PEC que reduz jornada de 44 para 40 horas sem corte salarial aumentaria expressivamente custos de produção da Stellantis, já em análise no Senado. Tarifa de importação de 35% é insuficiente para desestimular modelo CKD/SKD chinês; empresa considera ampliar parcerias com fabricantes asiáticas se regras não mudarem.
Stellantis calcula impactos de 6x1 e cobra regras para frear avanço chinês no Brasil
Se esse modelo começar a migrar para SKD, essa é a cadeia que está em risco
A Stellantis está basicamente dizendo que, se o Brasil não criar regras que favoreçam a produção local, ela vai simplesmente importar kits prontos da China. É isso?
Exatamente. Ela já tem parcerias com chinesas e está aberta a ampliar. O que ela está pedindo é que o próximo governo escolha: ou cria incentivos para produção local, ou aceita que a indústria automóvel brasileira vire basicamente uma montadora de peças importadas.
Mas espera. Ela diz que 35% de tarifa é insuficiente. Insuficiente para quem? Para a Stellantis competir com a China, ou para proteger o Brasil? Porque se aumentar muito a tarifa, o carro fica mais caro para o consumidor.
Boa pergunta. Zola está falando do ponto de vista da empresa. Ele quer que seja mais caro importar do que produzir localmente. Mas você tem razão — não sabemos qual seria o nível de tarifa que equilibraria isso sem encarecer demais o carro.
E a questão da escala 6x1? Isso é realmente um fator decisivo para a Stellantis?
Parece ser. Ela já está calculando o impacto. Se a jornada cair de 44 para 40 horas sem corte salarial, os custos de produção sobem. A Argentina é o exemplo: lá os custos de mão de obra são o dobro, e a produção não é competitiva.
Mas a Stellantis não diz quanto exatamente subiria o custo. Ela diz que é "expressivo" e "importante", mas não coloca número. Isso é uma estimativa dela ou há estudos independentes?
Não há números específicos no que Zola disse. Ele reconheceu o impacto, mas não quantificou. É verdade que a empresa está fazendo cenários, mas não compartilhou os cálculos.
E se o Brasil não fizer nada? Se deixar as coisas como estão?
Aí a Stellantis segue o modelo SKD — importa kits, monta aqui, e reduz a força de trabalho em 90%. Ela deixa claro que está preparada para isso.
Espera, 90%? Ela tem 35 mil funcionários na América do Sul. Isso significa 31.500 demissões potenciais. Mas isso é uma ameaça ou um cenário real? Porque se ela realmente precisasse de apenas 10% dos funcionários, por que manteria os outros agora?
É um cenário hipotético que ela está colocando na mesa. Ela está dizendo: se as regras não mudarem, essa é a direção que vamos tomar. É uma forma de pressionar o próximo governo.
Então a Stellantis está basicamente negociando com o Brasil?
Sim. Ela está dizendo: deem-me regras claras e incentivos para produção local, ou eu vou importar tudo da China e reduzo drasticamente minha operação aqui.
Le Pouls
- PEC no Senado reduz jornada de 44 para 40 horas sem corte salarial
- Tarifa de importação atual é 35%; Stellantis diz ser insuficiente
- Brasil representa 65% do mercado sul-americano da Stellantis
- Stellantis tem 35 mil funcionários na América do Sul; precisaria de apenas 10% se adotar modelo SKD
- Participação da Peugeot na Argentina caiu de 9% para 5% em um ano
PEC que reduz jornada de 44 para 40 horas sem corte salarial aumentaria expressivamente custos de produção da Stellantis, já em análise no Senado. Tarifa de importação de 35% é insuficiente para desestimular modelo CKD/SKD chinês; empresa considera ampliar parcerias com fabricantes asiáticas se regras não mudarem.
Stellantis analisa impactos da possível aprovação do fim da escala 6x1 e demanda regras claras do próximo governo para competir com montadoras chinesas e definir investimentos na região.
A menos de três semanas do segundo turno presidencial, a Stellantis já trabalha com números e cenários para o que pode mudar na indústria automóvel brasileira a partir de 2027. No topo da lista estão duas questões que se entrelaçam: o possível fim da escala 6x1 e a estratégia para conter o avanço das montadoras chinesas no mercado sul-americano.
No Senado, uma PEC avança em discussão. O texto propõe eliminar a escala de seis dias de trabalho para um de descanso e reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas, mantendo os salários. A votação pode acontecer ainda antes do segundo turno. Herlander Zola, presidente da Stellantis para a América do Sul, não quis entrar no debate político, mas foi direto ao ponto econômico: uma aprovação aumentaria de forma expressiva os custos de produção. A empresa já calcula esses cenários. "Sobre o ponto de vista de custos, tem um impacto importante dentro da indústria", disse Zola em almoço com jornalistas em São Paulo, no dia 6 de outubro. Ele explicou que o trabalho agora é identificar os riscos e preparar os movimentos necessários caso a regra mude — um plano que, segundo ele, já existe.
A Argentina oferece um espelho do que pode acontecer quando custos de mão de obra sobem. Lá, a Stellantis mantém duas fábricas, mas o custo do trabalho é literalmente o dobro do brasileiro. Somado a um parque de fornecedores limitado e à necessidade de importar peças do Brasil, a produção argentina deixou de ser competitiva. A abertura do mercado argentino piorou tudo: a participação da Peugeot caiu de cerca de 9% no ano passado para aproximadamente 5% neste ano. A demanda pela fábrica de El Palomar encolheu. A Stellantis fez ajustes na planta e agora discute o futuro da estrutura industrial no país. Mas essa decisão não é só argentina. O Brasil responde por cerca de 65% do mercado sul-americano, o que significa que o que acontecer aqui será determinante para toda a região. "Enquanto a gente não conseguir ter um nível de previsibilidade adequado daquilo que vai acontecer no mercado brasileiro, é difícil tomar uma decisão industrial hoje na América do Sul com segurança", afirmou Zola.
No primeiro semestre de 2026, a Stellantis faturou 7,96 bilhões de euros na América do Sul, uma alta de 2% em relação ao mesmo período do ano anterior. Mas o lucro operacional ajustado caiu 33%, para 795 milhões de euros, e a margem recuou de 15,3% para 10%. Mesmo assim, o grupo segue como líder regional, com cerca de 480 mil veículos emplacados e 20,3% de participação. No Brasil, foram mais de 372 mil carros emplacados.
Além da questão trabalhista, a Stellantis tenta entender quais regras o próximo governo — seja o quarto mandato de Lula ou o novo governo de Flávio Bolsonaro — pretende estabelecer para a produção de veículos. Um ponto central é o regime de CKD e SKD, no qual carros são produzidos no exterior e chegam desmontados ou parcialmente desmontados para serem finalizados no Brasil. Hoje, mesmo com uma tarifa de importação de 35%, Zola diz que a conta não fecha. Para as chinesas, ainda é mais vantajoso produzir nesse modelo do que investir em produção com maior conteúdo nacional. "35% é insuficiente para que a gente garanta que o modelo de localização é mais adequado", afirmou.
Zola não vê apenas um caminho. Aumentar a taxação para montadoras que "só montam" carro no Brasil é uma opção. Outra seria criar incentivos para quem efetivamente produz e compra componentes brasileiros — aço, pneus, amortecedores, molas, plásticos. Mas a Stellantis deixa claro: se nenhuma alternativa for adotada, a empresa não descarta aderir ao modelo que critica. Se a equação econômica continuar favorecendo a importação de kits, a companhia diz estar preparada para jogar pelas mesmas regras. Nesse cenário, precisaria de apenas 10% dos cerca de 35 mil funcionários que tem na América do Sul. "Se esse modelo começar a migrar realmente para SKD, essa é a cadeia que está em risco", disse Zola.
A Stellantis já tem parcerias estabelecidas com as chinesas Leapmotor e Dongfeng. Agora estuda ampliar essas relações. "Eu posso me associar a mais uma, a mais duas ou a mais dez, dependendo daquilo que for necessário para garantir o nível de competitividade que é importante para a empresa na nossa região", afirmou. A mensagem é clara: sem regras que tornem a produção local viável, a empresa seguirá o dinheiro, mesmo que isso signifique reduzir drasticamente sua força de trabalho na região.
Citations marquantes
Sobre o ponto de vista de custos, tem um impacto importante dentro da indústria— Herlander Zola, presidente da Stellantis para a América do Sul
35% é insuficiente para que a gente garanta que o modelo de localização é mais adequado— Herlander Zola