Uma sociedade que não conhece as suas capacidades científicas não consegue fazer escolhas informadas
Numa segunda-feira de julho, o presidente da República visitou o i3S no Porto e saiu com uma inquietação que transcende a política: Portugal produz ciência de referência internacional, mas a maioria dos seus cidadãos desconhece essa realidade. Para Seguro, essa invisibilidade não é apenas uma falha de comunicação — é uma ferida democrática e uma oportunidade estratégica desperdiçada, num século em que a saúde é simultaneamente direito e motor económico. O país possui o ecossistema; falta-lhe a arquitetura que o torne coerente, visível e sustentável.
- Portugal tem ciência de nível internacional, mas a maioria dos portugueses ignora completamente a sua existência — uma lacuna que Seguro classifica como democrática e estratégica.
- Sem visibilidade, a sociedade não consegue fazer escolhas informadas sobre o futuro, não sabe em que investir nem que perguntas fazer ao poder político.
- O diretor do i3S alerta que, sem financiamento à ciência fundamental, a inovação torna-se importada e dependente — uma floresta que nunca cresce por falta da primeira árvore plantada.
- O instituto lança o primeiro centro de excelência em medicina genómica do país, com mais de 40 milhões de euros e parceria europeia, como resposta concreta à urgência de consolidar capacidade nacional.
- Porto avança com planos para criar laboratórios de apoio a startups até 2030 e um hub de inovação e tecnologia, tentando transformar investigação em economia regional.
António José Seguro visitou os laboratórios do i3S no Porto numa segunda-feira de julho e saiu com uma pergunta que o persegue há meses: porque é que Portugal tem ciência de referência internacional que a maioria dos portugueses desconhece?
Percorrendo três laboratórios e duas plataformas científicas dedicadas à imunologia, ao cancro e às doenças neurológicas, o presidente ficou impressionado com o que viu — e preocupado com o silêncio que envolve tudo isto. Portugal possui, disse, ativos científicos que poucas nações desta dimensão possuem, mas falta-lhe a arquitetura que os torne visíveis. Para Seguro, essa invisibilidade atravessa duas dimensões críticas: a democrática, porque uma sociedade que ignora as suas capacidades não consegue fazer escolhas informadas; e a estratégica, porque a saúde é uma das maiores oportunidades económicas do século e deixá-la fragmentada é desperdiçar potencial.
A visita coincidiu com o décimo aniversário do instituto, nascido da fusão de três centros da Universidade do Porto. Hoje, o i3S reúne cerca de 800 investigadores em mais de 60 equipas, organizados em torno do cancro, das doenças infecciosas e das doenças neurológicas. O diretor Cláudio Sunkel defendeu o reforço do financiamento à ciência fundamental, alertando que sem essa base a inovação se torna importada e tardia. Usou uma metáfora simples: sem plantar a árvore, não haverá floresta.
O anúncio mais concreto foi o lançamento do primeiro centro de excelência em medicina genómica do país, financiado com mais de 40 milhões de euros de fontes europeias, nacionais e privadas, em parceria com o Laboratório Europeu de Biologia Molecular. O atual centro do i3S já realiza mais de 10 mil testes genéticos por ano integrados no SNS.
O reitor da Universidade do Porto anunciou o objetivo de criar, até 2030, uma estrutura de laboratórios para apoiar startups nas Ciências da Vida. O presidente da Câmara do Porto foi mais longe: visitar o i3S é visitar uma ideia de futuro. Recordou o memorando para lançar o Porto Innovation and Technology Community Hub, destinado a atrair talento e acelerar a transferência de tecnologia para a economia regional.
A questão que Seguro deixou em aberto permanece: como transformar invisibilidade em visibilidade? A resposta parece exigir não apenas melhor comunicação, mas uma reorganização profunda de como o país pensa, financia e integra a ciência no seu futuro.
António José Seguro desceu aos laboratórios do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, no Porto, numa segunda-feira de julho, e saiu com uma pergunta que o persegue há meses: porque é que Portugal tem ciência de referência internacional que a maioria dos portugueses desconhece completamente?
O presidente da República visitou três laboratórios e duas plataformas científicas do i3S — instituições dedicadas à imunologia, ao cancro, às doenças neurológicas — e depois reuniu-se com investigadores no Auditório Mariano Gago. O que viu o impressionou. O que o preocupou foi o silêncio que envolve tudo isto. Portugal possui, disse, "ativos científicos que poucas nações desta dimensão possuem". Mas falta-lhe "a arquitetura que os torne visíveis". Não é uma questão menor. Para Seguro, essa invisibilidade é um problema que atravessa duas dimensões críticas: a democrática e a estratégica.
A dimensão democrática é simples de entender. Uma sociedade que ignora as suas próprias capacidades científicas não consegue fazer escolhas informadas sobre o seu futuro. Não sabe do que é capaz. Não sabe em que investir. Não sabe que perguntas fazer. A dimensão estratégica é ainda mais urgente: a saúde não é apenas um direito fundamental, mas uma das maiores oportunidades económicas do século. Deixar essa oportunidade invisível, fragmentada, dependente dos ciclos políticos, é deixar dinheiro e potencial sobre a mesa.
O que falta ao país, sublinhou Seguro, não é o ecossistema científico em si — esse já existe e produz conhecimento de qualidade internacional. O que falta é uma estrutura que o torne "visível, coerente e sustentável no tempo", que ligue investigação básica, investigação clínica, universidades, hospitais e empresas numa arquitetura que faça sentido. Percorrendo os laboratórios de Immunology, Cancer & GlycoMedicine, de Immune Regulation e de Neuro & Skeletal Circuits, o presidente destacou o que considera o traço distintivo do i3S: uma investigação que não fica trancada no laboratório, mas que procura "as distâncias mais curtas possíveis entre o conhecimento e a vida das pessoas".
A visita coincidiu com o décimo aniversário do instituto, nascido da fusão de três centros de investigação da Universidade do Porto. Hoje, o i3S emprega cerca de 800 investigadores distribuídos por mais de 60 equipas, organizados em torno de três programas científicos centrados no cancro, nas doenças infecciosas e nas doenças neurológicas. Cláudio Sunkel, diretor da instituição, aproveitou o momento para defender o reforço do financiamento à ciência fundamental. Sem essa base, alertou, "a inovação torna-se importada, dependente e tardia". Usou uma metáfora: quando plantamos uma árvore, nem sempre sabemos o que nascerá ou quando dará frutos, mas sabemos que sem esse gesto inicial não haverá floresta.
O anúncio mais concreto veio também de Sunkel: o lançamento do primeiro centro de excelência em medicina genómica do país, financiado com mais de 40 milhões de euros provenientes de fontes europeias, nacionais e privadas, em parceria com o Laboratório Europeu de Biologia Molecular. O atual Centro de Genética Preditiva e Preventiva do i3S já realiza mais de 10 mil testes genéticos por ano, integrado no Serviço Nacional de Saúde. Reforçar essa capacidade, disse Seguro, representa "um ativo nacional" para Portugal.
Pedro Nuno Teixeira, reitor da Universidade do Porto, interpretou a visita presidencial como um "voto de confiança no futuro" da instituição e anunciou um objetivo ambicioso: criar, até 2030, uma estrutura de laboratórios molhados para apoiar startups e projetos de empreendedorismo nas Ciências da Vida e da Saúde. Pedro Duarte, presidente da Câmara do Porto, foi mais longe na linguagem: visitar o i3S não é apenas visitar um centro de investigação, é "visitar uma ideia de futuro". Recordou o memorando assinado recentemente entre a Câmara, a Universidade do Porto e o Politécnico do Porto para lançar o PITS — Porto Innovation and Technology Community Hub —, com o objetivo de atrair talento, investigação e acelerar a transferência de tecnologia para a economia regional.
O que fica em aberto é a questão que Seguro colocou: como transformar essa invisibilidade em visibilidade? Como fazer com que uma sociedade conheça e valorize o que já produz? A resposta não parece estar apenas na comunicação. Parece estar numa reorganização profunda de como o país pensa a ciência, a financia e a integra no seu futuro.
Citações Notáveis
Porque é que Portugal tem ciência de referência internacional que a maioria dos portugueses não conhece?— António José Seguro, presidente da República
Sem financiamento à ciência fundamental, a inovação torna-se importada, dependente e tardia— Cláudio Sunkel, diretor do i3S
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Porque é que o presidente da República escolheu este momento, este instituto, para fazer este alerta?
Porque o i3S completa dez anos e porque Seguro tem vindo a percorrer o país e a fazer a mesma pergunta repetidamente. Viu algo que o incomodou: excelência invisível. Não é uma crítica ao instituto — é uma crítica ao país inteiro.
Quando ele diz que é um problema "democrático", o que quer dizer exatamente?
Que uma sociedade que não conhece as suas próprias capacidades não consegue fazer escolhas informadas sobre o seu futuro. Se não sabes que tens ciência de qualidade internacional, não sabes em que investir, não sabes que perguntas fazer aos teus líderes.
E a dimensão estratégica?
É mais crua. A saúde é uma das maiores oportunidades económicas do século. Se deixas essa oportunidade invisível, fragmentada, dependente de ciclos políticos, estás a desperdiçar dinheiro e potencial.
O que é que o i3S tem de especial que o torna digno de ser visitado pelo presidente?
Tem 800 investigadores, trabalha em três áreas críticas — cancro, doenças infecciosas, doenças neurológicas — e faz investigação que não fica no laboratório. Procura as distâncias mais curtas entre o conhecimento e a vida das pessoas.
E o novo centro de medicina genómica?
É concreto. Mais de 40 milhões de euros, parceria europeia, e o instituto já faz 10 mil testes genéticos por ano integrados no Serviço Nacional de Saúde. É um ativo nacional que pode crescer muito.
O que é que muda agora?
Isso é a pergunta. Seguro colocou o problema em cima da mesa. A Câmara do Porto está a tentar criar um ecossistema de inovação. A Universidade quer ter laboratórios para startups até 2030. Mas a questão de fundo — como tornar a ciência visível — ainda está por responder.