Nos primeiros dois meses de 2025, São Paulo registrou simultaneamente um aumento de 13,5% nos casos de estupro e uma queda de 9% nos feminicídios — números que, à primeira vista, parecem contraditórios, mas que juntos revelam algo mais sutil: uma sociedade em transição, onde mais vítimas encontram voz enquanto o Estado tenta, ainda que de forma imperfeita, proteger as mais vulneráveis. Os dados, divulgados pelo governo estadual no final de março, convidam à reflexão sobre a diferença entre o crescimento da violência e o crescimento da coragem de denunciá-la.
São Paulo registra alta de 13,5% em estupros; feminicídios caem 9%
cada vida preservada já é um avanço que precisa ser valorizado
Por que o aumento de denúncias de estupro é considerado uma boa notícia?
Porque significa que as vítimas estão encontrando espaços onde podem falar sem medo de serem julgadas ou desacreditadas. Quando uma delegacia acolhe bem, outras vítimas ganham coragem.
E a queda nos feminicídios — é realmente um progresso?
É um sinal, mas tímido. Nove por cento é pouco. O que importa é que as ações de proteção estão começando a funcionar em alguns casos, impedindo que relacionamentos abusivos terminem em morte.
Por que há tanta diferença entre a capital e o interior?
O interior tem menos acesso a delegacias especializadas, menos recursos, menos visibilidade. A queda lá foi maior, mas também partia de um número maior de mortes.
A subnotificação ainda é o grande problema?
Sim. Muitas mulheres não denunciam porque têm medo do agressor, ou porque já tentaram antes e não foram ouvidas. Os números que vemos são apenas a ponta do iceberg.
O aplicativo SP Mulher resolve isso?
É um começo. Oferece uma forma de denunciar sem estar cara a cara com alguém. Mas tecnologia sozinha não muda a cultura. Precisa de treinamento, de delegados que entendam, de polícia que proteja.
The Pulse
- Com 2.487 estupros registrados em apenas dois meses, o volume de casos expõe a escala persistente da violência sexual contra mulheres em São Paulo.
- A queda de 51 para 42 feminicídios é modesta, mas cada uma dessas 42 mortes representa uma vida que o sistema não conseguiu proteger a tempo.
- Autoridades alertam que o aumento nos registros de estupro pode refletir mais denúncias — não necessariamente mais crimes —, sinalizando uma mudança cultural ainda frágil.
- A subnotificação segue como barreira crítica: medo, vergonha e desconfiança nas instituições ainda impedem que muitas vítimas cheguem às delegacias.
- O Estado responde com 141 DDMs, salas de atendimento 24 horas, o aplicativo SP Mulher e novas capacitações profissionais — uma rede ampla, mas ainda insuficiente diante da demanda.
Nos primeiros dois meses de 2025, São Paulo registrou simultaneamente um aumento de 13,5% nos casos de estupro e uma queda de 9% nos feminicídios — números que, à primeira vista, parecem contraditórios, mas que juntos revelam algo mais sutil: uma sociedade em transição, onde mais vítimas encontram voz enquanto o Estado tenta, ainda que de forma imperfeita, proteger as mais vulneráveis. Os dados, divulgados pelo governo estadual no final de março, convidam à reflexão sobre a diferença entre o crescimento da violência e o crescimento da coragem de denunciá-la.
São Paulo registrou 2.487 estupros nos primeiros dois meses de 2025, alta de 13,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ao mesmo tempo, os feminicídios recuaram de 51 para 42 casos — queda de 9%. Os números, divulgados pelo governo estadual no fim de março, não apontam necessariamente em direções opostas: revelam, juntos, as contradições de um sistema institucional em transformação.
A delegada coordenadora das DDMs, Adriana Liporoni, oferece uma leitura que vai além da superfície dos dados. O crescimento nos registros de estupro, segundo ela, pode indicar que mais vítimas estão encontrando coragem para denunciar — especialmente nos casos de estupro de vulnerável, onde um atendimento mais acolhedor tem encorajado outras a virem à frente. A queda nos feminicídios, ainda que tímida, é interpretada como sinal de que as ações de enfrentamento começam a produzir efeito.
Regionalmente, os padrões divergem. Na capital e Grande São Paulo, os feminicídios se mantiveram estáveis, com 17 casos. No interior, a queda foi mais expressiva: de 34 mortes em 2024 para 25 em 2025. A subnotificação permanece como obstáculo central — muitas vítimas ainda hesitam por medo, vergonha ou desconfiança nas instituições.
Para enfrentar esse cenário, São Paulo mantém a maior rede de delegacias especializadas em violência de gênero do mundo, com 141 DDMs. A estratégia inclui salas 24 horas, atendimento online e o aplicativo SP Mulher. No fim de março, o governo anunciou novas medidas para ampliar incentivos à denúncia e capacitar profissionais. Os dados de 2025 sugerem avanços incipientes — mas 42 feminicídios e milhares de estupros em apenas dois meses deixam claro que o caminho ainda é longo.
São Paulo registrou 2.487 estupros nos primeiros dois meses de 2025, um salto de 13,5% comparado ao mesmo período do ano anterior. Ao mesmo tempo, os feminicídios caíram de 51 para 42 casos — uma redução de 9% — segundo dados divulgados pelo governo estadual no final de março. Os números, à primeira vista contraditórios, revelam dinâmicas complexas na violência de gênero e na resposta institucional a ela.
Adirana Liporoni, delegada coordenadora das Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), oferece uma interpretação que desafia a leitura superficial dos dados. O aumento nos registros de estupro, segundo ela, pode não significar que mais crimes estão acontecendo, mas que mais vítimas estão encontrando coragem para denunciar. Ela aponta especialmente para os casos de estupro de vulnerável, onde observa que as vítimas agora recebem escuta mais respeitosa e acolhedora — mudança que, por sua vez, encoraja outras a virem à frente.
A queda nos feminicídios, embora modesta, é interpretada pela delegada como sinal de que as ações de enfrentamento começam a produzir resultados. Ela reconhece que o avanço é tímido e que muito ainda precisa ser feito, mas enfatiza que cada vida preservada representa um progresso que merece ser reconhecido.
Os números regionais mostram padrões distintos. Na capital e Grande São Paulo, foram registrados 17 feminicídios entre janeiro e fevereiro de 2025, mantendo o mesmo patamar do ano anterior. No interior do estado, a queda foi mais pronunciada: 25 mortes em 2025 contra 34 no período equivalente de 2024.
Um obstáculo persistente permanece: a subnotificação. Muitas vítimas ainda hesitam em denunciar por medo, vergonha ou desconfiança nas instituições. Para enfrentar esse desafio, o Estado tem investido na criação de espaços seguros de atendimento, com suporte especializado da Polícia Militar e do Instituto Médico Legal.
São Paulo mantém a maior rede de delegacias especializadas em violência de gênero do mundo, com 141 DDMs espalhadas pelo estado. A estratégia de atendimento inclui salas de funcionamento 24 horas, serviços online e um aplicativo chamado SP Mulher. No final de março, o governo anunciou novas medidas focadas em ampliar os incentivos à denúncia e capacitar profissionais para melhorar o atendimento às vítimas.
Os dados de 2025 sugerem que a resposta institucional está começando a criar condições para que vítimas se manifestem. Mas a persistência de milhares de estupros e dezenas de feminicídios em apenas dois meses deixa claro que o trabalho está longe de terminado.
Notable Quotes
O aumento das estatísticas muitas vezes não reflete um crescimento da violência, mas sim um avanço na coragem das vítimas em denunciar— Adriana Liporoni, delegada coordenadora das DDMs
Essa queda, ainda que tímida, representa que nossas ações de enfrentamento estão começando a dar resultados— Adriana Liporoni, delegada coordenadora das DDMs