Sinais de ajuste fiscal do governo são tardios, insuficientes ou enganosos

Tiveram este tempo todo para provar suas credenciais — e o fizeram, apenas com o sinal trocado.
Crítica ao histórico de controle de gastos do governo entre 2022 e junho de 2026.
Mark

Por que você acha que essas promessas de ajuste fiscal não são credíveis?

Mimi

Porque o histórico recente é claro. Entre 2022 e junho de 2026, a despesa federal cresceu R$ 429 bilhões acima da inflação, enquanto a receita cresceu apenas R$ 299 bilhões. O gasto total cresceu 20% acima da inflação, bem acima do limite do arcabouço. Eles tiveram tempo para provar que conseguem controlar gastos e não conseguiram.

Luke

Mas espera — esses R$ 429 bilhões, isso é o crescimento nominal ou real? Porque a inflação acumulada nesse período foi significativa.

Mimi

É corrigido pela inflação, então é crescimento real mesmo. O ponto é que o gasto cresceu muito mais do que a receita, em termos reais.

Mark

E essas propostas que estão fazendo agora — reduzir de 2,5% para 1,5% de crescimento permitido — isso não ajudaria?

Mimi

Não, porque o problema não é o limite do arcabouço. O problema é que as despesas obrigatórias crescem a mais de 2,5% ao ano. Sem conter essas despesas, qualquer limite novo vai ser furado da mesma forma que o anterior foi.

Luke

Qual é a fonte para o número de 2,5% de crescimento das despesas obrigatórias? Porque isso é um número crítico para o argumento.

Mimi

É uma observação sobre a trajetória histórica das despesas obrigatórias no período analisado.

Mark

Então por que o governo está fazendo essas sinalizações agora?

Mimi

Porque há uma eleição. Eles querem convencer votantes de centro de que estão preocupados com a responsabilidade fiscal. Mas as promessas são para depois da eleição.

Luke

Isso é especulação sobre intenção, certo? O que sabemos é que eles estão fazendo sinalizações agora e dizendo que a implementação seria a partir de 2027.

Mimi

Sim, é especulação sobre intenção. Mas o padrão histórico sugere que quando um governo promete ajustes para depois de uma eleição, raramente acontece.

  • As despesas federais cresceram 20% acima da inflação em quatro anos, enquanto as receitas avançaram apenas o suficiente para ampliar o rombo estrutural.
  • A proposta de reduzir o teto de crescimento do arcabouço fiscal de 2,5% para 1,5% ao ano ignora que as despesas obrigatórias já crescem além desse limite sem qualquer contenção.
  • Balões de ensaio como a desvinculação dos benefícios sociais do salário mínimo foram rapidamente abandonados, revelando a fragilidade do compromisso com reformas reais.
  • O timing das sinalizações — às vésperas de uma eleição — levanta a suspeita de que o ajuste prometido é instrumento de conquista de eleitores de centro, não um plano econômico concreto.
  • Sem enfrentar o crescimento das despesas obrigatórias, qualquer nova regra fiscal corre o risco de repetir o mesmo ciclo de exceções e contornos que caracterizou os últimos anos.

Em vésperas eleitorais, a equipe econômica brasileira anuncia intenções de ajuste fiscal para depois de 2027, enquanto os dados revelam que as despesas federais cresceram R$ 429 bilhões acima da inflação entre 2022 e junho de 2026 — superando em muito o crescimento das receitas. É um padrão antigo: promessas de disciplina orçamentária que chegam no momento em que os votos importam mais do que os números. A história fiscal recente do governo, marcada por exceções sistemáticas às próprias regras, oferece pouco amparo para otimismo.

A equipe econômica do governo vem lançando sinais de ajuste fiscal — mas com uma ressalva estratégica: tudo a partir de 2027. Com uma eleição em curso, as prioridades se reorganizam. Fala-se em reduzir o ritmo de crescimento permitido pelo arcabouço fiscal, de 2,5% para 1,5% ao ano acima da inflação. São promessas que soam responsáveis. O problema é que os números contam uma história diferente.

Entre 2022 e junho de 2026, a despesa federal cresceu R$ 429 bilhões já corrigida pela inflação — enquanto a receita líquida avançou apenas R$ 299 bilhões. O gasto total subiu 20% acima da inflação, bem além do próprio limite estabelecido pelo arcabouço. O histórico recente não deixa espaço para ilusões sobre a eficácia de regras mais duras.

A proposta de desacelerar o crescimento permitido já fracassou antes, pelos mesmos motivos que ameaçam repeti-la: sem um plano concreto para conter as despesas obrigatórias — que crescem a mais de 2,5% ao ano —, a equação não fecha. O que se viu foi uma política fiscal construída sobre exceções sistemáticas, não sobre disciplina.

O timing é revelador. As promessas chegam agora, quando há votos em jogo; a implementação viria depois, quando a eleição já tiver passado. Mais do que um plano econômico, o que se desenha é uma estratégia eleitoral para atrair o eleitor de centro. O governo acumulou um histórico fiscal nos últimos anos — apenas com o sinal trocado.

A equipe econômica do governo vem fazendo sinais nos últimos meses sobre a possibilidade de um ajuste fiscal — mas com uma ressalva importante: tudo a partir de 2027. Há uma eleição em disputa agora, e isso muda as prioridades. Alguns balões de ensaio foram lançados e rapidamente derrubados, como a ideia de desvinculação dos benefícios sociais do salário mínimo. Fala-se também em reduzir o ritmo de crescimento permitido pelo arcabouço fiscal, dos atuais 2,5% ao ano acima da inflação para 1,5% ao ano. São promessas que soam responsáveis, medidas que parecem sérias. O problema é que os números contam uma história muito diferente.

Entre 2022 e os doze meses encerrados em junho deste ano, a despesa do governo federal aumentou R$ 429 bilhões — já corrigida pela inflação. No mesmo período, a receita líquida de transferências cresceu apenas R$ 299 bilhões. A diferença é gritante: o gasto total cresceu 20% acima da inflação, bem acima do limite que o próprio arcabouço fiscal estabelece. Nenhuma pessoa com conhecimento básico de aritmética deveria se deixar seduzir por promessas de regras mais duras quando o histórico recente mostra exatamente o oposto.

A proposta de reduzir o ritmo de crescimento permitido pelo arcabouço é, na verdade, risível. Ela já fracassou — e pelos mesmos motivos que levarão ao fracasso no futuro. Sem um plano concreto para conter a evolução das despesas obrigatórias, que crescem a mais de 2,5% ao ano, simplesmente não há como resolver o problema. O que se viu no período foi uma série de exceções à regra, uma política fiscal caracterizada por brechas e contornos. Essas exceções não foram acidentes; foram a forma como o governo operou.

Sejamos honestos: é bastante provável que a equipe econômica nem sequer queira fazer nem isso. Os acenos de hoje representam uma tentativa, algo desajeitada, de convencer alguns eleitores de centro a votar no presidente. Não é um plano econômico; é uma estratégia eleitoral. O timing é revelador. As promessas vêm agora, quando há votos em jogo. A implementação viria depois, quando a eleição já tiver passado. Bismarck tinha razão quando disse que nunca se mente tanto quanto em véspera de eleições. O governo provou sua credencial fiscal nos últimos anos — apenas com o sinal trocado.

Nunca se mente tanto quanto em véspera de eleições, durante a guerra e depois da caça
— Otto von Bismarck (citado no texto)
Envie de l'histoire complète ? Lire l'original sur Estadão ↗
Nous contacter FAQ