No coração de uma das maiores crises do sistema financeiro brasileiro, dois servidores de carreira do Banco Central — Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza — encontram-se numa posição paradoxal: participaram das reuniões que expuseram as irregularidades do Banco Master e, ao mesmo tempo, são investigados por supostamente terem servido aos interesses do banqueiro Daniel Vorcaro. O depoimento do diretor Ailton de Aquino à Polícia Federal revela que a linha entre fiscalizar e favorecer pode ser, neste caso, mais tênue e mais perturbadora do que qualquer das partes deseja admitir. A questã
Servidores do BC investigados tiveram reuniões com PF sobre caso Master
Atuação estritamente funcional, mas com dinheiro que não deveria estar ali
Por que dois funcionários que ajudaram a investigar o Banco Master acabaram sendo acusados de favorecê-lo?
Porque estavam nas reuniões onde as irregularidades foram discutidas, e depois descobriram que receberam dinheiro de Vorcaro. A questão é se eles usaram o acesso às investigações para protegê-lo ou se apenas estavam fazendo seu trabalho.
Aquino disse que eles participaram de "várias reuniões". A defesa diz que não foram tantas assim.
Exato. A defesa de Paulo Sérgio diz que ele estava "ativamente envolvido" em identificar as fraudes, não em ocultá-las. Que foi ele quem preparou as representações ao Ministério Público.
Então por que a PF os investigou?
Porque a evolução patrimonial deles era suspeita. Ganharam dinheiro que não deveria estar ali. Quando você vê isso, você pergunta: de onde veio? E a resposta apontava para Vorcaro.
Mas se eles ajudaram a expor as fraudes, como podem ser culpados de favorecimento?
Essa é a tensão do caso. Você pode estar fazendo seu trabalho e ao mesmo tempo recebendo benefícios indevidos. As duas coisas não se excluem necessariamente.
O que Aquino disse que muda as coisas?
Que havia um ambiente hostil, vazamentos de informações. Que as reuniões depois foram secretas. Isso sugere que havia algo a proteger — mas não fica claro se era a investigação ou os interesses de Vorcaro.
E agora?
Agora as defesas argumentam que o próprio depoimento de Aquino prova que os dois agiram institucionalmente. A PF não respondeu se já suspeitava deles naquela época.
O Pulso
- Dois ex-gestores do BC com quase três décadas de carreira são investigados por suspeita de receber pagamentos de Daniel Vorcaro, o banqueiro cujo colapso levou à liquidação do Banco Master.
- A contradição é perturbadora: os mesmos servidores acusados de favorecer Vorcaro estavam presentes nas reuniões em que o BC e a PF discutiam as irregularidades que hoje fundamentam as acusações contra eles.
- Buscas e apreensões nos endereços dos investigados em março e o clima de abatimento entre colegas revelam o impacto institucional de uma suspeita que poucos acreditavam possível.
- As defesas constroem narrativa oposta: argumentam que Paulo Sérgio e Belline foram os próprios arquitetos das representações ao MPF que desencadearam as fases 1 e 2 da Operação Compliance Zero.
- O caso permanece em aberto, com a PF sem responder se já suspeitava dos servidores durante as reuniões conjuntas — uma lacuna que alimenta tanto a acusação quanto a defesa.
No coração de uma das maiores crises do sistema financeiro brasileiro, dois servidores de carreira do Banco Central — Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza — encontram-se numa posição paradoxal: participaram das reuniões que expuseram as irregularidades do Banco Master e, ao mesmo tempo, são investigados por supostamente terem servido aos interesses do banqueiro Daniel Vorcaro. O depoimento do diretor Ailton de Aquino à Polícia Federal revela que a linha entre fiscalizar e favorecer pode ser, neste caso, mais tênue e mais perturbadora do que qualquer das partes deseja admitir. A questão que permanece aberta não é apenas jurídica, mas existencial para a integridade das instituições: quem vigia os vigilantes?
Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central, depôs à Polícia Federal em maio descrevendo um cenário de contradição incômoda. Belline Santana, ex-chefe da Supervisão Bancária, e Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização, participaram de múltiplas reuniões com delegados da PF para discutir irregularidades no Banco Master. Ambos, no entanto, são hoje investigados por suspeita de terem recebido pagamentos de Daniel Vorcaro — o ex-banqueiro cujo colapso resultou na liquidação da instituição em novembro do ano anterior.
O inquérito aponta que os dois teriam atuado em benefício dos interesses de Vorcaro dentro do BC, repassando informações sigilosas sobre a fiscalização. A PF realizou buscas e apreensões em seus endereços em março. O gatilho para a investigação foi a evolução patrimonial dos dois ex-gestores, que levantou suspeitas de consultoria informal em troca de vantagens indevidas.
As reuniões descritas por Aquino abordavam duas frentes: as cessões de carteiras de crédito ao Banco de Brasília e os fundos Bravo da Reag, operações com suspeitas de falta de fundamentação econômica. Um encontro foi registrado na agenda pública do BC em 8 de outubro, pouco antes da liquidação e da primeira prisão de Vorcaro. Os demais ocorreram de forma reservada, num ambiente marcado por intensos vazamentos de informações sensíveis.
As defesas constroem narrativa diametralmente oposta. O advogado de Paulo Sérgio afirma que seu cliente foi quem preparou as representações ao Ministério Público Federal que resultaram nas fases 1 e 2 da Operação Compliance Zero, coletando documentação e encaminhando os indícios de gestão fraudulenta. A defesa de Belline sustenta que o próprio depoimento de Aquino confirma sua atuação estritamente institucional, inclusive na interlocução com a PF.
Funcionários de carreira com quase três décadas no BC, os dois contavam com a confiança dos colegas. A revelação das suspeitas gerou clima de abatimento e perplexidade na instituição. A PF não respondeu se, durante as reuniões conjuntas, já investigava os dois servidores — uma lacuna que mantém o caso suspenso entre a acusação de cumplicidade e a defesa de protagonismo no combate às fraudes.
Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central, prestou depoimento à Polícia Federal em maio descrevendo um cenário que coloca dois ex-gestores do BC no centro de uma contradição incômoda. Belline Santana, que chefiou a Supervisão Bancária, e Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização, participaram de múltiplas reuniões com delegados da PF para discutir irregularidades no Banco Master — mas ambos agora são investigados por suspeita de terem recebido pagamentos de Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro cujo colapso financeiro levou à liquidação da instituição em novembro do ano anterior.
O inquérito que os visa acusa os dois de terem atuado em benefício dos interesses de Vorcaro dentro do BC, repassando informações sobre a fiscalização do banco. A PF realizou buscas e apreensões em seus endereços em março. Mas no depoimento de Aquino, emerge uma narrativa mais complexa: os dois servidores estavam presentes quando o BC e a polícia discutiam as mesmas operações que agora formam a base das acusações contra eles.
Segundo Aquino, as reuniões abordavam duas frentes principais de investigação no Master. A primeira envolvia cessões de carteiras de crédito ao Banco de Brasília. A segunda tratava dos fundos Bravo da Reag, operações que apresentavam suspeitas de falta de fundamentação econômica. Um encontro foi registrado na agenda pública do BC em 8 de outubro, pouco mais de um mês antes da liquidação e da primeira prisão de Vorcaro. Esse registro público gerou interesse tanto de Vorcaro quanto da imprensa em saber o que estava sendo discutido. Depois disso, os demais encontros ocorreram de forma reservada, em um ambiente que Aquino descreveu como hostil, marcado por intensos vazamentos de informações sensíveis.
A defesa de Paulo Sérgio argumenta que ele não participou de "várias reuniões", mas que esteve "ativamente envolvido" na identificação e formalização das irregularidades. Seu advogado, Odel Antun, afirma que Paulo Sérgio e sua equipe realizaram trabalho de campo, coletaram documentação e encaminharam representações ao Ministério Público Federal em 15 de julho descrevendo as suspeitas. Nas duas principais frentes de investigação, segundo a defesa, Paulo Sérgio foi quem preparou as representações que resultaram nas fases 1 e 2 da Operação Compliance Zero. Antun sustenta que a participação de seu cliente "em nada obstou o prosseguimento das apurações" e que foi o próprio Paulo Sérgio quem defendeu a comunicação dos indícios de gestão fraudulenta.
Belline, representada pelo advogado Leonardo Palazzi, também rejeita as acusações. Palazzi afirma que o depoimento de Aquino "confirma a atuação estritamente funcional e institucional" de Belline no BC, inclusive na interlocução com a Polícia Federal. Segundo a defesa, ela adotou as providências necessárias para tratar das investigações relacionadas ao Master e nunca sofreu influência de Vorcaro.
Os dois servidores eram funcionários de carreira com quase três décadas de casa no BC. Paulo Sérgio atuou como diretor de Fiscalização entre 2017 e 2023, depois assumindo a posição de chefe-adjunto do departamento de Supervisão Bancária liderado por Belline de 2019 a 2026. Contavam com a confiança dos colegas. A revelação de que poderiam estar envolvidos no caso Master gerou, conforme reportado, um clima de abatimento e perplexidade entre os funcionários.
O gatilho para a investigação interna no BC foi a evolução patrimonial dos dois ex-gestores, que levantou suspeitas de que teriam atuado como consultores informais de Vorcaro em troca de vantagens indevidas. A Polícia Federal não se manifestou quando questionada se, à época das reuniões, investigadores já suspeitavam de irregularidades relacionadas aos dois servidores ou se houve medidas para evitar vazamento de informações sigilosas ao Master. O caso permanece em aberto, com as defesas argumentando que os dois foram fundamentais para expor as fraudes que Vorcaro cometeu, enquanto a acusação sugere que sua proximidade com as investigações pode ter servido a interesses conflitantes.
Citações Notáveis
Os servidores Belline Santana e Paulo Sérgio participaram de várias dessas reuniões com a Polícia Federal— Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do BC, em depoimento à PF
Ao contrário, foi o próprio Paulo Sérgio quem defendeu a comunicação dos indícios de gestão fraudulenta, não tendo havido qualquer proteção a interesses de Daniel Vorcaro— Odel Antun, advogado de Paulo Sérgio