Durante séculos, práticas de jejum religioso foram vividas como disciplina espiritual; hoje, a ciência descobre nelas um laboratório natural da biologia humana. Um estudo publicado na Nature Communications acompanhou gregos ortodoxos que alternam períodos de restrição alimentar com dieta omnívora, revelando que o corpo reconfigura o seu metabolismo e sistema imunitário em poucas semanas — e que essa reconfiguração depende, em parte, do código genético de cada pessoa. A descoberta não é apenas sobre dieta: é sobre como o que comemos conversa com quem somos geneticamente.
Semanas sem carne e laticínios alteram química do corpo, revela estudo
A mesma variante genética comporta-se de forma diferente consoante a pessoa esteja a restringir produtos de origem animal
Por que é que a tradição religiosa grega foi tão importante para este estudo?
Porque oferecia algo raro: um grupo de pessoas saudáveis que alterna sistematicamente entre dois padrões alimentares por razões que nada têm a ver com saúde ou ideologia dietética. Isto elimina muitos dos enviesamentos que surgem quando estudamos pessoas que escolhem voluntariamente ser veganas ou vegetarianas.
E o que torna a FGF21 tão significativa neste contexto?
É uma proteína que regula como o corpo gasta energia e processa gordura e açúcar. O estudo descobriu que uma variante genética que afeta a FGF21 só mostra os seus efeitos quando a pessoa está a restringir produtos de origem animal. A mesma variante, no mesmo corpo, comporta-se de forma diferente consoante o que se come.
Isso significa que deixar de comer carne muda o nosso ADN?
Não. O ADN permanece o mesmo. O que muda é como o ADN é expresso — como as instruções genéticas são ativadas ou desativadas. A alimentação atua como um interruptor que modifica o comportamento de certas variantes genéticas.
Então por que é que o estudo menciona obesidade se as pessoas estão a restringir alimentos?
É uma associação que só aparece durante a restrição, não uma causa. Sugere que para algumas pessoas, com certas variantes genéticas, o corpo pode responder à restrição de proteína animal de formas que influenciam o risco metabólico. Mas isto não significa que a restrição cause obesidade.
Qual é a implicação prática para alguém que está a considerar mudar a sua dieta?
O estudo mostra que não existe uma resposta única. Duas pessoas com genéticas diferentes podem ter experiências completamente distintas com a mesma mudança alimentar. No futuro, isto poderia levar a recomendações dietéticas personalizadas baseadas no perfil genético individual.
O Pulso
- Em apenas algumas semanas sem carne, peixe, laticínios e ovos, o organismo humano começa a alterar a regulação de proteínas essenciais ao metabolismo e à imunidade.
- O estudo desafia a ideia de que genes são destino fixo — a mesma variante genética comporta-se de forma radicalmente diferente consoante o contexto alimentar da pessoa.
- A proteína FGF21, central na gestão de energia, lípidos e glicose, revelou-se sensível a uma variante genética cujo efeito só se ativa durante períodos de restrição de origem animal.
- Uma segunda variante, ligada à proteína LBR e ao metabolismo do colesterol, mostrou associação com características de obesidade — mas apenas durante os períodos de restrição, não fora deles.
- Os investigadores sublinham que não há causalidade comprovada, mas abrem caminho para explicar por que razão pessoas diferentes respondem de formas tão distintas às mesmas mudanças alimentares.
Durante séculos, práticas de jejum religioso foram vividas como disciplina espiritual; hoje, a ciência descobre nelas um laboratório natural da biologia humana. Um estudo publicado na Nature Communications acompanhou gregos ortodoxos que alternam períodos de restrição alimentar com dieta omnívora, revelando que o corpo reconfigura o seu metabolismo e sistema imunitário em poucas semanas — e que essa reconfiguração depende, em parte, do código genético de cada pessoa. A descoberta não é apenas sobre dieta: é sobre como o que comemos conversa com quem somos geneticamente.
Um grupo de investigadores gregos publicou este mês, na revista Nature Communications, uma descoberta que reposiciona a forma como entendemos a relação entre alimentação e genética: o corpo humano começa a sofrer transformações bioquímicas mensuráveis em poucas semanas quando se reduz drasticamente o consumo de produtos de origem animal.
O estudo acompanhou 200 pessoas saudáveis que seguem a tradição ortodoxa de jejum periódico — abstendo-se de carne, peixe, laticínios e ovos durante cerca de 180 a 200 dias por ano. Este grupo foi comparado com 211 pessoas da mesma região com alimentação omnívora contínua. A escolha foi estratégica: a prática religiosa oferecia um laboratório natural, sem as variáveis confundidoras típicas de quem adota voluntariamente regimes alternativos. Os participantes em jejum não reduzem as calorias totais, mas sim a proporção de proteína animal — um padrão dietético distinto do veganismo, já que continuam a consumir moluscos e marisco.
Os resultados revelaram alterações na regulação de várias proteínas. A mais central foi a FGF21, crucial na gestão do metabolismo energético, dos lípidos e da glicose. Os investigadores identificaram uma variante genética cujo efeito sobre esta proteína depende inteiramente do contexto alimentar — a mesma variante comporta-se de forma diferente consoante a pessoa esteja ou não em período de restrição. Esta variante mostrou ainda ligação a características imunológicas como os níveis de eosinófilos e plaquetas no sangue.
Uma segunda proteína relevante, a LBR, ligada ao metabolismo do colesterol, foi regulada por uma variante genética específica exclusivamente durante os períodos de restrição. Essa mesma variante apresentou associação com características relacionadas com a obesidade — mas apenas nesse contexto alimentar, não fora dele.
Os investigadores foram cuidadosos em esclarecer o que os dados não provam: não há relação causal entre deixar de comer carne e ganhar peso. O que o estudo demonstra é que a alimentação pode modificar a forma como certas variantes genéticas regulam processos metabólicos e imunológicos fundamentais — oferecendo uma explicação possível para um fenómeno bem conhecido: diferentes pessoas respondem de formas muito distintas às mesmas mudanças na dieta.
Um grupo de investigadores gregos descobriu que o corpo humano começa a sofrer transformações bioquímicas mensuráveis em poucas semanas quando se reduz drasticamente o consumo de carne, peixe, laticínios e ovos. O achado, publicado este mês na revista Nature Communications, oferece novas pistas sobre como a alimentação dialoga com o nosso código genético e remodela processos fundamentais do metabolismo e da imunidade.
O estudo acompanhou 200 pessoas saudáveis da Grécia que seguem a tradição ortodoxa de jejum periódico — abstêm-se de produtos de origem animal durante aproximadamente 180 a 200 dias por ano, distribuídos em quatro períodos mais longos e também às quartas e sextas-feiras. Os investigadores compararam este grupo com 211 pessoas da mesma região que mantêm uma alimentação omnívora contínua, sem estas restrições. A escolha foi estratégica: a prática religiosa oferecia um laboratório natural para estudar como a dieta interage com a regulação genética, sem as variáveis confundidoras que surgem quando pessoas adotam voluntariamente regimes alimentares alternativos.
Durante os períodos de restrição, os participantes não apenas reduzem drasticamente a ingestão de gordura animal — reduzem também a proporção de proteína na sua ingestão energética total, uma vez que eliminam quase todas as fontes proteicas de origem animal. Curiosamente, esta redução de proteína não é acompanhada por uma diminuição da ingestão calórica geral, criando um padrão dietético único que os investigadores descrevem como restrição periódica de produtos de origem animal, e não simplesmente como veganismo, já que os participantes continuam a consumir moluscos e marisco.
Os resultados revelaram alterações na regulação de várias proteínas, particularmente aquelas envolvidas no metabolismo e na função imunológica. Uma descoberta central envolveu a FGF21, uma proteína crucial na regulação do metabolismo energético, dos lípidos e da glicose. Os investigadores identificaram uma variante genética associada à FGF21 cujos efeitos sobre esta proteína dependem inteiramente do contexto alimentar — ou seja, a mesma variante genética comporta-se de forma diferente consoante a pessoa esteja ou não a restringir produtos de origem animal. Esta variante mostrou-se relacionada com características imunológicas específicas, incluindo os níveis de eosinófilos e plaquetas no sangue.
Outra proteína importante que emergiu do estudo foi a LBR, que desempenha um papel essencial no metabolismo do colesterol. Uma variante genética específica, designada rs74148404, apresentou um efeito regulador sobre a LBR exclusivamente durante os períodos de restrição alimentar. Notavelmente, esta mesma variante mostrou uma associação com características relacionadas com a obesidade apenas quando os participantes estavam a restringir produtos de origem animal — sugerindo que o contexto dietético pode modificar fundamentalmente como determinadas variantes genéticas influenciam o risco de doença.
Os investigadores foram cuidadosos em esclarecer o que estes resultados não significam. A variante genética não causa obesidade, nem deixar de consumir carne e laticínios aumenta diretamente o risco de ganho de peso. Trata-se de uma associação genética que depende da alimentação, não de uma relação causal comprovada. O que o estudo demonstra é que a alimentação pode modificar a forma como determinadas variantes genéticas regulam proteínas envolvidas em processos metabólicos e imunológicos fundamentais.
Esta compreensão mais profunda da interação entre dieta, genética e saúde abre caminho para explicações futuras sobre um fenómeno bem conhecido: diferentes pessoas respondem de formas muito distintas às mesmas mudanças alimentares. Enquanto alguns indivíduos prosperam com restrições de produtos de origem animal, outros podem experienciar efeitos metabólicos adversos. O estudo sugere que parte desta variabilidade pode estar enraizada em diferenças genéticas que só se manifestam num contexto alimentar específico, oferecendo uma ponte entre a nutrição personalizada e a medicina genómica.
Citações Notáveis
O contexto alimentar pode modificar a forma como determinadas variantes genéticas se relacionam com o risco de doença— Investigadores do estudo na Nature Communications
Durante a restrição de produtos de origem animal, os indivíduos sofrem uma restrição de proteínas que não é acompanhada por uma redução da ingestão energética total— Especialistas do estudo