Um site B22 oferece tokens com valor financeiro a quem divulgar vídeos que pedem votos no número 22, usando crianças africanas como gancho humanitário. Advogados eleitorais apontam que o esquema replica condenação de Marçal por abuso econômico e constitui potencial doação ilegal de pessoa jurídica à campanha.
Site de criptomoedas distribui tokens por divulgação de voto em Flávio Bolsonaro
Quanto mais propaganda é compartilhada, mais o token sobe, mais dinheiro vai para as crianças
Como exatamente esse esquema funciona? Alguém compra o token e depois ganha mais tokens por compartilhar?
Não bem assim. O site oferece tokens como recompensa para quem faz publicações em redes sociais mostrando que participa da comunidade B22. Os tokens têm valor financeiro que pode aumentar conforme a demanda pela criptomoeda cresce.
Mas quem está realmente ganhando dinheiro aqui? As crianças em Uganda, ou os especuladores que compram o token esperando que suba de preço?
Segundo o site, parte das vendas financia projetos para as crianças. Mas a estrutura cria um incentivo perverso: quanto mais propaganda eleitoral é compartilhada, mais o token se valoriza, e supostamente mais dinheiro vai para Uganda.
Isso é parecido com o que Pablo Marçal fez?
Muito parecido. Marçal oferecia prêmios em dinheiro para quem criasse vídeos com sua hashtag de campanha. A Justiça Eleitoral o condenou por abuso econômico.
Mas Marçal foi condenado especificamente por aquele esquema. Isso significa que este novo esquema B22 já é automaticamente ilegal?
Não automaticamente. Mas advogados eleitorais apontam que segue a mesma lógica e estrutura, o que sugere que violaria as mesmas leis.
E quanto à defesa do site, que diz ser independente de qualquer campanha?
Essa defesa é frágil. Os vídeos mostram crianças cantando "vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro". Não há ambiguidade ali.
Exatamente. E pesquisadores alertam que é uma operação complexa que mistura cripto, caridade e campanha de forma que torna difícil separar onde termina uma coisa e começa outra.
Quem está por trás disso tudo?
Não está totalmente claro. Perfis de Kevim Flores estão promovendo, mas ele não se identifica como dono do site. O registro do site é privado e protegido por sigilo.
O Pulso
- Site B22 oferece tokens com valor financeiro a quem divulgar vídeos pedindo votos no número 22
- Vídeo com crianças africanas cantando "vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro" teve 1,2 milhão de visualizações
- Advogados eleitorais apontam que o esquema replica condenação de Pablo Marçal por abuso econômico em 2024
- Pesquisadores alertam que a operação viola proibição de campanhas por pessoas jurídicas
Um site B22 oferece tokens com valor financeiro a quem divulgar vídeos que pedem votos no número 22, usando crianças africanas como gancho humanitário. Advogados eleitorais apontam que o esquema replica condenação de Marçal por abuso econômico e constitui potencial doação ilegal de pessoa jurídica à campanha.
Site de criptomoedas distribui tokens para usuários que compartilhem conteúdo incentivando voto em Flávio Bolsonaro, replicando esquema condenado de Pablo Marçal e potencialmente violando legislação eleitoral.
Na terça-feira 6 de outubro, um site de negociação de criptomoedas colocou no ar um programa de distribuição de tokens digitais com valor financeiro real. A mecânica era simples: usuários que compartilhassem vídeos incentivando votos no número 22 — o número de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial — receberiam esses tokens como recompensa. Os tokens, segundo o site, poderiam gerar ganhos financeiros conforme sua cotação subisse.
O esquema estava sendo promovido através de um perfil do Instagram chamado hyperskidsafrica, que possui 12,9 milhões de seguidores e arrecada recursos para construir casas para crianças em Uganda. Um vídeo postado no perfil mostrava crianças africanas dançando em camisetas amarelas com a inscrição "B22 token", cantando "vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro". O vídeo acumulou 1,2 milhão de visualizações. Nele, as crianças pediam explicitamente que as pessoas confiassem em Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro e Pablo Marçal, e incentivavam a compra e compartilhamento do token B22 como forma de "ajudar o Brasil".
O site informava que a distribuição de tokens funcionava assim: qualquer pessoa que fizesse uma publicação em rede social mostrando participação na comunidade B22 receberia tokens. Segundo o site, parte das vendas da criptomoeda financiaria os projetos para as crianças em Uganda, entrelaçando assim um apelo humanitário com incentivos financeiros diretos para divulgação de propaganda eleitoral.
Helio Silveira, advogado eleitoral que liderou a equipe jurídica da candidata à Prefeitura de São Paulo Tabata Amaral em 2024, reconheceu no esquema uma estrutura idêntica à dos campeonatos de cortes de vídeo que o então candidato Pablo Marçal havia realizado. "Trata-se da mesma lógica e estrutura do que Marçal fazia — oferece incentivos financeiros para as pessoas divulgarem a campanha e o candidato", afirmou Silveira. Além disso, o advogado apontou que o esquema poderia constituir uma doação ilegal de uma pessoa jurídica — a empresa de criptomoedas — à campanha de Flávio Bolsonaro, usando sua estrutura e incentivos para fazer propaganda do voto no número 22.
Marçal havia sido condenado pela Justiça Eleitoral por abuso de poder econômico justamente por causa daqueles campeonatos de cortes. A Justiça Eleitoral entendeu que oferecer prêmios em dinheiro para que pessoas criassem e compartilhassem conteúdo com a hashtag #prefeitomarçal violava a legislação que proíbe concessão de vantagem econômica para veiculação de propaganda eleitoral na internet. Em dezembro de 2025, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo manteve a inelegibilidade de oito anos de Marçal por causa desse esquema.
O site B22 tentava se proteger legalmente, afirmando ser "um movimento que une apoio ao voto 22 e a proposta de ajudar as HypersKids a concluir sua casa em Kampala". Também fazia a ressalva de que a distribuição de tokens era "independente de voto, preferência eleitoral ou divulgação de propaganda eleitoral" e negava ser "oficial, endossado ou vinculado a nenhum político, partido, candidatura ou campanha eleitoral". Mas essas negações contrastavam fortemente com o conteúdo real do site e dos vídeos sendo divulgados.
Na plataforma X, perfis associados a Kevim Flores faziam publicações promovendo o site e atualizações sobre a criptomoeda B22. Flores usava imagens de urnas com o número 22 e a marca do token, e falava sobre a valorização que a criptomoeda teria até uma possível vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno. Em uma publicação, Flores escreveu que até o dia 25 de agosto haveria "mais de 3.000% de valorização nesse meme histórico e legítimo".
Nina Santos, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, descreveu a operação como "extremamente complexa e ilegal". Segundo ela, o esquema viola a proibição fundamental de que pessoas jurídicas façam campanha eleitoral. Além disso, Santos apontou que a operação entrelaça criptomoeda, trabalho humanitário e campanha política de forma que quanto mais o vídeo é compartilhado e quanto mais a moeda vende, mais dinheiro supostamente as crianças ganham — criando um incentivo estrutural para amplificar propaganda eleitoral.
Citações Notáveis
Trata-se da mesma lógica e estrutura do que Marçal fazia — oferece incentivos financeiros para as pessoas divulgarem a campanha e o candidato— Helio Silveira, advogado eleitoral
Vemos uma operação complexa que envolve uso de cripto, trabalho humanitário, visibilidade em redes sociais e campanha eleitoral. É um esquema extremamente complexo e ilegal— Nina Santos, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital