dados de até 22 milhões de brasileiros potencialmente comprometidos
No cruzamento entre identidade digital e confiança institucional, a empresa Unico acusa a Serasa Experian de ter acessado, sem autorização, dados biométricos de até 22 milhões de brasileiros — não por uma brecha técnica qualquer, mas através de um canal reservado ao Banco do Brasil, supostamente utilizado como porta de entrada para fins próprios. O caso, que tramita em segredo de Justiça nas esferas cível e criminal, levanta questões fundamentais sobre os limites do uso de dados biométricos no Brasil e sobre quem, afinal, é o guardião legítimo da face de cada cidadão.
- A Unico detectou um volume anômalo de consultas atribuídas ao Banco do Brasil — e ao investigar, descobriu que outras empresas estariam usando o canal exclusivo do banco como atalho para acessar sua plataforma de reconhecimento facial.
- Um mandado de busca e apreensão foi cumprido contra a Serasa em São Paulo no dia 11 de junho, tornando pública uma disputa que até então corria em silêncio nos tribunais.
- A investigação pericial já identificou ao menos 1,4 milhão de transações irregulares, mas a Unico estima que os dados biométricos de até 22 milhões de brasileiros possam ter sido acessados indevidamente.
- A Serasa nega as acusações, afirma operar dentro da lei e diz ainda não ter tido acesso aos detalhes do processo — enquanto a Skill Tecnologia e a própria Unico permanecem em silêncio diante da imprensa.
- O caso expõe uma zona de risco crescente: a biometria facial, usada para proteger identidades, pode ela mesma tornar-se objeto de disputa comercial e apropriação indevida.
A Unico, empresa especializada em validação de identidade por reconhecimento facial, acusa a Serasa Experian de ter utilizado sua tecnologia sem autorização para realizar milhões de consultas envolvendo dados biométricos de brasileiros. O caso tramita em segredo de Justiça nas esferas cível e criminal, e na última quarta-feira peritos cumpriram um mandado de busca e apreensão contra a Serasa em São Paulo. A empresa negou as acusações em nota, afirmando que ainda não teve acesso aos detalhes do processo e que atua em conformidade com a legislação vigente.
Segundo pessoas com conhecimento das acusações, a Serasa — junto à ClearSale, empresa de inteligência de dados adquirida em 2025 — teria acessado a plataforma da Unico por meio da Skill Tecnologia, firma com autorização exclusiva para operar o canal destinado ao Banco do Brasil. O problema veio à tona quando a Unico identificou um crescimento anômalo de consultas associadas ao banco e, ao questionar a instituição, descobriu que o aumento não correspondia às suas próprias operações. A investigação revelou que consultas de outros clientes estavam sendo processadas pelo canal exclusivo do banco público.
As acusações não envolvem dados bancários como saldos ou extratos, mas especificamente os registros gerados nos processos de verificação biométrica e facial. A suspeita é de que o objetivo seria aprimorar os sistemas de identificação da Serasa e expandir sua base de identidades válidas. Um laudo pericial identificou ao menos 1,4 milhão de transações irregulares, e a Unico estima que o alcance total possa envolver dados de até 22 milhões de brasileiros. Na esfera judicial, a empresa acusa a Serasa de concorrência desleal, uso indevido de informações confidenciais e obtenção irregular de vantagem tecnológica.
A Unico, empresa especializada em validação de identidade através de reconhecimento facial e inteligência artificial, apresentou acusações contra a Serasa Experian de ter utilizado sua tecnologia de forma não autorizada. Segundo relatos obtidos pela reportagem, essa prática teria possibilitado que a Serasa realizasse milhões de consultas envolvendo dados biométricos de brasileiros, comprometendo a privacidade e segurança de identidade de usuários de serviços bancários.
O caso segue em tramitação nas esferas cível e criminal sob sigilo judicial. Na quarta-feira 11 de junho, peritos criminais cumpriram um mandado de busca e apreensão contra a Serasa em São Paulo, conforme antecipado pelo jornal Valor Econômico. A Serasa Experian, por sua vez, negou as acusações em nota oficial, argumentando que o processo tramita em segilo de Justiça e que ainda não teve acesso aos detalhes das alegações. A empresa reafirmou que opera em conformidade com a legislação vigente e que se manifestará adequadamente quando tiver oportunidade.
A Serasa Experian atua na automatização de análise de crédito, prevenção a fraudes e cobrança, fornecendo às empresas ferramentas para avaliar risco de clientes através de pontuação e renegociar dívidas. A Unico, por outro lado, utiliza biometria facial e inteligência artificial para validar identidades em tempo real, protegendo cadastros e transações em bancos, plataformas de comércio eletrônico e aplicativos contra fraudes, roubo de dados e deepfakes.
De acordo com pessoas com conhecimento das acusações, a Unico alega que a Serasa obteve acesso a consultas de validação de identidade baseadas em reconhecimento facial de milhões de clientes de instituições bancárias que utilizam sua plataforma. É importante notar que as acusações não envolvem dados bancários propriamente ditos, como saldos, extratos ou informações de crédito, mas especificamente dados relacionados aos processos de verificação biométrica e facial utilizados para confirmar a identidade dos usuários. A suspeita é de que essa prática teria como objetivo aprimorar os sistemas de identificação oferecidos pela Serasa e pela ClearSale, empresa de inteligência de dados que foi incorporada e adquirida pela Serasa em 2025, além de expandir a base de identidades válidas dessas companhias.
A Serasa e a ClearSale teriam acessado os serviços da Unico através da Skill Tecnologia, uma firma que possuía autorização exclusiva para utilizar a plataforma nas operações do Banco do Brasil. O Banco do Brasil, procurado para comentar, afirmou que acompanha o caso, que envolve outras instituições, e destacou que suas operações e os dados de seus clientes permanecem em normalidade e segurança.
A descoberta do problema ocorreu quando a Unico identificou um crescimento anômalo no volume de consultas atribuídas ao banco. Ao questionar o Banco do Brasil sobre esse aumento, foi informada de que não havia crescimento equivalente em suas operações. Isso levou a empresa a iniciar uma investigação própria. A investigação revelou que consultas relacionadas a outros clientes estavam sendo processadas através de um canal destinado exclusivamente ao banco público, sugerindo que esse mecanismo teria permitido o uso não autorizado da tecnologia e dos dados gerados nas validações biométricas.
Um laudo pericial contratado pela acusação identificou ao menos 1,4 milhão de transações consideradas irregulares. A estimativa da Unico é de que o potencial de consultas envolvidas possa alcançar dados de até 22 milhões de brasileiros. Na esfera judicial, a Unico acusa a Serasa Experian de concorrência desleal, uso indevido de informações confidenciais e obtenção irregular de vantagem tecnológica. A Unico não se manifestou quando procurada por WhatsApp e email desde quinta-feira, e a Skill Tecnologia também não respondeu aos contatos da reportagem.
Notable Quotes
A empresa reforça que atua com estrita observância à legislação aplicável e que se manifestará oportunamente no processo— Serasa Experian, em nota oficial
Acompanha o caso, que envolve outras instituições, e destaca que sua operação e os dados de seus clientes seguem em normalidade e segurança— Banco do Brasil, em comunicado
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como a Unico descobriu que seus dados estavam sendo usados indevidamente?
Eles notaram um pico estranho no volume de consultas que supostamente vinham do Banco do Brasil. Quando perguntaram ao banco se havia aumento correspondente nas operações deles, a resposta foi não. Isso disparou o alarme.
E o que exatamente estava sendo acessado?
Não eram informações bancárias como saldos ou extratos. Era especificamente os dados dos processos de verificação facial — o reconhecimento biométrico usado para confirmar que a pessoa é quem diz ser.
Por que isso importa tanto para a Serasa?
Porque quanto mais dados biométricos você tem, melhor seus sistemas de identificação ficam. É como treinar uma inteligência artificial — você precisa de volume. Eles estavam basicamente construindo um banco de identidades válidas sem pagar por isso.
A Serasa está negando tudo?
Está. Diz que o processo tramita em sigilo de Justiça e que ainda não teve acesso aos detalhes das acusações. Mas um mandado de busca e apreensão já foi cumprido contra eles.
Quantas pessoas foram afetadas?
Pelo menos 1,4 milhão de transações foram identificadas como irregulares. Mas a estimativa é que dados de até 22 milhões de brasileiros possam estar envolvidos.
E agora?
Agora está tudo em sigilo de Justiça, nas esferas cível e criminal. A Serasa vai ter que se defender quando o processo sair do sigilo.