No coração de uma nação ainda às voltas com as feridas de sua história colonial, o Supremo Tribunal Federal brasileiro aproxima-se de uma decisão que definirá se os povos indígenas têm direito às terras que sempre habitaram ou apenas àquelas que ocupavam numa data arbitrária de 1988. Com cinco votos já contrários ao chamado marco temporal, a Corte está a um passo de rejeitar uma tese que o próprio Congresso tenta transformar em lei — revelando uma tensão profunda entre os Poderes sobre quem, afinal, interpreta a alma da Constituição. O que está em julgamento não é apenas uma data: é a memória,
STF a um voto de rejeitar marco temporal; Senado reclama prerrogativa legislativa
Nós estamos aqui a julgar o destino dos povos originários
Por que o Senado está tão preocupado com o que o Supremo vai decidir? Eles não deveriam estar focados em legislar?
Porque se o Supremo rejeitar o marco temporal, qualquer lei que o Congresso aprovar sobre o tema pode ser declarada inconstitucional. O Senado quer ter a última palavra, mas o Supremo está dizendo que a Constituição já deu a resposta.
E se o Congresso aprovar mesmo assim? O Supremo pode fazer algo?
Pode. Pode esperar a lei ser sancionada e depois derrubá-la em uma ação judicial. Ou pode fazer um controle prévio, dizendo antes que a lei violaria cláusulas pétreas. De qualquer forma, a Corte tem ferramentas para bloquear.
Cláusulas pétreas? O que são?
São direitos fundamentais da Constituição que não podem ser alterados nem por emenda constitucional. Se os direitos indígenas forem considerados cláusula pétrea, nem uma PEC consegue mexer neles.
Então o Senado está reclamando de algo que já perdeu?
Não exatamente. Eles ainda têm esperança de que um ministro mude de voto. Falta apenas um voto para o Supremo rejeitar o marco temporal. Enquanto isso não acontece, o Senado segue pressionando e tentando legislar.
E Rosa Weber, a presidente do Supremo? Por que ela está tão apressada?
Porque se aposenta no fim de setembro. Ela quer votar neste caso antes de sair, porque sabe que é importante demais para deixar para trás.
O Pulso
- O placar de 5 a 2 no STF contra o marco temporal coloca a tese à beira da derrota definitiva, bastando apenas mais um voto na sessão de quinta-feira.
- Enquanto a Corte caminha para rejeitar a tese, o Senado debate simultaneamente um projeto de lei que faria exatamente o oposto — criando uma colisão direta entre os Poderes.
- Senadores não pouparam palavras: Sérgio Moro sugeriu fechar o Legislativo se o Supremo usurpar sua prerrogativa, enquanto outros alertaram para 'mecanismos de freio' contra os ministros.
- A presidente do STF, Rosa Weber, pautou o julgamento contra pressões políticas e corre contra o próprio relógio — sua aposentadoria compulsória ocorre no fim de setembro.
- Constitucionalistas alertam que, se o STF rejeitar o marco temporal, qualquer lei aprovada pelo Congresso sobre o tema poderá ser declarada inconstitucional, tornando o esforço legislativo inócuo.
No coração de uma nação ainda às voltas com as feridas de sua história colonial, o Supremo Tribunal Federal brasileiro aproxima-se de uma decisão que definirá se os povos indígenas têm direito às terras que sempre habitaram ou apenas àquelas que ocupavam numa data arbitrária de 1988. Com cinco votos já contrários ao chamado marco temporal, a Corte está a um passo de rejeitar uma tese que o próprio Congresso tenta transformar em lei — revelando uma tensão profunda entre os Poderes sobre quem, afinal, interpreta a alma da Constituição. O que está em julgamento não é apenas uma data: é a memória, a identidade e o futuro de comunidades inteiras.
Na quarta-feira, 20 de setembro, o Supremo Tribunal Federal retomou um dos julgamentos mais divisivos dos últimos anos: a validade do marco temporal indígena, que restringiria o direito de demarcação de terras apenas aos territórios ocupados pelos povos originários na data de promulgação da Constituição, 5 de outubro de 1988. Com o voto do ministro Dias Toffoli contra a tese, o placar chegou a cinco votos contrários e dois favoráveis. A sessão seguinte, marcada para quinta-feira, pode ser suficiente para formar a maioria definitiva e derrubar a tese.
O que torna o momento ainda mais tenso é a simultaneidade com o processo legislativo. A Câmara dos Deputados já aprovara em maio um projeto de lei que consagra justamente o marco temporal, e o texto aguarda análise no Senado. Na comissão senatorial, parlamentares deixaram recados explícitos ao Supremo. Sérgio Moro afirmou que seria melhor fechar o Legislativo se o Congresso abrisse mão de sua prerrogativa de legislar. Outros senadores reforçaram que a palavra final sobre o tema deveria caber ao Parlamento, não à Corte.
A presidente do STF, Rosa Weber, resistiu às pressões da bancada ruralista e do presidente da Câmara, Arthur Lira, que desejavam adiar o julgamento. Conhecida por defender pautas de direitos humanos, Weber se aposenta compulsoriamente no fim de setembro e sinalizou que não quer deixar o tribunal sem participar desta decisão histórica.
Em seu voto, Toffoli reconheceu que o vínculo das comunidades com seus territórios não pode ser reduzido a uma data constitucional. Ele refletiu sobre o peso simbólico do julgamento: a controvérsia, disse, é analisada pelo olhar dos invasores, e o que está em causa é a pacificação de uma situação histórica.
Se o STF rejeitar o marco temporal, o projeto de lei no Congresso ficará em xeque. Constitucionalistas explicam que a lei poderia tecnicamente tramitar, mas seria declarada inconstitucional pelo próprio Supremo. Há quem vá além: os direitos indígenas são cláusula pétrea da Constituição e não podem ser suprimidos nem por emenda constitucional. O máximo intérprete da Carta já deu seu sinal — e nenhuma lei ordinária conseguirá se sobrepor a isso.
Na quarta-feira, 20 de setembro, o Supremo Tribunal Federal retomou um julgamento que divide o país: se povos indígenas podem reivindicar apenas terras que ocupavam em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição, ou se têm direito a territórios que tradicionalmente habitam independentemente dessa data. Com o voto do ministro Dias Toffoli contra a tese do marco temporal, o placar chegou a cinco votos contra e dois a favor. A votação será retomada na sessão de quinta-feira, 21. Se apenas um ministro a mais rejeitar a ideia, a maioria da Corte estará formada e a tese será derrubada.
O que torna esse momento particularmente tenso é que o Congresso Nacional está votando sobre o mesmo assunto simultaneamente. A Câmara dos Deputados aprovou em maio um projeto de lei que restringe as demarcações de terras indígenas justamente ao marco temporal de 1988. Esse projeto aguarda análise na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Enquanto o Supremo caminha para rejeitar a tese, o Legislativo tenta transformá-la em lei. É um embate clássico entre Poderes sobre quem tem competência para decidir a questão.
Na sessão da comissão do Senado, os senadores não disfarçaram suas mensagens diretas aos ministros do Supremo. Plínio Valério, do PSDB do Amazonas, afirmou que senadores têm o mesmo tamanho que ministros e possuem mecanismos para frear o que chamou de desmandos. Sérgio Moro, da União Paraná, foi mais direto: se o Congresso abrir mão de sua prerrogativa de legislar, disse ele, é melhor fechar o Legislativo e deixar que o Supremo resolva tudo. Weverton Rocha, do PDT do Maranhão, reforçou que a decisão cabe ao Congresso, não ao Supremo. O relator do projeto no Senado, Marcos Rogério do PL de Rondônia, argumentou que a Corte só poderia se pronunciar após a lei ser sancionada, não enquanto o debate está em andamento no Parlamento.
A presidente do Supremo, Rosa Weber, colocou o caso na pauta apesar da pressão da bancada ruralista e do presidente da Câmara, Arthur Lira, que esperavam adiar o julgamento. Weber, conhecida por defender pautas de direitos humanos, corre contra o tempo: se aposenta compulsoriamente no fim de setembro e sinalizou aos colegas que não quer deixar o tribunal sem participar deste julgamento.
O relator do caso, Edson Fachin, votou contra o marco temporal, assim como Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Luís Roberto Barroso e Dias Toffoli. Os cinco entendem que o direito das comunidades aos territórios que tradicionalmente ocupavam não depende de uma data fixa. Apenas Nunes Marques e André Mendonça votaram a favor da tese. Em seu voto, Toffoli afirmou que as demarcações dependem de um vínculo comprovado com o território, mas que esse vínculo não está necessariamente na data de promulgação da Constituição. Ele também refletiu sobre o peso histórico da questão: "É uma controvérsia que é julgada, se nós formos olhar pelo olhar da história, pelos invasores. Nós estamos aqui a julgar a pacificação de uma situação histórica."
Se o Supremo rejeitar o marco temporal, o projeto de lei no Congresso entrará em xeque. O constitucionalista Georges Abboud, professor da PUC de São Paulo, explicou que o projeto poderia tecnicamente tramitar, mas seria inócuo: o Supremo poderia novamente declarar sua inconstitucionalidade. O ex-secretário de Justiça de São Paulo Belisário dos Santos Júnior foi além, argumentando que os direitos indígenas são cláusula pétrea da Constituição e não podem ser alterados nem por uma Proposta de Emenda Constitucional.
O Supremo teria dois caminhos se o Congresso insistir na votação do projeto. Poderia aguardar a aprovação e promulgação da lei para analisar ações judiciais que questionem sua constitucionalidade. Ou poderia fazer um controle prévio de constitucionalidade, procedimento que ocorre quando há risco de violação de cláusulas pétreas. O que está em jogo agora é a interpretação da Constituição dada por seu máximo intérprete, e nenhum projeto de lei conseguirá se sobrepor a isso.
Citações Notáveis
É uma controvérsia que é julgada, se nós formos olhar pelo olhar da história, pelos invasores. Nós estamos aqui a julgar a pacificação de uma situação histórica.— Ministro Dias Toffoli, em seu voto no STF
Um PL não tem qualquer possibilidade de se sobrepor à Constituição. O que está em jogo é a interpretação da Constituição dada pelo seu máximo intérprete, que é o Supremo Tribunal Federal.— Belisário dos Santos Júnior, ex-secretário de Justiça de São Paulo