automóvel ou não.
Bertoncello estrutura seu argumento em torno de uma metáfora: o governo criou um cavalo de Troia para a sociedade brasileira. Os benefícios imediatos mascaram custos estruturais que se revelarão após as eleições. A pergunta que ele deixa em aberto é política: quem assumirá o governo em janeiro de 2027, quem criou essa bomba-relógio ou quem terá condições de desarmar suas consequências.
Citations marquantes
O governo federal está desonerando a gasolina em R$ 0,89 por litro e o etanol em R$ 0,19, além de conceder uma subvenção adicional de R$ 1,40 por litro de diesel importado— Alexandre Bertoncello, economista
A gasolina custa aproximadamente 20% menos no Brasil, enquanto o diesel apresenta uma diferença de cerca de 15% comparado à média mundial— Alexandre Bertoncello, economista