Portugal alcançou um marco histórico no segundo trimestre de 2026: 125 mil pessoas auferem salários líquidos acima de três mil euros mensais, um número que duplicou em apenas dois anos. Este crescimento, celebrado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro como sinal de uma economia em transformação, está concentrado em gestores, decisores e especialistas qualificados — grupos cujos rendimentos subiram até 17%. A velocidade da mudança é real, mas a sua abrangência permanece estreita, levantando a questão perene de saber se a prosperidade que nasce no topo encontra, com o tempo, o caminho para baix
Salários acima de 3000 euros atingem máximo histórico com 125 mil pessoas
Quanto mais pessoas ganham bem, menos há a ganhar mal
Porque é que o primeiro-ministro escolheu falar especificamente dos cento e vinte e cinco mil que ganham acima de três mil euros? Parece um número muito pequeno para celebrar.
Porque representa uma mudança de direção. Há dois anos eram sessenta mil. Duplicou. Para um político, isso é prova de que as suas políticas estão a funcionar — menos impostos, mais emprego qualificado. Mas é também um número que soa bem: é grande o suficiente para ser real, pequeno o suficiente para não parecer que está a falar de uma elite distante.
Mas se é apenas dois vírgula sete por cento do emprego total, porque é que isso importa tanto?
Porque mostra para onde a economia está a ir. Não é sobre os números absolutos. É sobre a direção. Os salários dos gestores subiram dezassete por cento. Os dos especialistas em tecnologia e saúde subiram treze por cento. Enquanto isso, o emprego dos mais jovens caiu. A economia está a envelhecer, a qualificar-se, a concentrar-se no topo.
Então isto é bom ou mau?
Depende de onde se está. Se se é um gestor ou um especialista em TIC, é excelente. Se se é um jovem à procura do primeiro emprego, ou alguém com qualificações básicas, é preocupante. A economia está a criar empregos bem pagos, mas não para toda a gente.
E o que sustenta este crescimento? É realmente as políticas de impostos mais baixos?
Não é só isso. A saúde está em expansão — envelhecimento da população, mais procura de cuidados. A construção também cresce. O imobiliário, o turismo, a tecnologia. São setores que naturalmente pagam melhor. O que as políticas de impostos fazem é permitir que esses salários maiores cheguem mais inteiros ao bolso das pessoas. Mas o crescimento vem de mudanças estruturais na economia.
El Pulso
- O número de portugueses a ganhar acima de 3000 euros líquidos duplicou em dois anos, atingindo 125 mil pessoas — um recorde histórico que o Governo apresenta como prova de uma viragem económica.
- A subida é liderada por políticos, gestores e decisores executivos, cujos salários cresceram 17% — a maior alta entre todas as profissões analisadas pelo INE — criando uma tensão visível entre o discurso de prosperidade partilhada e a concentração real dos ganhos.
- Setores como saúde, construção, imobiliário e tecnologia estão a puxar o emprego qualificado, mas mais de metade do crescimento é explicado por trabalhadores com mais de 55 anos, revelando uma dinâmica demográfica que não beneficia os mais jovens.
- O grupo dos jovens entre 16 e 24 anos registou uma queda de quase 8 mil pessoas no emprego, enquanto o salário médio líquido da economia subiu 14% para 1348 euros — um número que esconde a concentração dos ganhos no topo e no meio qualificado.
- A narrativa política de Montenegro — impostos mais baixos, salário mínimo mais alto, aposta em emprego qualificado — encontra eco nos dados, mas economistas alertam que 2,7% do emprego total não constitui uma transformação massiva, e que Portugal pode estar a construir uma economia de dois níveis.
Portugal alcançou um marco histórico no segundo trimestre de 2026: 125 mil pessoas auferem salários líquidos acima de três mil euros mensais, um número que duplicou em apenas dois anos. Este crescimento, celebrado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro como sinal de uma economia em transformação, está concentrado em gestores, decisores e especialistas qualificados — grupos cujos rendimentos subiram até 17%. A velocidade da mudança é real, mas a sua abrangência permanece estreita, levantando a questão perene de saber se a prosperidade que nasce no topo encontra, com o tempo, o caminho para baixo.
No segundo trimestre de 2026, Portugal registou um número sem precedente: 125 mil pessoas a auferir salários líquidos acima de três mil euros mensais. O valor representa apenas 2,7% do emprego total, mas a sua velocidade de chegada é o que surpreende — há dois anos, esse contingente era metade do tamanho.
O primeiro-ministro Luís Montenegro celebrou o feito na Festa do PSD no Algarve, atribuindo o crescimento às descidas de impostos sobre rendimentos e empresas e à subida do salário mínimo, hoje próximo dos 920 euros brutos. A lógica política é direta: mais pessoas a ganhar bem significa menos a ganhar mal. Mas os dados do INE contam uma história mais matizada.
O grupo que mais contribuiu para este crescimento é o dos políticos, gestores de topo e decisores executivos — 327 mil profissionais cujo salário médio líquido de 2236 euros subiu 17% em termos homólogos, a maior alta entre todas as profissões analisadas. Logo atrás surgem os especialistas em atividades intelectuais e científicas — mais de 1,3 milhões de pessoas em saúde, tecnologia, finanças e direito — com salários médios de 1823 euros e uma subida superior a 13%.
Vários fatores alimentam esta dinâmica. A saúde criou mais de 43 mil postos de trabalho no trimestre, a construção outros 42 mil. Mas há um detalhe demográfico revelador: mais de metade do aumento do emprego foi protagonizado por trabalhadores com mais de 55 anos, que tendem a auferir salários mais elevados. Em sentido inverso, os jovens entre 16 e 24 anos perderam quase 8 mil postos de trabalho.
A economista Vanda Duarte, do Banco BPI, notou que o crescimento é transversal mas assimétrico. O salário líquido médio da economia subiu 14% para 1348 euros — um número que, no entanto, mascara a concentração dos ganhos. Os 125 mil que ganham acima de 3000 euros, somados aos 125 mil no escalão imediatamente abaixo, representam juntos apenas 5,4% do emprego total. A transformação é real e sustentada por setores em expansão, mas a questão que permanece em aberto é se esta prosperidade consegue descer aos escalões mais baixos — ou se Portugal está, silenciosamente, a construir uma economia de dois andares.
No segundo trimestre deste ano, Portugal atingiu um marco que nenhuma estatística anterior havia registado: cento e vinte e cinco mil pessoas auferem salários líquidos acima de três mil euros mensais. O número é pequeno em proporção — representa apenas dois vírgula sete por cento do emprego total — mas o que importa é a velocidade com que chegou ali. Há dois anos, esse contingente era metade do tamanho. A duplicação em tão pouco tempo não é coincidência. É o reflexo de uma economia que está a mudar de forma, puxada por setores específicos e por um tipo de trabalhador muito particular.
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, celebrou o feito na Festa do PSD no Pontal, no Algarve, a meados de agosto. Disse que o número de pessoas ganhando acima de três mil euros duplicou desde que assumiu o cargo, e que isso é motivo de orgulho. A sua lógica é simples: quanto mais pessoas ganham bem, menos há a ganhar mal. Apontou as descidas de impostos sobre rendimentos do trabalho e das empresas como fatores decisivos, juntamente com a subida do salário mínimo, que hoje ronda os novecentos e vinte euros brutos. Mas a realidade por trás dos números é mais complexa do que a narrativa política sugere.
O crescimento dos salários mais altos está concentrado numa profissão específica: políticos, gestores de topo e decisores executivos. Este grupo, que inclui diretores, representantes do poder legislativo e órgãos executivos, cresceu para trezentos e vinte e sete mil profissionais no primeiro semestre. O seu salário médio líquido é de dois mil duzentos e trinta e seis euros — e subiu dezassete por cento em relação ao período homólogo. É a maior subida registada entre todas as profissões analisadas pelo Instituto Nacional de Estatística. Quase sessenta por cento destes profissionais trabalham por conta de outrem, ou seja, cento e oitenta e sete mil pessoas. Os restantes são trabalhadores por conta própria, perto de cento e quarenta mil.
O segundo grupo que contribui para o aumento dos salários acima de três mil euros é o dos especialistas em atividades intelectuais e científicas — profissionais de saúde, professores, especialistas em finanças, contabilidade, tecnologias de informação e comunicação, e assuntos jurídicos. Este grupo é muito maior, com mais de um milhão e trezentas mil pessoas, representando mais de vinte e quatro por cento do emprego total. O seu salário médio líquido é de mil oitocentos e vinte e três euros, e subiu mais de treze por cento também no segundo trimestre.
Vários fatores explicam este impulso salarial. A saúde está em expansão — o setor criou mais de quarenta e três mil postos de trabalho no segundo trimestre, explicando vinte e nove por cento do aumento homólogo do emprego. A construção também cresceu, com mais de quarenta e dois mil novos empregos. Mas há um detalhe demográfico importante: mais de metade do aumento do emprego foi explicado por indivíduos com mais de cinquenta e cinco anos. Os trabalhadores mais velhos tendem a ganhar mais do que os mais jovens. Ao mesmo tempo, o emprego com qualificações superiores continua a crescer, enquanto o emprego com qualificações básicas cai. Os contratos sem termo também aumentam, em detrimento dos contratos precários.
Vanda Duarte, economista do Banco BPI, analisou estes dados e notou que a dinâmica é transversal. O crescimento de emprego foi praticamente generalizado, com uma exceção notável: o grupo dos mais jovens, entre dezasseis e vinte e quatro anos, registou uma queda de sete mil novecentas pessoas. No total da economia, o salário líquido subiu catorze por cento em termos homólogos, para mil trezentos e quarenta e oito euros no segundo trimestre. Mas este número global esconde a concentração: o crescimento está a acontecer nos topo e no meio qualificado, não na base.
A celebração de Montenegro causou alguma estranheza entre economistas menos alinhados com o Governo. Os cento e vinte e cinco mil que ganham acima de três mil euros representam apenas dois vírgula sete por cento do emprego total. Se adicionarmos o escalão dos que auferem entre dois mil e quinhentos e três mil euros — também cento e vinte e cinco mil pessoas — chegamos a dois vírgula sete por cento. Não é uma transformação massiva. Mas é real, e é sustentada por setores em crescimento: imobiliário, turismo, finanças pessoais, consultoria em tecnologia de ponta. A fórmula de Montenegro — impostos mais baixos, salários mínimos mais altos, emprego em profissões qualificadas — está a funcionar, pelo menos para quem está no topo. A questão que fica em aberto é se essa dinâmica consegue descer para os escalões mais baixos, ou se Portugal está a criar uma economia de dois níveis.
Citas Notables
O número de pessoas que ganha acima de três mil euros líquidos duplicou nos últimos dois anos, e agora são cento e vinte e cinco mil pessoas nessa situação de topo— Luís Montenegro, primeiro-ministro
Não nos devemos envergonhar de alguns dos nossos quadros nas empresas poderem ter salários mais altos, porque esse deve ser o objetivo de todos— Luís Montenegro, primeiro-ministro