Senise e Roesler refletem sobre Geração 80, mercado de arte e memória em videocast

Estávamos todos lá fazendo alguma coisa, mas ninguém sabia muito bem o quê
Daniel Senise descreve a Geração 80 como período de experimentação sem direção clara, impulsionado pela redemocratização.
Mark

Quando Senise diz que ninguém sabia o que estava fazendo, ele está falando de uma falta de direção ou de uma liberdade genuína?

Mimi

Acho que é os dois. Havia liberdade porque a democracia tinha voltado, mas essa liberdade era assustadora. Não havia um mapa. O parque Lage funcionava como um espaço onde essa incerteza era produtiva.

Luke

Mas ele está generalizando a partir de uma experiência muito específica — a do Rio de Janeiro, em um espaço particular. Quantos artistas da Geração 80 passaram pelo parque Lage?

Mark

E no caso de Roesler, em Pernambuco, parece que havia mais integração entre as formas artísticas. Era uma escolha ou uma limitação de mercado?

Mimi

Provavelmente os dois. Sem um mercado estruturado, as fronteiras eram menos rígidas. Mas também havia uma filosofia por trás disso, uma ideia de que a arte era um campo único.

Luke

O incêndio que destruiu duas mil obras — sabemos como isso aconteceu? Há investigação sobre as causas?

Mark

Roesler compara a perda das obras à morte de pessoas. É uma metáfora ou ela realmente sentia aquilo como uma morte?

Mimi

Para um galerista, as obras são mais que objetos. São relacionamentos com artistas, histórias, investimento. A perda é real, mesmo que não seja literal.

Luke

Mas a narrativa de que "os artistas salvaram a galeria" — quantos artistas fizeram isso? É uma generalização ou havia realmente um apoio massivo?

Mark

E essa ideia de Senise sobre não virar um pizzaiolo, sobre a inquietação contínua — é possível manter isso ao longo de uma carreira inteira?

Mimi

Acho que é o desafio. Alguns artistas conseguem, outros não. Senise está nomeando o que diferencia os que permanecem relevantes dos que se cristalizam.

  • Senise alerta para o risco silencioso que ameaça todo artista maduro: tornar-se um artesão de si mesmo, repetindo fórmulas que já funcionaram em vez de arriscar o desconhecido.
  • Roesler perdeu cerca de duas mil obras em um incêndio durante a pandemia — um golpe que ela descreve com a linguagem do luto, como se pessoas tivessem morrido.
  • A galeria sobreviveu porque os próprios artistas reagiram enviando novas obras, recusando-se a deixar o espaço parar — uma solidariedade que revelou o quanto o mercado de arte pode ser também uma comunidade.
  • A expansão da galeria para Nova York não foi estratégia de negócios, mas resposta à pressão dos próprios artistas, que queriam visibilidade internacional e não aceitavam meio-termo.
  • Tanto Senise quanto Roesler convergem para a mesma convicção: o que mantém uma obra — ou uma galeria — viva é a inquietação, a recusa de se acomodar no que já se sabe fazer bem.

Em um país que saía da ditadura e ainda não sabia ao certo o que fazer com a liberdade, uma geração de artistas brasileiros começou a criar sem mapa — e essa desorientação produtiva, décadas depois, ainda define o que há de mais vivo na arte contemporânea do Brasil. No videocast Desenquadrando, o pintor Daniel Senise e a galerista Nara Roesler revisitam esse tempo de abertura e traçam, juntos, uma meditação sobre o que significa continuar criando sem se repetir, e sobre como o mercado de arte se constrói — e se reconstrói — sobre perdas.

Daniel Senise não reconhece a Geração 80 como um movimento artístico com programa ou manifesto. Para ele, foi um momento de desorientação fértil: artistas jovens, energizados pela redemocratização, diante de uma arte moderna que já havia transformado tudo — sem saber exatamente o que fazer a seguir. O Parque Lage, no Rio de Janeiro, era o epicentro desse clima, uma escola livre onde a ausência de currículo estruturado funcionava como convite à experimentação.

Nara Roesler reconhece algo semelhante em sua própria formação no Recife, onde as fronteiras entre música, teatro, gravura e arte popular eram quase inexistentes. No Ateliê Coletivo, artistas como José Cláudio e Samico trocavam conhecimentos e compravam materiais em conjunto, vendendo obras para sustentar o espaço. Quando Roesler abriu sua galeria, não havia mercado de arte contemporânea estabelecido em Pernambuco — ela foi construindo esse mercado ao convidar artistas de outras regiões e trazer críticos e colecionadores para conhecer a produção local.

A galeria cresceu, cruzou fronteiras regionais e, em 2015, abriu um escritório em Nova York — menos por estratégia e mais por pressão dos próprios artistas, que queriam um espaço expositivo de verdade na cidade. Mas o crescimento veio acompanhado de uma perda devastadora: um incêndio destruiu o galpão que servia de reserva técnica, consumindo cerca de duas mil obras. Roesler estava no México quando soube, e compara o processo de identificar o que havia sido destruído à espera na porta de um necrotério. O que salvou a galeria foi a solidariedade dos artistas, que continuaram enviando obras para que o espaço não parasse.

Essa capacidade de reconstruir sem abandonar o que veio antes atravessa também a reflexão de Senise sobre sua própria prática. Ele teme tornar-se um pizzaiolo — alguém que repete indefinidamente o que já sabe fazer bem. Os artistas que o interessam são aqueles cuja próxima exposição ainda é capaz de surpreender. É essa inquietação — a tensão entre repertório e risco — que mantém uma obra viva.

Daniel Senise não vê a Geração 80 como um movimento artístico propriamente dito. Para ele, foi um período em que artistas jovens, animados pela redemocratização do país, se viam diante de uma pergunta sem resposta clara: o que fazer agora que a arte moderna havia transformado tudo? "Estávamos todos lá fazendo alguma coisa, mas ninguém sabia muito bem o quê", resume o artista, um dos nomes mais importantes da arte contemporânea brasileira.

Essa conversa acontece no videocast Desenquadrando, onde Senise divide a tela com Nara Roesler, galerista do mercado nacional de artes plásticas. O economista Marcos Lisboa conduz a entrevista, disponível no canal da TV Folha no YouTube. Senise aponta o parque Lage, no Rio de Janeiro, como o lugar que criou esse clima de experimentação aberta. "O Rio era muito mais experimental que São Paulo porque não tinha um currículo muito estruturado no parque Lage, que era escola livre." Sem um programa comum entre os artistas, sem diretrizes claras, havia apenas um grupo procurando por algo em um contexto que havia mudado fundamentalmente — a democracia havia retornado, a liberdade era possível.

Roesler, que começou sua carreira no Recife, reconhece essa mesma busca por liberdade em sua própria trajetória. Em Pernambuco, as fronteiras entre as formas artísticas eram porosas. "No Recife, a arte era uma coisa só. Música, gravura, teatro, essa coisa de ser popular era erudita, arte", descreve. Ela menciona o Ateliê Coletivo, onde artistas como José Cláudio e Samico trabalhavam a partir da troca de conhecimentos e da compra coletiva de materiais, financiada pela venda de obras.

Quando Roesler abriu sua galeria, não havia mercado de arte contemporânea estabelecido em Recife. Ela começou a convidar artistas de outras regiões para expor e a trazer críticos e jornalistas para conhecer a produção local. Essa rede de relacionamentos, especialmente com artistas como Tomie Ohtake, marcou profundamente sua trajetória. A expansão levou a galeria para além das fronteiras regionais. Em 2015, ela abriu um escritório em Nova York, inicialmente para manter contato com críticos e colecionadores após participações em feiras de arte.

Mas foram os próprios artistas que pressionaram por mais. Queriam um espaço expositivo de verdade na cidade americana. "Já está com espaço em Nova York, vamos expor, vamos expor, vamos expor", lembra Roesler das conversas daquela época. A galeria estava crescendo, consolidando-se no mercado internacional.

Então veio a perda. Um incêndio destruiu um galpão que funcionava como reserva técnica da galeria, consumindo aproximadamente duas mil obras. Roesler estava no México quando recebeu a notícia, durante a pandemia, tentando chegar aos Estados Unidos para se vacinar. Seu filho chegou com a informação: havia um incêndio, mas ninguém havia morrido. Ainda assim, a galerista compara o processo de identificar as obras destruídas à espera na porta de um necrotério. "Morreram pessoas que eram as obras", afirma, usando a linguagem da perda pessoal para descrever o que havia desaparecido.

O que salvou a galeria foi o apoio dos artistas. Eles continuaram enviando obras. "Vou mandar a obra porque a galeria não pode parar", lembra Roesler da reação de alguns deles. Essa disposição em reconstruir o acervo ecoa uma preocupação que atravessa toda a trajetória de Senise: a necessidade de seguir adiante sem abandonar o passado. O repertório anterior continua sendo matéria-prima para quem cria no presente. É nessa tensão entre o que se conhece e o que se experimenta que um artista encontra a possibilidade de continuar produzindo sem simplesmente repetir a si mesmo.

Senise teme virar um pizzaiolo, alguém que fica fazendo sempre a mesma coisa que já sabe fazer bem. Os artistas que o interessam são aqueles cuja próxima exposição ainda é capaz de surpreender. "Essa inquietação é que leva para frente e, ao mesmo tempo, você vai vendo a mesma pessoa lá", diz. É essa inquietação — a recusa da repetição, a busca contínua — que permite que a obra de um artista permaneça viva.

O Rio era muito mais experimental que São Paulo porque não tinha um currículo muito estruturado no parque Lage, que era escola livre
— Daniel Senise
No Recife, a arte era uma coisa só. Música, gravura, teatro, essa coisa de ser popular era erudita, arte
— Nara Roesler
Morreram pessoas que eram as obras
— Nara Roesler, sobre as obras destruídas no incêndio
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