Rui San-Bento: uma vida dedicada à Medicina Interna e Oncologia nos Açores

Procurava sentir que ninguém se empenhava mais pelos doentes do que eu
San-Bento reflete sobre a motivação que o guiou durante toda a sua carreira médica nos Açores.
Mark

Como é que uma moeda ao ar muda uma vida inteira?

Mimi

Naquela altura, aos 18 anos, a Matemática era o meu caminho natural. Mas havia algo que não sabia nomear ainda. A morte do meu pai, quando tinha 15 anos, deixou um vazio que só depois compreendi — ele sonhava ter um filho médico. A moeda foi apenas o gesto que permitiu que esse sonho entrasse em mim.

Mark

E Coimbra? Parece que quase desistiu.

Mimi

A Anatomia foi um muro. Passei um ano inteiro a pensar que tinha cometido um erro. Mas o 25 de Abril chegou, e de repente tudo mudou. A Fisiologia Humana abriu uma porta que nunca mais fechei. Às vezes a vida precisa de um acontecimento histórico para nos salvar de nós mesmos.

Mark

O que o mantinha acordado à noite durante o estágio de Oncologia?

Mimi

Ver doentes a morrer de cancro e saber que tínhamos tão pouco para lhes oferecer. Havia um abismo entre o que os livros prometiam e a realidade. Isso não era aceitável. Precisava de aprender mais, de ser melhor.

Mark

Criou um setor inteiro do zero em Ponta Delgada.

Mimi

Não foi mérito meu sozinho. Compreendi cedo que a Oncologia não é trabalho de um homem. Precisava de psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas. O doente é uma pessoa inteira, não apenas um tumor. Essa foi sempre a minha convicção.

Mark

Como conciliava o hospital com a família?

Mimi

Não é fácil. Sair do hospital e ser pai e marido exige uma companheira que compreenda. Tive essa sorte. Os meus filhos e netos sabem que o meu trabalho era importante, mas também sabem que eles eram a razão pela qual eu voltava para casa.

Mark

Agora que se aposentou, o que sente?

Mimi

Ainda estou a recuperar o tempo perdido. Mas voltei ao mar com amigos de infância, e isso me faz sentir em casa. A vida profissional foi intensa, mas não foi tudo. Há outras coisas que esperam por nós quando finalmente paramos.

  • A morte inesperada do pai aos 15 anos transformou uma escolha feita ao acaso numa missão de vida que San-Bento só compreenderia anos mais tarde.
  • O confronto com doentes oncológicos sem recursos adequados tirou-lhe o sono e forçou-o a buscar formação especializada quando quase ninguém o fazia nos Açores.
  • Criar do zero um setor de Oncologia num hospital insular exigiu construir equipas multidisciplinares e convencer instituições de que Psicologia, Nutrição e Serviço Social não eram luxos, mas necessidades.
  • A tensão entre a exigência clínica e a vida familiar foi constante, sustentada pelo apoio da companheira e resolvida, hoje, no reencontro com os seis netos e as águas da sua infância.
  • Aposentado, San-Bento não sente o peso do que ficou por fazer, mas a leveza de quem se entregou totalmente — e reconhece nos limites da profissão apenas a condição natural de qualquer vida dedicada.

Ao longo de quase quatro décadas, Rui San-Bento transformou uma escolha quase acidental pela Medicina numa vida inteiramente entregue ao cuidado dos mais vulneráveis — os doentes oncológicos dos Açores. Nascido em 1956 numa ilha ainda marcada pela fragilidade sanitária, construiu em Ponta Delgada o primeiro setor especializado em Oncologia Médica, em 1989, deixando como legado não apenas uma estrutura clínica, mas uma filosofia de cuidado integral. Agora aposentado, San-Bento regressa ao mar e à família, carregando a serenidade de quem se empenhou por inteiro e encontrou nisso a sua maior satisfação.

Rui San-Bento nasceu em 1956 numa casa da Rua Nova, entregue aos cuidados de uma parteira. Décadas depois, já médico, voltaria a encontrá-la como sua doente, aos 90 anos — uma das imagens que melhor resume a circularidade da sua trajetória. Cresceu nos Açores de uma época em transição, filho de um comerciante e de uma professora primária, entre partos domiciliares e taxas de mortalidade infantil ainda altas.

O desporto foi uma paixão paralela à escola: futebol, basquetebol, vela, natação. No liceu, um professor de Educação Física insistia em que os alunos experimentassem várias modalidades antes de escolher — lição que San-Bento levaria para a medicina. A escolha do curso foi quase acidental, decidida ao lançar uma moeda. Mas a morte inesperada do pai, que sempre sonhara ter um filho médico, tornou essa decisão irreversível.

Em Coimbra, o início foi duro. A Anatomia parecia intransponível e ele já ensaiava a conversa para mudar de curso. O 25 de Abril chegou a tempo, e com ele uma passagem administrativa que lhe abriu caminho. No segundo ano, a Fisiologia Humana revelou-lhe a vocação verdadeira. Concluiu a licenciatura em 1979 e especializou-se em Medicina Interna — mas foi o contacto com doentes oncológicos abandonados à sua sorte que o inquietou profundamente e o levou ao Instituto Português de Oncologia de Coimbra.

A 1 de janeiro de 1989, formalizou o setor de Oncologia Médica no Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada — um marco que recorda com precisão. Nunca abandonou a Medicina Interna de todo, defendendo sempre que o oncologista precisa de uma visão global do doente. Ao longo dos anos, construiu uma equipa multidisciplinar que integrou Psicologia, Serviço Social, Nutrição e Radioncologia, numa época em que isso ainda não era óbvio.

A vida pessoal exigiu equilíbrios difíceis, sustentados pelo apoio da companheira de metade da vida. De dois casamentos, tem três filhos e seis netos. Recentemente, estiveram os catorze reunidos — uma das maiores recompensas, diz. Aposentado, voltou ao mar com amigos de infância. Olhando para trás, resume a carreira com tranquilidade: procurava sempre sentir que nenhum médico se empenharia mais pelos seus doentes do que ele. Isso, diz, dava-lhe satisfação total.

Rui San-Bento nasceu há 69 anos numa casa da Rua Nova, entregue aos cuidados de uma parteira chamada Luísa Teixeira. Décadas depois, quando já era médico, voltaria a encontrar essa mesma mulher — agora como sua doente, aos 90 anos. A vida tinha dado uma volta completa. Nessa época de seu nascimento, os partos domiciliares eram norma nos Açores, envolvidos numa mistura de intimidade familiar e fragilidade sanitária. As taxas de mortalidade infantil eram altas. O ambiente oferecia acolhimento, mas as condições de saúde eram precárias. San-Bento cresceu nesse mundo em transição, filho de um comerciante e de uma professora do ensino primário.

Aos cinco anos, começou a acompanhar a mãe à escola na Calheta. Entrou no ensino primário aos seis e tornou-se aluno dela — uma experiência que descreveria depois como fundamental para toda a sua vida. A escola não foi um caminho simples. Os exames da quarta classe e a admissão ao liceu foram etapas que marcaram sua geração com pressão e incerteza. Mas enquanto os livros ocupavam grande parte de seu tempo, o desporto revelou-se uma paixão paralela e estruturante. Experimentou futebol, basquetebol, voleibol, andebol, atletismo, natação e vela. No liceu, teve a sorte de ter como professor de Educação Física o professor Augusto Moura, que insistia em que os alunos experimentassem várias modalidades antes de escolher uma. Foi no basquetebol que San-Bento encontrou maior dedicação, representando o Clube União Micaelense — embora sua carreira desportiva tenha incluído um episódio memorável: num jogo de juniores contra o Águia dos Arrifes, foi atingido pela bola na cabeça ao primeiro salto e precisou ser substituído aos 30 segundos. No Clube Naval de Ponta Delgada, praticou natação e vela em barcos pesados de madeira. Essas experiências aquáticas cessaram quando partiu para Coimbra.

A escolha da Medicina foi quase acidental. San-Bento conta que sua grande opção era a Matemática, mas à última hora atirou uma moeda ao ar e decidiu-se pela Medicina. O falecimento inesperado do pai, quando tinha 15 anos — um homem que sempre sonhara ter um filho médico — tornou essa escolha determinante. Em Coimbra, o início foi difícil. Após um ano, a Anatomia parecia intransponível e ele já preparava a conversa para dizer à mãe que mudaria de curso. Mas então chegou o 25 de Abril, e recebeu passagem administrativa em Anatomia. No segundo ano, tudo mudou com a Fisiologia Humana. A partir daí, nunca mais se viu a fazer outra coisa. A distância de São Miguel pesava — as saudades eram imensas, e contactava os amigos por carta porque as ligações telefónicas eram caras e difíceis. Manteve o foco nos estudos e concluiu a licenciatura em 1979.

A especialização em Medicina Interna veio naturalmente. Era sua grande paixão e sua grande vontade. Mas foi durante o terceiro ano de estágio que algo mudou. Contactou com muitos doentes oncológicos e confrontou-se com o abismo entre o que a literatura dizia e o que ele e seus colegas eram capazes de oferecer. Isso começou a lhe tirar o sono. Essa inquietação o levou ao Instituto Português de Oncologia de Coimbra, onde iniciou um estágio que formaria a base de tudo o que viria depois. Começou a trabalhar no hospital de Ponta Delgada a 1 de abril de 1988 e iniciou a atividade de Oncologia em maio do mesmo ano. Mas foi a 1 de janeiro de 1989 que o setor de Oncologia Médica foi formalizado no Serviço de Medicina Interna — um marco que San-Bento assinala com precisão.

Apesar de nunca se ter desligado completamente da Medicina Interna, a Oncologia ocuparia grande parte de sua vida profissional. Ele nunca foi o internista que gostaria de ter sido, dedicado exclusivamente à especialidade. Mas sempre defendeu que a Oncologia devia ser feita por especialistas de Medicina Interna, porque têm uma visão mais global do doente. Ao longo dos anos, construiu uma equipa multidisciplinar que fez diferença real no acompanhamento dos doentes oncológicos. Na Unidade de Oncologia Médica, não havia acomodados. Procuravam sempre evoluir, trazendo para o trabalho profissionais de áreas essenciais — Psicologia, Serviço Social, Nutrição, Radioncologia. Essa visão de trabalho em rede e apoio integral ao doente foi uma de suas maiores marcas.

A vida pessoal não ficou imune às exigências da profissão. Não é fácil sair do hospital e ir para casa ser pai e marido. San-Bento teve a felicidade de contar com o apoio de sua companheira de metade da vida. De dois casamentos, teve três filhos e, hoje, seis netos. Recentemente, estiveram os catorze reunidos — uma das maiores recompensas da vida, como ele diz. Agora, já fora da prática clínica diária, reparte o tempo entre a família e o reencontro com antigos interesses. Ainda não conseguiu recuperar tudo o que deixou por fazer, mas recentemente voltou ao mar com amigos de infância. É um regresso que o faz sentir em casa. Olhando para trás, resume o caminho com a tranquilidade de quem se entregou por inteiro: procurava sempre sentir que não havia médico que mais se empenhasse pelos seus doentes do que ele. Isso lhe dava satisfação total. O que podia parecer um insucesso nunca foi, porque quando nos empenhamos totalmente, é apenas uma limitação natural da vida profissional.

A Medicina Interna era a minha grande paixão e a minha grande vontade
— Rui San-Bento
Procurava sentir sempre que não havia médico que mais se empenhasse pelos seus doentes do que eu. Isso dava-me uma satisfação total.
— Rui San-Bento
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