Em vésperas eleitorais, a equipe econômica brasileira anuncia intenções de ajuste fiscal para depois de 2027, enquanto os dados revelam que as despesas federais cresceram R$ 429 bilhões acima da inflação entre 2022 e junho de 2026 — superando em muito o crescimento das receitas. É um padrão antigo: promessas de disciplina orçamentária que chegam no momento em que os votos importam mais do que os números. A história fiscal recente do governo, marcada por exceções sistemáticas às próprias regras, oferece pouco amparo para otimismo.
Sinais de ajuste fiscal do governo são tardios, insuficientes ou enganosos
Tiveram este tempo todo para provar suas credenciais — e o fizeram, apenas com o sinal trocado.
Por que você acha que essas promessas de ajuste fiscal não são credíveis?
Porque o histórico recente é claro. Entre 2022 e junho de 2026, a despesa federal cresceu R$ 429 bilhões acima da inflação, enquanto a receita cresceu apenas R$ 299 bilhões. O gasto total cresceu 20% acima da inflação, bem acima do limite do arcabouço. Eles tiveram tempo para provar que conseguem controlar gastos e não conseguiram.
Mas espera — esses R$ 429 bilhões, isso é o crescimento nominal ou real? Porque a inflação acumulada nesse período foi significativa.
É corrigido pela inflação, então é crescimento real mesmo. O ponto é que o gasto cresceu muito mais do que a receita, em termos reais.
E essas propostas que estão fazendo agora — reduzir de 2,5% para 1,5% de crescimento permitido — isso não ajudaria?
Não, porque o problema não é o limite do arcabouço. O problema é que as despesas obrigatórias crescem a mais de 2,5% ao ano. Sem conter essas despesas, qualquer limite novo vai ser furado da mesma forma que o anterior foi.
Qual é a fonte para o número de 2,5% de crescimento das despesas obrigatórias? Porque isso é um número crítico para o argumento.
É uma observação sobre a trajetória histórica das despesas obrigatórias no período analisado.
Então por que o governo está fazendo essas sinalizações agora?
Porque há uma eleição. Eles querem convencer votantes de centro de que estão preocupados com a responsabilidade fiscal. Mas as promessas são para depois da eleição.
Isso é especulação sobre intenção, certo? O que sabemos é que eles estão fazendo sinalizações agora e dizendo que a implementação seria a partir de 2027.
Sim, é especulação sobre intenção. Mas o padrão histórico sugere que quando um governo promete ajustes para depois de uma eleição, raramente acontece.
Le Pouls
- As despesas federais cresceram 20% acima da inflação em quatro anos, enquanto as receitas avançaram apenas o suficiente para ampliar o rombo estrutural.
- A proposta de reduzir o teto de crescimento do arcabouço fiscal de 2,5% para 1,5% ao ano ignora que as despesas obrigatórias já crescem além desse limite sem qualquer contenção.
- Balões de ensaio como a desvinculação dos benefícios sociais do salário mínimo foram rapidamente abandonados, revelando a fragilidade do compromisso com reformas reais.
- O timing das sinalizações — às vésperas de uma eleição — levanta a suspeita de que o ajuste prometido é instrumento de conquista de eleitores de centro, não um plano econômico concreto.
- Sem enfrentar o crescimento das despesas obrigatórias, qualquer nova regra fiscal corre o risco de repetir o mesmo ciclo de exceções e contornos que caracterizou os últimos anos.
Em vésperas eleitorais, a equipe econômica brasileira anuncia intenções de ajuste fiscal para depois de 2027, enquanto os dados revelam que as despesas federais cresceram R$ 429 bilhões acima da inflação entre 2022 e junho de 2026 — superando em muito o crescimento das receitas. É um padrão antigo: promessas de disciplina orçamentária que chegam no momento em que os votos importam mais do que os números. A história fiscal recente do governo, marcada por exceções sistemáticas às próprias regras, oferece pouco amparo para otimismo.
A equipe econômica do governo vem lançando sinais de ajuste fiscal — mas com uma ressalva estratégica: tudo a partir de 2027. Com uma eleição em curso, as prioridades se reorganizam. Fala-se em reduzir o ritmo de crescimento permitido pelo arcabouço fiscal, de 2,5% para 1,5% ao ano acima da inflação. São promessas que soam responsáveis. O problema é que os números contam uma história diferente.
Entre 2022 e junho de 2026, a despesa federal cresceu R$ 429 bilhões já corrigida pela inflação — enquanto a receita líquida avançou apenas R$ 299 bilhões. O gasto total subiu 20% acima da inflação, bem além do próprio limite estabelecido pelo arcabouço. O histórico recente não deixa espaço para ilusões sobre a eficácia de regras mais duras.
A proposta de desacelerar o crescimento permitido já fracassou antes, pelos mesmos motivos que ameaçam repeti-la: sem um plano concreto para conter as despesas obrigatórias — que crescem a mais de 2,5% ao ano —, a equação não fecha. O que se viu foi uma política fiscal construída sobre exceções sistemáticas, não sobre disciplina.
O timing é revelador. As promessas chegam agora, quando há votos em jogo; a implementação viria depois, quando a eleição já tiver passado. Mais do que um plano econômico, o que se desenha é uma estratégia eleitoral para atrair o eleitor de centro. O governo acumulou um histórico fiscal nos últimos anos — apenas com o sinal trocado.
A equipe econômica do governo vem fazendo sinais nos últimos meses sobre a possibilidade de um ajuste fiscal — mas com uma ressalva importante: tudo a partir de 2027. Há uma eleição em disputa agora, e isso muda as prioridades. Alguns balões de ensaio foram lançados e rapidamente derrubados, como a ideia de desvinculação dos benefícios sociais do salário mínimo. Fala-se também em reduzir o ritmo de crescimento permitido pelo arcabouço fiscal, dos atuais 2,5% ao ano acima da inflação para 1,5% ao ano. São promessas que soam responsáveis, medidas que parecem sérias. O problema é que os números contam uma história muito diferente.
Entre 2022 e os doze meses encerrados em junho deste ano, a despesa do governo federal aumentou R$ 429 bilhões — já corrigida pela inflação. No mesmo período, a receita líquida de transferências cresceu apenas R$ 299 bilhões. A diferença é gritante: o gasto total cresceu 20% acima da inflação, bem acima do limite que o próprio arcabouço fiscal estabelece. Nenhuma pessoa com conhecimento básico de aritmética deveria se deixar seduzir por promessas de regras mais duras quando o histórico recente mostra exatamente o oposto.
A proposta de reduzir o ritmo de crescimento permitido pelo arcabouço é, na verdade, risível. Ela já fracassou — e pelos mesmos motivos que levarão ao fracasso no futuro. Sem um plano concreto para conter a evolução das despesas obrigatórias, que crescem a mais de 2,5% ao ano, simplesmente não há como resolver o problema. O que se viu no período foi uma série de exceções à regra, uma política fiscal caracterizada por brechas e contornos. Essas exceções não foram acidentes; foram a forma como o governo operou.
Sejamos honestos: é bastante provável que a equipe econômica nem sequer queira fazer nem isso. Os acenos de hoje representam uma tentativa, algo desajeitada, de convencer alguns eleitores de centro a votar no presidente. Não é um plano econômico; é uma estratégia eleitoral. O timing é revelador. As promessas vêm agora, quando há votos em jogo. A implementação viria depois, quando a eleição já tiver passado. Bismarck tinha razão quando disse que nunca se mente tanto quanto em véspera de eleições. O governo provou sua credencial fiscal nos últimos anos — apenas com o sinal trocado.
Citations marquantes
Nunca se mente tanto quanto em véspera de eleições, durante a guerra e depois da caça— Otto von Bismarck (citado no texto)