A prancha é mágica. Não sei que número é esse, nem quais são as medidas
No esporte, como na vida, os maiores acertos às vezes nascem de enganos. Miguel Pupo chegou ao topo do ranking mundial de surfe em Bells Beach, Austrália, carregando uma prancha que nunca deveria ter chegado às suas mãos — fabricada por confusão, testada por outros, quase devolvida. O acaso, o talento e quatro anos ao lado de um campeão mundial transformaram esse equívoco em liderança.
- Uma prancha fabricada com as medidas trocadas percorreu mãos erradas — o irmão, o técnico, a namorada — antes de chegar a Miguel quase por descuido.
- O surfista a testou em Snapper Rocks e ficou tão impressionado que mandou mensagem ao shaper dizendo que o equipamento era 'mágico', sem nem saber suas medidas exatas.
- A vitória em Bells Beach colocou Miguel Pupo pela primeira vez no topo do ranking mundial, mas a próxima etapa em Margaret River exige pranchas maiores e uma nova adaptação.
- Desde 2022, a parceria com Adriano de Souza, o Mineiro, campeão mundial de 2015, vem moldando não apenas a técnica de Miguel, mas sua mentalidade competitiva.
- Com Medina eliminado na semifinal de Bells e Pupo no primeiro lugar, o circuito mundial de surfe vive um momento de renovação no protagonismo brasileiro.
Miguel Pupo lidera o ranking mundial de surfe após vencer em Bells Beach, na Austrália — e a história por trás da conquista começa com um erro. Jason Stevenson, shaper australiano da JS Industries, confundiu as medidas dos irmãos Pupo durante a fabricação de uma prancha. O equipamento foi parar no estoque com o nome de Samuel, seguiu para Newcastle, onde o irmão mais novo competia, e passou pelas mãos de Samuel, do técnico dele e até da namorada, Letícia. Ninguém gostou.
Foi Samuel quem, de última hora, sugeriu que Miguel testasse a prancha durante a pré-temporada em Snapper Rocks. O resultado surpreendeu a todos. Miguel enviou uma mensagem ao shaper dizendo que o equipamento era 'mágico' — sem saber sequer suas medidas. Stevenson também ficou confuso: o número era de estoque e o arquivo mal podia ser localizado. As condições específicas de Winkipop fizeram o modelo funcionar de forma quase improvável. A prancha tem 5 pés e 10 polegadas, 26,8 litros de volume e rabeta squash. Na próxima etapa, em Margaret River, ondas maiores vão exigir equipamentos diferentes e nova adaptação.
Mas o acaso tem parceiros. Desde 2022, Miguel trabalha com Adriano de Souza, o Mineiro, campeão mundial de 2015. A parceria começou justamente quando Miguel venceu sua primeira etapa na elite, em Teahupoo. Mais do que técnica, Mineiro trouxe a mentalidade de quem já esteve no topo — e a humildade de quem ainda escuta. 'Ele entende muito como eu me sinto, os momentos bons e ruins', diz Miguel. Este ano, Mineiro também passou a treinar Gabriel Medina, que retornou ao circuito após lesão e chegou à semifinal em Bells, onde foi eliminado por Yago Dora. Miguel, enquanto isso, segue no primeiro lugar de um ranking com muitas etapas ainda por disputar.
Miguel Pupo está em primeiro lugar no ranking mundial de surfe, e ele sabe exatamente quem tem a culpa: ninguém. Ou melhor, o universo. A prancha que o levou à vitória em Bells Beach, na Austrália — o título que o colocou no topo pela primeira vez — chegou às suas mãos por um erro tão perfeito que ele a chama de "mistake", como se o acaso tivesse assinado a obra.
Tudo começou com Jason Stevenson, o shaper australiano fundador da JS Industries, que desenha e fabrica as pranchas para Miguel e seu irmão mais novo, Samuel. Durante a modelagem de um equipamento, Stevenson se confundiu com as medidas de cada um dos irmãos Pupo. O resultado foi uma prancha que deveria ir para o estoque, mas que carregava o nome de Samuel e foi embalada para Newcastle, onde o irmão mais jovem disputava a última etapa do Challenger Series. Samuel testou o equipamento, não gostou. O treinador dele também experimentou, sem sucesso. Depois foi a namorada de Samuel, Letícia, que estava na Austrália com ele, quem a usou por um tempo.
Quando tudo indicava que a prancha seria devolvida por causa do desencontro de informações, Samuel fez um convite de última hora: Miguel deveria testá-la durante a pré-temporada em Snapper Rocks, na Gold Coast. O que aconteceu a seguir foi o que Miguel descreve como mágica. "Mandei mensagem para o Jason e falei: essa prancha é mágica. Não sei que número é esse, nem quais são as medidas, mas ela está incrível", conta o surfista. Stevenson também ficou confuso — o número da prancha era de estoque, então ele não conseguia nem localizar o arquivo do equipamento. Mas tudo funcionou porque as ondas de Winkipop tinham as condições perfeitas para aquele modelo específico. Se tivesse sido em Bells, o pico principal, talvez não tivesse funcionado tão bem. "No fim, foi como tinha que ser", diz Miguel.
O equipamento que o levou à vitória tem 5 pés e 10 polegadas de comprimento — cerca de 1,78 metros — com 26,8 litros de volume e uma rabeta de formato squash, aquele quadrado na parte traseira. Na próxima etapa em Margaret River, que abre no dia 16, Miguel deve usar pranchas maiores porque a onda é mais volumosa e exige muito mais remada. O surfista, que nasceu em Maresias, em São Paulo, mas vive em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, já sabe que terá que se adaptar.
Mas a prancha é apenas parte da história. Desde 2022, Miguel trabalha com Adriano de Souza, o Mineiro, campeão mundial em 2015. Eles começaram juntos exatamente quando Miguel venceu sua primeira etapa na primeira divisão, em Teahupoo, no Taiti. Mineiro traz consigo não apenas o conhecimento técnico de alguém que venceu várias vezes no circuito, mas uma mentalidade que Miguel absorveu. "Não que eu não tivesse mentalidade vencedora, mas ele trouxe todo o conhecimento de campeão mundial", explica Miguel. "É alguém que entende muito como eu me sinto, as coisas que passam pela minha cabeça, os momentos bons e ruins."
O que torna a parceria especial, segundo Miguel, é a humildade de Mineiro. Apesar de saber muito mais, ele sempre escuta o que o surfista tem a dizer. "Fico feliz porque tenho colhido ótimos frutos dessa parceria", diz. Este ano, Mineiro também começou a treinar Gabriel Medina, o tricampeão que retornou à competição após quase dois anos afastado por uma lesão no ombro esquerdo. Medina chegou à semifinal em Bells, mas foi eliminado por Yago Dora. Enquanto isso, Miguel segue em primeiro lugar, liderando um ranking que ainda tem muitas etapas pela frente.
Notable Quotes
Apesar de ele saber muito mais do que eu, é muito humilde e sempre escuta o que eu tenho para falar também— Miguel Pupo, sobre seu técnico Mineiro
No fim, foi como tinha que ser— Miguel Pupo, sobre como a prancha funcionou perfeitamente em Bells Beach
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como você explica que uma prancha que foi um erro de fabricação se tornou tão decisiva para sua vitória?
Honestamente, não consigo explicar completamente. A prancha chegou às minhas mãos de forma tão inusitada que parece que o universo conspirou. Testei em Snapper Rocks e senti algo diferente, algo que funcionava. Nem o shaper conseguia entender porque o número era de estoque.
Você acha que teria vencido em Bells com uma prancha diferente?
Provavelmente não da mesma forma. As ondas de Winkipop tinham condições perfeitas para aquele modelo específico. Se tivesse sido em Bells, o pico principal, talvez não funcionasse tão bem. Tudo se encaixou.
E o papel do Mineiro nessa história? Ele ajudou você a entender a prancha?
O Mineiro trouxe a mentalidade vencedora que eu precisava. Ele entende como eu me sinto, os momentos bons e ruins. Mas além disso, ele é humilde. Sabe muito mais do que eu, mas sempre escuta o que tenho para falar também.
Você sente pressão agora que está em primeiro lugar?
Claro que sinto. Mas o Mineiro me ajuda a lidar com isso. Ele já foi campeão mundial, então sabe exatamente o que é estar nessa posição. É alguém que realmente entende.
A próxima etapa em Margaret River será diferente?
Sim, a onda é mais volumosa e exige muito mais remada. Vou precisar usar pranchas maiores. É um teste de adaptabilidade, mas estou confiante.