Sessão no STF complica estratégia de Lula de se afastar da crise na Corte

É um distanciamento impossível
Estrategista eleitoral sobre a dificuldade de Lula se afastar da crise do STF após Dino pedir vista.
Mark

Por que a campanha de Lula esperava tanto que Moraes fosse investigado?

Mimi

Porque se houvesse investigação aberta contra Moraes, Lula poderia se apresentar como defensor da apuração e se afastar do ministro que o indicou. Era uma forma de sair da crise.

Luke

Mas a sessão foi interrompida. Quem interrompeu?

Mimi

Flávio Dino, que é outro indicado de Lula. Dino pediu vista, adiando a votação para 4 de outubro.

Mark

Isso não enfraquece o argumento de Lula?

Mimi

Muito. Lula vinha dizendo que Moraes era indicação de Temer, não dele. Mas agora seu próprio indicado está mantendo viva a controvérsia.

Luke

Flávio Bolsonaro aproveitou isso?

Mimi

Sim. No horário eleitoral de terça-feira, ele disse que Lula e Moraes fazem parte de um "sistema apodrecido".

Mark

Os eleitores estão realmente preocupados com isso?

Mimi

Segundo a Quaest, 67% dos eleitores disseram que a crise do STF não influencia seu voto.

Luke

Mas 7% consideraram mudar de candidato. Isso é significativo em uma eleição apertada.

Mimi

É verdade. E há quem interprete isso como um gatilho para eleitores que querem resolver a questão na urna.

Mark

A campanha de Lula está fazendo algo para contornar isso?

Mimi

Está intensificando a mobilização digital, com a iniciativa "Pode espalhar" e transmissões ao vivo. Mas ainda está atrás de Bolsonaro em alcance nas redes.

  • Sessão do STF sobre investigação de Moraes foi interrompida sem conclusão em 15 de setembro; votação marcada para 4 de outubro
  • Flávio Dino, indicado por Lula ao STF, pediu vista e adiou a votação
  • 67% dos eleitores disseram que crise do STF não influencia voto para presidente, segundo pesquisa Quaest de setembro
  • Campanha de Lula ampliou mobilização digital com iniciativa "Pode espalhar" e live de 270 mil visualizações no domingo

Campanha petista esperava confirmação de investigação contra Moraes para se distanciar dele, mas sessão foi interrompida sem resolução. Pedido de vista de Flávio Dino, indicado por Lula ao STF, enfraquece argumento presidencial de separação da crise do Supremo.

Sessão no STF sobre investigação de Moraes foi interrompida sem conclusão, prejudicando plano de campanha de Lula de se afastar do ministro. Indicado por Lula, Dino pediu vista e mantém impasse que associa presidente à crise institucional.

A sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal na terça-feira, 15 de setembro, deveria ter resolvido uma questão que a campanha de Lula vinha esperando há semanas: a abertura de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes. Mas quando o dia terminou, a votação estava marcada para 4 de outubro e a questão de ordem sequer havia sido concluída. O que deveria ser uma saída estratégica para o presidente se tornou um impasse que o mantém preso à crise institucional que ele tentava deixar para trás.

A lógica da campanha petista era simples: se Moraes fosse investigado, Lula poderia se apresentar como defensor da apuração e se afastar gradualmente do ministro que o indicou. Mas a sessão foi interrompida sem conclusão, e quem pediu vista — adiando a votação — foi justamente Flávio Dino, outro indicado por Lula ao STF. Dino havia sido ministro da Justiça no governo federal antes de sua nomeação para a Corte, e Lula o celebrou publicamente como "um comunista no STF". A ironia não passou despercebida: o presidente que tentava se distanciar de Moraes agora tinha seu próprio indicado mantendo viva a controvérsia que queria encerrar.

Flávio Bolsonaro, candidato do PL, aproveitou o horário eleitoral obrigatório de terça-feira para reforçar a associação entre Lula e Moraes, afirmando que os dois fazem parte de um "sistema apodrecido". Não era a primeira vez que o candidato de oposição fazia essa conexão — em 7 de setembro, na Avenida Paulista, ele havia dito que "quem vota em Lula também vota em Alexandre de Moraes". A campanha petista, que vinha tentando usar a indicação de Moraes por Michel Temer como argumento para se distanciar do ministro, perdeu essa munição quando Dino pediu vista. "É um distanciamento impossível", avaliou o estrategista eleitoral Roberto Reis.

A campanha de Lula considerava mudar de tática. Em vez de usar a fórmula genérica de defender que tudo fosse investigado "doa a quem doer", sem mencionar Moraes diretamente, a ideia agora era citar nominalmente os ministros ao cobrar investigações, tentando transferir a crise para dentro do próprio Supremo. Mas Reis alertava que o episódio colocava Lula ainda mais no centro da crise institucional e podia reforçar, entre parte dos eleitores, a percepção de uma atuação política de membros da Corte na blindagem a Moraes. "O que aconteceu tem uma característica muito ruim para quem queria diminuir a temperatura: houve uma sessão extraordinária, troca pública de acusações entre ministros, impedimento, suspeição e discussão sobre a própria forma de conduzir o caso", disse Reis. "Efeito contrário do esperado."

Pesquisas, porém, sugeriam que a crise do STF não era o fator determinante para a maioria dos eleitores. Um levantamento Quaest realizado entre 10 e 13 de setembro, com 2.004 eleitores entrevistados presencialmente em todo o país, mostrou que 67% disseram que a crise no Supremo não influencia seu voto para presidente. Outros 22% afirmaram que o episódio reforça a escolha já feita, e apenas 7% consideravam mudar de candidato. Entre os independentes, 66% disseram que a crise não altera o voto. O cientista político Leandro Gabiatti, diretor da Dominium Consultoria, interpretava esses números como um nivelamento: "todo mundo está envolvido, nivela todo mundo por igual. Então, Supremo não altera meu voto", era o que os eleitores diziam. Mas Reis tinha uma leitura diferente: o impasse gerado pela sessão podia funcionar como um gatilho para uma parcela dos eleitores que queria resolver a questão na urna.

Com menos de três semanas para o primeiro turno, a campanha de Lula intensificava sua ofensiva digital. A iniciativa "Pode espalhar", ampliada em junho para estruturar uma rede nacional de militantes, treinava apoiadores para atuar como porta-vozes do presidente nas redes sociais, com sugestões de conteúdo, orientações e materiais para compartilhamento. A plataforma oferecia conteúdos para diferentes redes — vídeos verticais para Instagram e TikTok, além de grupos no WhatsApp e Telegram — e disponibilizava a ferramenta de inteligência artificial "LuIA" para auxiliar os apoiadores. No domingo, 13 de setembro, Lula participou de uma transmissão ao vivo com militantes, influenciadores e comunicadores, pedindo que disseminassem a "verdade" na reta final e combatessem o que chamou de desinformação. A live teve 270 mil visualizações.

Os dados de engajamento que a campanha divulgava mostravam aumento nas interações. No Instagram, Lula registrou 5,7 milhões de interações contra 5 milhões de Flávio Bolsonaro, enquanto o PT teve 3,2 milhões ante menos de 1 milhão do PL. Mas uma pesquisa Datafolha realizada no início de setembro revelava uma desvantagem estrutural: entre usuários de redes sociais que viram conteúdo eleitoral, 55% dos eleitores de Lula disseram ter visto publicações de influenciadores e 43% em grupos de WhatsApp ou Telegram. Entre os eleitores de Flávio, os índices foram de 68% e 55%, respectivamente. A campanha de Lula ainda estava atrás na mobilização digital, mesmo enquanto tentava recuperar o terreno perdido.

É um distanciamento impossível
— Roberto Reis, estrategista eleitoral
O que aconteceu tem uma característica muito ruim para quem queria diminuir a temperatura: houve uma sessão extraordinária, troca pública de acusações entre ministros, impedimento, suspeição e discussão sobre a própria forma de conduzir o caso
— Roberto Reis, estrategista eleitoral
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