Sistema "Volta" causa caos na higiene urbana de Lisboa com vasculhar de contentores

O fenómeno afeta pessoas em situação de vulnerabilidade económica que recorrem à procura de embalagens como forma de complementar rendimentos.
Pessoas de diferentes estratos sociais a remexerem no lixo
Descrição de Carla Almeida sobre quem procura embalagens do sistema Volta nas ruas de Lisboa.

A Câmara Municipal de Lisboa confirmou episódios de contentores e papeleiras remexidos ou despejados na via pública por pessoas que procuram embalagens do sistema Volta. O fenómeno envolve pessoas de diferentes estratos sociais, não apenas sem-abrigo, que vasculham o lixo para complementar rendimentos com o reembolso de 10 cêntimos por embalagem.

  • Sistema Volta em funcionamento desde 10 de abril de 2026, com reembolso de 10 cêntimos por embalagem
  • Mais de 2.500 pontos de recolha em Portugal continental, Açores e Madeira
  • Contentores remexidos e despejados na via pública em várias zonas de Lisboa
  • Fenómeno envolve pessoas de diferentes estratos sociais, não apenas sem-abrigo

O sistema de depósito de embalagens Volta, em funcionamento há três meses, está a provocar impactos negativos na higiene urbana de Lisboa, com contentores remexidos e despejados na via pública por pessoas que procuram embalagens para obter o reembolso de 10 cêntimos.

Três meses depois de o sistema "Volta" começar a funcionar em Lisboa, a cidade enfrenta um problema que ninguém tinha completamente antecipado: contentores de lixo remexidos, papeleiras despejadas na rua, e um fluxo constante de pessoas à procura de garrafas e latas para ganhar dez cêntimos por cada uma. A Câmara Municipal confirmou esta semana que o fenómeno é real, documentado em várias zonas da capital, e que está a deixar marcas visíveis na higiene urbana.

O sistema "Volta" começou em 10 de abril com uma intenção clara: incentivar a reciclagem. Consumidores pagam um depósito de dez cêntimos quando compram uma garrafa ou lata de plástico, metal ou alumínio com menos de três litros, e recuperam esse dinheiro quando devolvem a embalagem num dos mais de dois mil e quinhentos pontos de recolha espalhados por Portugal continental, Açores e Madeira. É uma medida ambiental sensata, testada com sucesso noutros países europeus. Mas em Lisboa, o incentivo criou uma dinâmica inesperada: pessoas a abrir contentores de lixo, a despejar sacos de resíduos na rua, tudo em busca de embalagens que possam converter em moedas.

A Câmara Municipal, governada por uma coligação PSD/CDS-PP/IL, reconheceu o problema sem oferecer números precisos sobre a sua dimensão. Disse apenas que tem "registo de vários episódios em diferentes zonas da cidade", confirmando que contentores e papeleiras estão a ser remexidos ou esvaziados por pessoas que procuram embalagens para o reembolso. É uma admissão cautelosa, mas clara: o sistema está a gerar externalidades negativas que ninguém tinha planeado gerir.

O que torna a situação mais complexa é quem está envolvido. Carla Almeida, presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, que governa o centro histórico de Lisboa incluindo o Bairro Alto, a Bica e o Chiado, descreveu um fenómeno socialmente diverso. "Não são só os sem-abrigo", disse. "Temos observado pessoas de diferentes estratos sociais a remexerem no lixo, à procura de embalagens. Algumas até estão bem vestidas. Percebe-se que andam a fazer isto como forma de complementarem os seus rendimentos." É um retrato de precariedade económica que vai além dos estereótipos: pessoas que têm casa, que se vestem adequadamente, mas para quem dez cêntimos por garrafa representa uma forma de ganhar alguns euros num dia. Os presidentes das juntas de Santo António e Arroios também se queixaram do agravamento dos problemas de higiene urbana desde que o sistema começou.

A Câmara Municipal enquadra o problema como uma fase inicial de adaptação. O sistema "Volta" é, afinal, uma medida ainda muito recente, e é "expectável existir um período de adaptação por parte da população e dos diferentes intervenientes". Ao mesmo tempo, a autarquia defende que o SDR, como é formalmente chamado, representa "um instrumento importante para aumentar a recolha e a reciclagem de embalagens, contribuindo para os objetivos de sustentabilidade ambiental". Não quer abandonar o sistema, mas também não quer que a cidade fique mais suja.

A resposta da Câmara é dupla. De um lado, promete monitorizar a situação em articulação com as entidades responsáveis pelo sistema, avaliando a necessidade de implementar medidas que minimizem os impactos na higiene urbana. Do outro, diz que está a reforçar a fiscalização, aumentando a equipa de fiscais municipais para intensificar a vigilância de comportamentos que comprometam a limpeza urbana e a qualidade do espaço público. É uma tentativa de equilibrar dois objetivos que, por enquanto, parecem estar em colisão: manter os benefícios ambientais do sistema sem deixar que a cidade se torne mais suja no processo.

O que fica por responder é se este é um problema de implementação ou de conceção. Se é uma questão de comunicação e adaptação que desaparecerá com o tempo, ou se o sistema "Volta", tal como foi desenhado, cria incentivos que inevitavelmente levam a este tipo de comportamento em cidades onde há pessoas economicamente vulneráveis. Lisboa está agora a tentar descobrir como viver com essa resposta.

Não são só os sem-abrigo. Temos observado pessoas de diferentes estratos sociais a remexerem no lixo, à procura de embalagens. Algumas até estão bem vestidas. Percebe-se que andam a fazer isto como forma de complementarem os seus rendimentos.
— Carla Almeida, presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia
O objetivo é garantir que os benefícios ambientais do sistema não sejam comprometidos por efeitos indesejados na limpeza e na qualidade do espaço público.
— Câmara Municipal de Lisboa
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que um sistema de reciclagem bem-intencionado está a criar caos nas ruas de Lisboa?

Model

Porque dez cêntimos, para quem precisa, é dinheiro. O sistema funciona perfeitamente em países onde a pobreza é menos visível ou menos concentrada nas ruas. Em Lisboa, criou um incentivo direto para vasculhar lixo.

Inventor

Mas isso não era previsível?

Model

Talvez tenha sido. Ou talvez ninguém tenha querido pensar muito nisso antes de lançar. Há uma diferença entre saber que algo pode acontecer e estar preparado para lidar com isso quando acontece.

Inventor

A Câmara diz que é uma "fase inicial de adaptação". Acredita nisso?

Model

Depende. Se as pessoas deixarem de procurar embalagens porque a novidade passou, sim. Se continuarem porque precisam do dinheiro, não. E a descrição de Carla Almeida sugere que é a segunda situação.

Inventor

Então qual é a solução?

Model

Não há uma fácil. Podes aumentar a fiscalização, mas estás a punir pessoas que estão a tentar ganhar dinheiro. Podes redesenhar o sistema, mas perdes o incentivo de reciclagem. Ou podes aceitar que a cidade fica mais suja durante um tempo.

Inventor

E o ambiente? Não é isso que importa?

Model

Importa. Mas também importa que as ruas não fiquem cheias de lixo espalhado. O sistema "Volta" resolve um problema ambiental criando outro problema urbano. A questão é qual é mais importante, e para quem.

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