Em meio à guerra na Ucrânia e às vésperas de eleições parlamentares, o Kremlin estende sua mão sobre o patrimônio de empresas ocidentais que um dia apostaram na integração econômica com a Rússia. O confisco dos ativos da Nestlé e da Auchan — que juntas empregavam quase quarenta mil pessoas em solo russo — não é um gesto isolado, mas parte de uma reordenação mais profunda: a Rússia reescreve os termos de sua economia, voltando a um modelo em que o Estado decide quem produz, quem permanece e quem pertence.
Rússia confisca ativos da Nestlé em campanha de nacionalização de empresas estrangeiras
Redistribuição de ativos em escala nunca vista desde o colapso soviético
Por que o Kremlin escolheu a Nestlé e a Auchan especificamente neste momento?
O decreto de 2023 já havia criado o mecanismo legal. Mas a escolha parece sinalizar que o governo está acelerando a nacionalização de ativos estrangeiros de grande valor — a Nestlé sozinha representava 2,4 bilhões de dólares em vendas anuais.
Mas precisamos ser claros: o decreto diz "controle temporário". Não sabemos ainda se isso é confisco permanente ou se há alguma negociação possível. O comunicado da Nestlé fala em "avaliar opções", o que sugere que a situação ainda não está completamente fechada.
E quanto aos funcionários? Sete mil na Nestlé, trinta mil na Auchan — o que acontece com eles?
Formalmente, eles continuam empregados. A empresa estatal que assume o controle herda também as operações. Mas na prática, quando um governo toma ativos de uma empresa estrangeira, há sempre incerteza sobre continuidade de salários, benefícios e até mesmo se as operações vão continuar.
Exatamente. O comunicado da Nestlé menciona "continuidade das operações", mas não temos informações sobre o que a L.E.V Management planeja fazer com essas unidades. Isso é um vazio importante.
A Nestlé tinha sido criticada por continuar operando na Rússia. Isso a deixou vulnerável?
Provavelmente. A empresa argumentava que fornecia alimentos essenciais e não lucrava, mas a crítica de Zelensky e de outros deixou claro que havia pressão internacional. Quando o governo russo decidiu agir, a Nestlé tinha menos apoio político para resistir.
Mas também é importante notar que o decreto de 2023 já havia estabelecido o precedente com Danone e Carlsberg. A Nestlé não foi surpreendida pela existência do mecanismo — apenas pela aplicação dele agora.
Isso é parte de algo maior?
Sim. O governo está nacionalizando não apenas empresas estrangeiras, mas também reabrindo privatizações dos anos 1990. É uma redistribuição de ativos em escala que não se via desde o colapso da União Soviética.
E isso acontece dias antes das eleições parlamentares, o que levanta a questão: é política econômica ou é teatro político? Provavelmente ambos, mas não temos como separar com certeza.
Der Puls
- O Kremlin assinou decreto colocando sob controle estatal os ativos russos da Nestlé e da Auchan, transferindo-os para uma empresa gestora estatal chamada L.E.V Management.
- Quase quarenta mil trabalhadores — sete mil da Nestlé e trinta mil da Auchan — tiveram suas rotinas de trabalho abaladas de um dia para o outro, sem que suas empresas tivessem cometido qualquer infração legal reconhecida internacionalmente.
- As ações da Nestlé caíram 2% na bolsa de Zurique após o anúncio, enquanto a empresa declarou estar avaliando recursos legais; a Auchan permaneceu em silêncio.
- A campanha vai além das fronteiras: a Procuradoria-Geral russa está reabrindo privatizações dos anos 1990 para retomar empresas nacionais, sinalizando uma reviravolta econômica de escala histórica.
- O movimento ocorre dias antes das eleições para a Duma Estatal, sugerindo que a nacionalização também cumpre uma função política interna de afirmação de soberania e mobilização do eleitorado.
Em meio à guerra na Ucrânia e às vésperas de eleições parlamentares, o Kremlin estende sua mão sobre o patrimônio de empresas ocidentais que um dia apostaram na integração econômica com a Rússia. O confisco dos ativos da Nestlé e da Auchan — que juntas empregavam quase quarenta mil pessoas em solo russo — não é um gesto isolado, mas parte de uma reordenação mais profunda: a Rússia reescreve os termos de sua economia, voltando a um modelo em que o Estado decide quem produz, quem permanece e quem pertence.
Na sexta-feira 18 de setembro, o Kremlin anunciou que os ativos russos da Nestlé e da rede varejista francesa Auchan passariam para controle estatal temporário. O porta-voz Dmitry Peskov justificou a medida chamando ambas as empresas de representantes de "países hostis" envolvidos em hostilidades contra a Rússia. Os bens foram entregues à administração da L.E.V Management, empresa estatal russa.
A Nestlé mantinha seis unidades operacionais na Rússia com mais de sete mil funcionários. Em 2021, as vendas russas representavam 2% do faturamento global do grupo — cerca de 2,4 bilhões de dólares. A empresa informou que avaliava suas opções legais e reafirmou o compromisso de proteger seus funcionários e a continuidade das operações. A Auchan, com 230 lojas e trinta mil empregados no país, não respondeu aos pedidos de comentário.
O confisco se insere numa estratégia iniciada após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022. Um decreto de Putin de 2023 já havia permitido ao governo assumir o controle de ativos de empresas de países "hostis", instrumento usado anteriormente contra a Danone e a Carlsberg. A Nestlé havia reduzido sua linha de produtos na Rússia desde o início da guerra, mas enfrentou críticas — inclusive do presidente ucraniano Zelensky — por não ter saído completamente do país.
O que distingue este momento é a amplitude da campanha: ela não poupa nem empresas russas. A Procuradoria-Geral está reabrindo acordos de privatização dos anos 1990, argumentando que violaram a soberania econômica nacional — uma reversão sem precedentes desde o fim da União Soviética, segundo a pesquisadora Alexandra Prokopenko, do Carnegie Russia Eurasia Center. O movimento acontece a poucos dias das eleições para a Duma Estatal, as primeiras desde a invasão, nas quais o partido de Putin deve conquistar maioria esmagadora.
Na sexta-feira 18 de setembro, o Kremlin anunciou um decreto presidencial que colocava sob controle estatal temporário os ativos russos da Nestlé e da rede varejista francesa Auchan. O porta-voz Dmitry Peskov justificou a medida caracterizando ambas as empresas como "empresas europeias de países hostis… atualmente envolvidas ativamente em hostilidades contra nós". Os bens foram transferidos para administração da L.E.V Management, uma empresa estatal russa.
A Nestlé, fabricante dos chocolates KitKat e do café Nescafé, mantinha seis unidades operacionais na Rússia que empregavam mais de sete mil pessoas. Em 2021, o último ano em que a companhia divulgou números específicos por país, as vendas russas representaram 2% do faturamento global do grupo — aproximadamente 2,4 bilhões de dólares em moeda americana, ou cerca de 2 bilhões de francos suíços. A empresa respondeu ao confisco informando que estava avaliando suas opções legais e reafirmando seu compromisso em "tomar todas as medidas necessárias para proteger seus direitos e garantir a continuidade das operações comerciais no interesse de todas as partes interessadas, especialmente de seus funcionários". No mercado, as ações da Nestlé caíram 2% em Zurique após o anúncio.
A Auchan, que opera 230 lojas físicas e presença digital na Rússia, empregava trinta mil pessoas. A rede comercializa alimentos, roupas, artigos para o lar e eletrônicos. Diferentemente da Nestlé, a Auchan não respondeu aos pedidos de comentário da CNN sobre o confisco.
Esta ação faz parte de uma estratégia mais ampla do governo russo que se intensificou desde a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022. Um decreto assinado pelo presidente Vladimir Putin em 2023 concedeu ao governo autoridade para colocar sob controle temporário os ativos de empresas originárias de países classificados como "hostis". Usando esse instrumento legal, o Kremlin já havia assumido o controle das operações russas da Danone, fabricante francesa de iogurtes, e da Carlsberg, cervejaria dinamarquesa. Mais de mil empresas deixaram a Rússia voluntariamente nos meses que se seguiram à invasão em larga escala.
A Nestlé havia reduzido significativamente sua linha de produtos na Rússia após o início da guerra, embora tenha enfrentado críticas públicas, inclusive do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, por manter operações no país. A empresa defendeu a decisão argumentando que fornecia "alimentos essenciais" à população e que suas operações russas não geravam lucro, tendo sido "significativamente reduzidas".
O que torna este momento particularmente relevante é que a campanha de nacionalização não se limita a empresas estrangeiras. O governo russo está expandindo seu controle sobre empresas privadas nacionais em escala sem precedentes desde o colapso da União Soviética. A Procuradoria-Geral da Rússia tem promovido agressivamente uma série de nacionalizações, reabrindo acordos de privatização da década de 1990 sob o argumento de que violavam a soberania econômica do país, conforme escreveu Alexandra Prokopenko, pesquisadora sênior do Carnegie Russia Eurasia Center em Berlim, em artigo de opinião publicado no New York Times na sexta-feira.
Este movimento ocorre dias antes das eleições para a Duma Estatal, as primeiras eleições parlamentares em todo o país desde a invasão da Ucrânia. O Partido Rússia Unida, de Putin, é esperado obter uma maioria esmagadora no pleito.
Bemerkenswerte Zitate
Empresas europeias de países hostis… atualmente envolvidas ativamente em hostilidades contra nós— Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin
A Procuradoria-Geral tem promovido agressivamente nacionalizações, reabrindo acordos de privatização da década de 1990 sob argumento de violação da soberania econômica— Alexandra Prokopenko, pesquisadora sênior do Carnegie Russia Eurasia Center