Seca do Madeira deixa comunidades ribeirinhas sem água e dificulta acesso à escola

Aproximadamente 22,9 mil pessoas em 85 localidades, incluindo comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas, enfrentam falta de água potável e dificuldades de acesso à educação e subsistência.
O nosso rio passava aqui, hoje não é rio mais
Moradora de 41 anos observa a transformação radical do Madeira durante a seca de outubro.
Mark

Por que isso importa agora? A seca amazônica não é algo que acontece todo ano?

Mimi

Acontece, sim. Mas este ano o rio está mais de um metro abaixo do normal para outubro. O El Niño agravou tudo. Não é só um incômodo — é gente sem água potável, crianças que não conseguem chegar à escola, agricultores que perdem colheita.

Luke

Espera. Quantas pessoas exatamente estão sem água potável? O número de 22,9 mil inclui todo mundo afetado pela seca, mas nem todos necessariamente estão sem acesso a água para beber.

Mimi

Verdade. O número é de pessoas afetadas pela seca em 85 localidades. Mas as histórias que ouvimos — Bom Será, Brasileira — mostram que muitas comunidades não têm poço próprio e dependem de alternativas que não fornecem água potável.

Mark

E quanto à escola? Como a seca afeta as crianças?

Mimi

O filho de Telma estuda em São Carlos e precisa caminhar de quatro a cinco quilômetros para chegar ao transporte fluvial. Antes, o rio permitia acesso mais direto. Agora a distância aumentou porque o rio recuou.

Luke

Mas ele ainda consegue chegar à escola, certo? Está difícil, mas não é impossível.

Mimi

Não é impossível, mas é muito mais difícil. E nem todas as famílias têm a mesma capacidade de lidar com isso.

Mark

O que vai acontecer agora?

Mimi

Porto Velho decretou emergência por 180 dias. Vão trazer água em caminhões-pipa, fazer dragagem do rio. Mas a questão real é: quando o rio volta ao normal?

Luke

E se não voltar? Se o El Niño continuar ou se isso virar um padrão?

Mimi

Aí as comunidades ribeirinhas enfrentam um problema muito maior do que uma estiagem sazonal.

  • O rio Madeira registra 2,62 metros de profundidade quando deveria estar em 3,9 metros, tornando a navegação perigosa e isolando dezenas de comunidades que dependem das águas para sobreviver.
  • Famílias inteiras dividem um único galão de água entre seis pessoas, enquanto agricultoras veem colheitas de banana apodrecerem porque o rio baixo impede o transporte da produção.
  • Crianças percorrem até cinco quilômetros a pé para alcançar pontos de embarque escolar, pois o encolhimento do rio deslocou as margens e tornou o trajeto habitual intransitável.
  • A Marinha restringiu a navegação noturna e o comboio de balsas foi reduzido, enquanto moradores relatam o surgimento de bancos de areia onde antes havia curso d'água contínuo.
  • Porto Velho decretou emergência de nível II por 180 dias e solicita ao governo federal caminhões-pipa e dragagem, mas as medidas institucionais correm atrás de uma crise que já se instalou na vida cotidiana de 85 localidades.

O rio Madeira, artéria histórica das comunidades ribeirinhas de Rondônia, atravessa em outubro de 2026 uma seca agravada pelo El Niño que o deixa mais de um metro abaixo do nível esperado — transformando vias de navegação em extensões de areia e privando cerca de 22,9 mil pessoas de água potável, renda e acesso à educação. Porto Velho decretou emergência por 180 dias, reconhecendo que a natureza cíclica do 'verão amazônico' ganhou, desta vez, uma dimensão que ultrapassa o ordinário. O que está em jogo não é apenas um nível de água, mas a continuidade de um modo de vida construído à beira de um rio que agora recua.

O rio Madeira sempre foi a estrada, a fonte e o sustento das comunidades que vivem às suas margens em Porto Velho. Em outubro de 2026, esse rio virou areia. Com 2,62 metros de profundidade — mais de um metro abaixo do esperado para a época —, o Madeira expõe bancos de areia onde antes havia navegação, e priva cerca de 22,9 mil pessoas em 85 localidades de água potável, mobilidade e renda. O fenômeno El Niño agravou o já conhecido 'verão amazônico', transformando uma seca cíclica em desastre de nível II.

Na comunidade Bom Será, Elizete Mota Leite divide um galão de água entre quatro crianças e dois adultos. O único poço disponível na região não fornece água potável, e a pergunta que a assombra é simples: e se esse poço também secar? A poucos quilômetros, a agricultora Maria Rita viu meses de trabalho se perderem — sem condições de acessar o bananal pelo rio, os frutos apodreceram antes de chegar ao porto.

Telma Temes da Silva, moradora há 41 anos da comunidade Brasileira, observa uma transformação que vai além da seca sazonal. 'O nosso rio passava aqui, hoje não é rio mais', disse, descrevendo o avanço de bancos de areia sobre o leito. Seu filho precisa caminhar de quatro a cinco quilômetros para alcançar o transporte escolar — não porque a escola mudou, mas porque o rio encolheu.

Diante do cenário, a Prefeitura de Porto Velho decretou situação de emergência por 180 dias em 6 de outubro, abrindo caminho para solicitar apoio estadual e federal com caminhões-pipa e dragagem. A Marinha restringiu a navegação noturna e o comboio de balsas foi reduzido. O DNIT prevê concluir a dragagem até novembro. Mas entre o decreto e a água que falta, vivem famílias que sabem que um rio transformado em deserto de areia não recupera seu leito com a velocidade de uma assinatura oficial.

O rio Madeira, que sempre foi a via de vida para as comunidades que margeiam Porto Velho, virou um problema. Onde havia água suficiente para navegar, transportar produtos e buscar água para beber, agora há areia — muita areia. Em outubro de 2026, o rio marcava 2,62 metros de profundidade, quando deveria estar em torno de 3,9 metros. Mais de um metro abaixo do esperado. A região Norte tem seus períodos secos regulares, o chamado "verão amazônico" que vai de julho a novembro, mas os dados do SipamHidro, plataforma de monitoramento do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia, mostram que este ano é diferente. O fenômeno El Niño agravou tudo.

Na comunidade Bom Será, Elizete Mota Leite, presidente da associação local, enfrenta um dilema que se repete em dezenas de localidades. Não há poço próprio para abastecer a região. A única alternativa disponível atende apenas algumas famílias e não fornece água potável. Seu marido trabalha como cobrador e carrega galões de água — um galão para seis pessoas, quatro crianças e dois adultos. Um galão que acaba rápido demais. A preocupação dela é simples e concreta: e se esse poço artesiano na beira da estrada também secar?

A falta de água não é apenas um incômodo doméstico. Maria Rita, agricultora, ficou quase quatro meses sem conseguir retirar sua produção de banana do bananal. Sem condições de chegar ao local de cultivo, os frutos apodreceram antes de serem transportados. Normalmente, ela carrega a banana nas costas até a beira do rio, coloca na canoa e leva ao porto. Mas quando não há "praia" — quando o rio não recua o suficiente para deixar a margem acessível — esse trabalho fica impossível. A renda da família desaparece com a água.

Telma Temes da Silva nasceu na comunidade Brasileira e vive lá há 41 anos. Ela viu o rio mudar. Onde antes havia água contínua, agora surgem bancos de areia e extensões de terra seca. "O nosso rio passava aqui, hoje não é rio mais", disse. Ela observa um soterramento do rio, uma transformação que a assusta. Seu filho estuda na comunidade de São Carlos e precisa caminhar de quatro a cinco quilômetros a pé para chegar ao ponto de embarque do transporte fluvial. A escola ficou mais distante não porque se moveu, mas porque o rio encolheu.

A situação afeta 22,9 mil pessoas em 85 localidades — áreas rurais, comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas. Em 6 de outubro, a Prefeitura de Porto Velho decretou situação de emergência por 180 dias, classificada como desastre de nível II. A medida abre caminho para solicitar apoio dos governos estadual e federal para fornecimento de água potável por caminhões-pipa e embarcações, além de facilitar contratações emergenciais e compra de materiais. Marcelo Duarte, diretor executivo da Defesa Civil Municipal, foi claro: a estiagem ocorre todos os anos, mas este ano foi agravada pelo El Niño e todos os seus efeitos.

Com o nível baixo, bancos de areia e rochas tornaram a navegação perigosa. A Marinha restringiu a navegação noturna. O comboio de balsas de carga foi reduzido. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes prevê concluir os serviços de dragagem até novembro. Até lá, as comunidades ribeirinhas devem receber assistência durante o período de estiagem, segundo a Defesa Civil Municipal. Mas a água que falta não volta com um decreto, e o rio que se transformou em deserto de areia não recupera seu leito em semanas.

A gente se preocupa também de secar o nosso poço, o poço artesiano que a gente tem lá na beira da estrada. Meu esposo trabalha de cobrador, então ele leva o galão, traz um galão, só que aí pra nós somos seis, são quatro crianças e dois adultos, né, pra tu ver um galãozinho de água daquele é rapidinho, é rápido demais
— Elizete Mota Leite, presidente da associação da comunidade Bom Será
O El Niño, o efeito que a gente já está monitorando desde o começo do ano, ele agravou essa situação. Essa situação da estiagem é algo que ocorre todos os anos, mas esse ano ela foi agravada por conta do fenômeno e de todos os efeitos que dão ao redor dele
— Marcelo Duarte, diretor executivo da Defesa Civil Municipal de Porto Velho
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