Rui Costa, presidente do Sport Lisboa e Benfica e avalista de um projeto imobiliário de luxo em Oeiras, vê o seu nome inscrito na Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal por incumprimento de dívidas superiores a 15 milhões de euros junto ao Banco Montepio. O caso ilumina a fragilidade que pode existir entre o prestígio público e as obrigações privadas, quando um empresário assume responsabilidades pessoais por empreendimentos que a pandemia e o tempo foram corroendo. A regularização é possível, mas o registo permanece — um lembrete de que as instituições guardam memória ma
Rui Costa inscrito na 'lista negra' do Banco de Portugal por incumprimento de créditos
Apenas 668 euros em caixa, 36 milhões em ativos, risco máximo
Como é que um presidente de um clube de futebol de topo acaba registado como devedor em incumprimento?
Porque deu o seu aval pessoal a créditos de uma empresa imobiliária sua. Quando a empresa não paga, o banco pode exigir ao avalista que pague em seu lugar. É uma garantia pessoal.
Mas a empresa diz que a relação com o banco "decorre dentro da normalidade". Como é que isso é compatível com incumprimento?
Não é. O incumprimento é um facto registado no Banco de Portugal. A empresa está a tentar minimizar a situação, mas não a desmente. Provavelmente está a negociar, mas enquanto não pagar, continua em incumprimento.
E se ele pagar agora? Desaparece do registo?
Não imediatamente. Fica registado até o banco reportar a regularização ao regulador. Pode levar semanas ou meses. Entretanto, não consegue novos créditos.
A empresa tem 36 milhões em ativos mas apenas 668 euros em caixa. Como é que isso acontece?
Os ativos são principalmente o terreno e os edifícios em construção. Mas construir é caro e o projeto teve atrasos desde a pandemia. O dinheiro foi-se embora em custos de obra, e agora não há liquidez para pagar as prestações.
Quantas pessoas estão afetadas por isto?
Pelo menos 90 famílias compraram apartamentos naquele empreendimento. Algumas já vivem lá, outras ainda esperam pela conclusão. Há também os construtores, fornecedores, e agora há quatro ações judiciais em curso.
O que é que isto diz sobre a gestão empresarial de Costa?
Que assumiu riscos muito grandes com um projeto imobiliário complexo, deu garantias pessoais que não conseguiu honrar, e agora está preso entre a negociação com o banco e o registo público de incumprimento.
The Pulse
- O nome de Rui Costa aparece na lista negra do regulador bancário português com perfil de risco máximo, expondo publicamente uma situação financeira que até agora permanecia fora do escrutínio.
- A dívida ao Banco Montepio, originalmente superior a 20 milhões de euros e hoje fixada em cerca de 14 milhões após amortizações parciais, pesa sobre Costa na qualidade de avalista pessoal do projeto Dream Living.
- A empresa promotora 10 Invest nega execuções hipotecárias e afirma normalidade na relação com o banco, mas recusa confirmar qualquer acordo de renegociação, deixando a situação suspensa numa ambiguidade calculada.
- O empreendimento acumula sinais de fragilidade: faturação nula em 2024, apenas 668 euros em caixa no final do ano e quatro ações judiciais que somam 2,9 milhões de euros em litígios.
- Mesmo que a dívida seja regularizada, a inscrição em incumprimento só desaparece após o banco reportar os novos dados ao regulador — um processo moroso que, entretanto, bloqueia o acesso a novos créditos.
Rui Costa, presidente do Sport Lisboa e Benfica e avalista de um projeto imobiliário de luxo em Oeiras, vê o seu nome inscrito na Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal por incumprimento de dívidas superiores a 15 milhões de euros junto ao Banco Montepio. O caso ilumina a fragilidade que pode existir entre o prestígio público e as obrigações privadas, quando um empresário assume responsabilidades pessoais por empreendimentos que a pandemia e o tempo foram corroendo. A regularização é possível, mas o registo permanece — um lembrete de que as instituições guardam memória mais longa do que os acordos informais.
Rui Costa, presidente do Benfica, surge registado na Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal como devedor em incumprimento, com perfil de risco máximo. A origem do problema está num financiamento superior a 20 milhões de euros contraído junto ao Banco Montepio para o projeto imobiliário Dream Living, em Carnaxide, Oeiras — um complexo residencial de luxo com 90 apartamentos, piscinas e jardins, anunciado com pompa no Salão Imobiliário de Lisboa em 2018. Costa é acionista minoritário da promotora 10 Invest com 10% do capital, mas assumiu o papel decisivo de avalista pessoal, tornando-se responsável pela dívida integral caso a empresa não cumprisse.
O incumprimento materializou-se em maio deste ano. Embora tenham sido amortizados cerca de sete milhões de euros, o capital em dívida ronda ainda os 14 milhões. Quando confrontada pelo Observador, a 10 Invest não desmentiu a situação, mas garantiu que não houve execução de hipotecas e que a relação com o Montepio decorre com normalidade. Não revelou, porém, qualquer acordo de renegociação. Segundo apuramento, Costa estará a tentar chegar a entendimento com o banco.
O Dream Living nunca foi imune a turbulências: a pandemia perturbou o calendário de obra e hoje um dos dois lotes está praticamente habitado enquanto o outro permanece inacabado. A 10 Invest encerrou 2024 com faturação nula, resultado negativo e apenas 668 euros em caixa — um contraste brutal com os quase 925 mil euros que tinha em depósitos dois anos antes. A empresa enfrenta ainda quatro ações judiciais, incluindo uma movida por Luís Mendes, antigo vice-presidente do Benfica, que reclamava cerca de 500 mil euros emprestados à empresa; esse processo foi resolvido com Costa a liquidar a dívida pessoalmente.
Mesmo que um acordo com o Montepio seja alcançado, a inscrição em incumprimento não desaparece de imediato: o Banco de Portugal só atualiza o registo depois de o banco processar e reportar os novos dados, o que pode demorar. Enquanto isso, o acesso a novos créditos fica vedado — embora Costa possa solicitar ao Montepio uma declaração de regularização para contornar esse bloqueio sem aguardar pela atualização automática.
Rui Costa, presidente do Benfica e empresário imobiliário, aparece agora registado na Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal — a base de dados que o regulador mantém sobre empréstimos problemáticos. O seu nome consta como devedor em situação de incumprimento, sinalizado com perfil de risco máximo por crédito vencido.
No centro da questão está uma dívida que ultrapassa os 15 milhões de euros junto ao Banco Montepio, acrescida de juros de mora e encargos. O montante inicial dos créditos contratualizados superava os 20 milhões. Estes empréstimos financiaram a aquisição de terrenos, a construção e a tesouraria de um empreendimento imobiliário chamado Dream Living, localizado em Carnaxide, Oeiras. A empresa promotora é a 10 Invest — Investimentos Imobiliários, Lda., da qual Costa é acionista com 10% de participação e, crucialmente, avalista pessoal. Como avalista, responsabilizou-se pela devolução integral do capital e juros caso a empresa não cumprisse.
O incumprimento começou em maio deste ano. Embora a empresa tenha amortizado cerca de sete milhões de euros, o capital em dívida fixa-se atualmente em torno de 14 milhões. Quando contactada pelo Observador, a 10 Invest não desmentiu a situação de incumprimento, mas garantiu que "não houve lugar a qualquer execução de hipoteca" e que a relação com o Montepio "tem decorrido dentro da normalidade". A empresa sublinhou ainda que as garantias prestadas ao banco "ultrapassam largamente o valor do crédito em causa". Contudo, não revelou qualquer acordo de renegociação com a instituição financeira. Segundo apuramento, Costa está a tentar renegociar a dívida e o seu pagamento com o Montepio.
O Dream Living é um complexo residencial de luxo anunciado durante o Salão Imobiliário de Lisboa em 2018. Composto por dois conjuntos de seis edifícios, totaliza 90 apartamentos de T1 a T5, com jardins, duas piscinas exteriores e espaços de lazer. O projeto foi apresentado como parceria entre a 10 Invest, detentora do terreno e promotora, e o JPS Group, responsável pela construção e comercialização. Porém, o empreendimento enfrentou problemas financeiros desde a pandemia de Covid-19. Em visita ao local, o Observador constatou que um dos dois lotes se encontra praticamente concluído e habitado, enquanto o outro ainda não está terminado, com varandas por concluir e material de obra disperso.
Os problemas da 10 Invest estendem-se para além da dívida bancária. A empresa fechou 2024 com faturação nula e resultado negativo de 21.398 euros. Mais preocupante: terminou o ano com apenas 668 euros em caixa e depósitos bancários, quando em 2022 tinha 924.958 euros. Apesar de possuir ativos de 36,7 milhões de euros, a empresa foi classificada com risco máximo de incumprimento. Enfrenta ainda quatro ações judiciais — três processos comuns e uma execução ordinária — que somam 2,9 milhões de euros em valores disputados. Uma delas envolve Luís Mendes, antigo vice-presidente do Benfica, que exigiu recuperar cerca de 500 mil euros que havia emprestado à empresa por falta de liquidez. Esse processo foi resolvido com Costa a pagar a dívida. Os restantes três processos relacionam-se com atrasos na construção do Dream Living.
Mesmo que Costa chegue a acordo com o Montepio e regularize a dívida, a sua inscrição em incumprimento não desaparece automaticamente. O Banco de Portugal só atualiza o registo após o Montepio processar e reportar os novos dados ao regulador — um processo que demora tempo. Enquanto isso, o registo de incumprimento impede a concessão de novos créditos. Contudo, Costa pode contornar este bloqueio solicitando ao Montepio uma declaração que ateste a regularização da sua situação, sem necessidade de aguardar pela atualização automática do regulador.
Notable Quotes
Não houve lugar a qualquer execução de hipoteca no âmbito da sua relação com o Banco Montepio— Fonte oficial da 10 Invest
A relação com esta instituição bancária tem decorrido dentro da normalidade, no quadro da gestão corrente de um projeto imobiliário desta dimensão— Fonte oficial da 10 Invest