Rússia intensifica ataques navais na Ucrânia e ameaça abastecimento global de alimentos

Mais de 30 civis mortos em ataques russos a navios cargueiros entre junho e julho; nove tripulantes e um piloto ucraniano morreram no ataque ao navio Golden Leo; três pessoas, incluindo criança de 8 anos, mortas em ataque a Novorossiysk.
Choveu fogo. É isso. É o fim.
Palavras de um tripulante do Golden Leo momentos antes de um míssil russo atingir o navio, matando dez pessoas.
Mark

Por que a Rússia escolheu atacar especificamente navios de carga civis em vez de focar em alvos militares?

Mimi

Porque os navios de carga são o coração econômico da Ucrânia. Bloqueando as exportações de grãos, a Rússia não apenas prejudica a economia ucraniana — ela ameaça a segurança alimentar global. É uma forma de pressão que afeta civis em todo o mundo.

Mark

Mas a Ucrânia também ataca navios russos. Qual é a diferença moral ou legal entre os dois lados?

Mimi

A Ucrânia ataca petroleiros e navios de carga ligados à Rússia porque são usados para burlar sanções e exportar energia que financia o esforço de guerra do Kremlin. São, tecnicamente, embarcações civis, mas especialistas marítimos argumentam que são parte da máquina de guerra. Os ataques russos a navios ucranianos, por outro lado, visam produtos agrícolas — alimento, não armas.

Mark

O que aconteceu com aquele acordo de 2022, a Iniciativa de Grãos do Mar Negro?

Mimi

Funcionou por um tempo. As Nações Unidas e a Turquia conseguiram negociar um corredor seguro. Mas o acordo fracassou um ano depois. Ainda assim, naquele período a Ucrânia havia expulsado os navios de guerra russos da região e conseguiu continuar navegando. Agora, com os ataques renovados, não há nem mesmo a ilusão de um corredor seguro.

Mark

Qual é o impacto real disso nos preços dos alimentos?

Mimi

Em 2022, quando o bloqueio começou, os preços globais dos alimentos dispararam e cerca de 70 milhões de pessoas enfrentaram maior risco de insegurança alimentar aguda. Agora, com os três principais portos ucranianos potencialmente bloqueados, milhões de toneladas de grãos podem ficar retidas. Esses portos representam 60% da receita mensal de exportação da Ucrânia. O impacto será global.

Mark

Isso é apenas um problema ucraniano?

Mimi

Não. O que está acontecendo no Mar Negro é parte de um padrão maior. O Mar Vermelho está sob ataque. O Estreito de Ormuz está efetivamente fechado. Drones, mísseis antinavio e minas estão interrompendo rotas críticas em todo o mundo. A liberdade de navegação — um princípio fundamental da ordem internacional — está sendo desafiada de forma sistemática.

  • Pelo menos 50 navios de carga atacados em junho e julho; mais de 30 civis mortos
  • Três portos ucranianos representam 60% da receita mensal de exportação de US$ 3,5 bilhões
  • Bloqueio de 2022 colocou 70 milhões de pessoas em risco de insegurança alimentar aguda
  • Dez pessoas morreram no ataque ao navio Golden Leo em 19 de julho

Ataques russos a navios civis mataram mais de 30 civis em junho e julho, com pelo menos 50 embarcações atingidas segundo autoridades ucranianas. Bloqueio aos portos de Odessa e vizinhos pode reter milhões de toneladas de grãos, representando 60% da receita mensal de exportação ucraniana de US$ 3,5 bilhões.

Rússia intensifica ataques a navios cargueiros no Mar Negro, bloqueando exportações de grãos ucranianos e ameaçando cadeias globais de abastecimento alimentar. A campanha marítima reflete conflito mais amplo sobre liberdade de navegação em rotas críticas mundiais.

Numa tarde tranquila em Odessa, enquanto famílias aproveitavam o calçadão da cidade portuária, um navio cargueiro solitário navegava ao longe quando um drone caiu do céu azul e o atingiu em cheio, lançando uma nuvem de fumaça no horizonte. A cena captura o estado atual da guerra no Mar Negro: uma campanha sistemática contra embarcações civis que ameaça desestabilizar as cadeias globais de abastecimento alimentar no momento mais crítico do ano agrícola.

A Ucrânia é um dos principais produtores mundiais de trigo, milho e cevada. Quando a Rússia impôs um bloqueio aos portos ucranianos em 2022, durante os primeiros meses da guerra em grande escala, os preços dos alimentos dispararam globalmente e cerca de 70 milhões de pessoas enfrentaram maior risco de insegurança alimentar aguda. Agora, com os ataques intensificados em junho e julho, as autoridades ucranianas registram pelo menos 50 navios de carga atingidos, com mais de 30 civis mortos. Dmytro Barinov, presidente da Associação de Portos da Ucrânia, descreve o que está acontecendo com precisão: "É uma caçada profissional a embarcações civis."

Os navios de carga, lentos e vulneráveis, tornaram-se alvos fáceis graças a novas armas que permitem atingir objetivos com precisão a grandes distâncias. O bloqueio aos três principais portos ucranianos — Odessa e seus vizinhos — pode reter milhões de toneladas de grãos. Esses três portos representam aproximadamente 60% da receita mensal total de exportação da Ucrânia, que soma US$ 3,5 bilhões. O Conselho Agrícola Ucraniano alertou para uma possível onda de falências e solicitou empréstimos emergenciais e garantias estatais.

O ataque ao navio Golden Leo ilustra a brutalidade dessa campanha. No dia 19 de julho, a embarcação partiu do porto de Chornomorsk totalmente carregada de grãos. Sebastian, um membro da tripulação, observava famílias aproveitando uma tarde tranquila na praia enquanto o barco se afastava. Ele tranquilizava os tripulantes mais jovens e nervosos. Quando o navio estava a apenas quatro milhas do porto, um alarme aéreo soou. Volodmir Mykhailov, um piloto ucraniano a bordo, aconselhou a tripulação a deixar a ponte de comando porque os drones russos costumam mirar no convés de navegação. Enquanto Mykhailov e Sebastian desciam as escadas, um míssil russo atingiu o casco. "Choveu fogo", Sebastian recordaria depois. "É isso. É o fim." Mykhailov foi arremessado contra Sebastian e ambos caíram. Ensurdecido pela explosão, Sebastian sacudiu o piloto, mas ele não reagiu. Morreu nos braços de Sebastian. Nove tripulantes e Mykhailov — dez pessoas no total — pereceram no ataque. O Golden Leo queimou "como uma fornalha" e afundou uma semana depois.

Essa campanha russa não existe isoladamente. Representa o capítulo mais recente de uma longa batalha pelo Mar Negro e pelo Mar de Azov adjacente. A Ucrânia também tem atacado sistematicamente petroleiros e navios de carga ligados à Rússia, destruindo grande parte da frota russa de petroleiros fluviais e marítimos no Mar de Azov e isolando a Crimeia ocupada com escassez de combustível. O ataque mais recente da Ucrânia ocorreu antes do amanhecer de quarta-feira, quando as forças do país atacaram o porto russo de Novorossiysk com drones a jato, mísseis e sistemas navais não tripulados. Posições de defesa aérea, cais e infraestrutura portuária foram atingidos. Três pessoas morreram, incluindo uma criança de 8 anos, e cerca de 60 prédios residenciais foram danificados. O prefeito de Novorossiysk, importante centro de exportação de grãos, declarou estado de emergência após o rompimento de duas tubulações principais de água.

O conflito marítimo entre Rússia e Ucrânia reflete um fenômeno global mais amplo que ameaça um dos princípios fundamentais da ordem internacional: a liberdade de navegação. O sistema marítimo que sustenta o comércio global moderno está sob pressão crescente. Atores estatais e não estatais utilizam cada vez mais drones, mísseis antinavio e minas para interromper rotas críticas. O Mar Vermelho enfrenta ataques constantes. O Estreito de Ormuz, uma via essencial para petróleo e gás, está efetivamente fechado desde que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em fevereiro. Elisabeth Braw, especialista em ameaças marítimas do Atlantic Council, afirma que a Rússia está conduzindo uma campanha sistemática e indiscriminada contra navios mercantes que transportam produtos agrícolas e outras cargas não militares. Tais ataques, segundo ela, violam tratados como a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.

A situação atual lembra o bloqueio de 2022, quando as Nações Unidas e a Turquia intermediaram a Iniciativa de Grãos do Mar Negro, permitindo a retomada da navegação. Aquele acordo fracassou um ano depois, mas a essa altura a Ucrânia já havia expulsado os navios de guerra russos da parte noroeste do Mar Negro e estava em grande parte apta a continuar navegando. Agora, com a intensificação dos ataques, o risco de uma nova crise alimentar global é real e iminente.

É uma caçada profissional a embarcações civis
— Dmytro Barinov, presidente da Associação de Portos da Ucrânia
A Rússia está conduzindo uma campanha sistemática e indiscriminada contra navios mercantes que transportam produtos agrícolas e outras cargas não militares
— Elisabeth Braw, especialista em ameaças marítimas do Atlantic Council
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