Há exatamente trinta anos, São Paulo inventou uma forma de respirar no meio do caos: proibir parte dos carros de circular nos horários de maior sufoco. A medida salvou a cidade de um colapso imediato, mas o tempo e o crescimento incessante da frota transformaram o remédio em paliativo. Hoje, com 10 milhões de veículos nas ruas e congestionamentos que batem recordes históricos, a pergunta que paira sobre a metrópole não é se o rodízio ainda funciona — é se a cidade conseguirá inventar algo novo antes que o velho deixe de segurar.
Rodízio de São Paulo completa 30 anos como escudo contra colapso do trânsito
Sem um substituto, a cidade colapsa
Por que o rodízio ainda funciona se tantos paulistanos conseguem contorná-lo?
Porque mesmo com as brechas — segundo carro, horários alterados, elétricos isentos — ainda há uma massa crítica de motoristas que respeita a restrição. Mas é como tentar segurar água com as mãos abertas. A cada ano, mais gente encontra uma forma de escapar.
E se simplesmente acabassem com o rodízio?
Segundo os especialistas, a cidade entraria em colapso. Não há substituto pronto. O rodízio, por mais arcaico que seja, ainda tira 20% dos carros das ruas nos horários críticos. Sem isso, seria caos total.
Por que não adotam logo o modelo de Nova York, com pedágio urbano?
Porque é politicamente difícil. O rodízio é invisível — você só sente se for pego dirigindo no dia errado. Um pedágio urbano é uma cobrança explícita toda vez que você entra no centro. As pessoas entendem e reagem.
Então estamos presos a uma solução de 1996?
Basicamente, sim. É uma política que funcionou bem no seu tempo, mas a cidade cresceu demais. Agora é como tentar controlar um rio com um balde.
E a isenção dos elétricos não piora as coisas?
Piora, segundo os consultores. Começam a aparecer mais carros nas ruas justamente porque são isentos. A intenção era incentivar tecnologia limpa, mas o efeito colateral é aumentar o congestionamento.
Qual é o próximo passo?
Ninguém sabe ao certo. Os especialistas defendem mudanças estruturais — pedágio, restrição de acesso ao centro, aumento das horas de rodízio. Mas a prefeitura diz que não vê necessidade de alterar as regras. É um impasse.
The Pulse
- A frota de São Paulo dobrou em três décadas, tornando insuficiente uma política que foi desenhada para uma cidade com metade dos carros atuais.
- Em setembro de 2019, o índice de lentidão atingiu 1.902 quilômetros — um recorde que expõe os limites de uma medida que já não acompanha o crescimento urbano.
- Motoristas aprenderam a burlar o sistema comprando um segundo carro, mudando horários de trabalho ou migrando para elétricos isentos da restrição.
- As infrações dispararam 43% no último ano, sinalizando que a obediência histórica ao rodízio começa a se desfazer junto com sua credibilidade.
- Especialistas convergem em torno de alternativas como pedágio urbano e restrição de acesso ao centro, mas nenhuma política substituta está no horizonte imediato.
- Sem um sucessor à altura, o rodízio segue como o único dique entre a mobilidade precária e o colapso total do trânsito paulistano.
Há exatamente trinta anos, São Paulo inventou uma forma de respirar no meio do caos: proibir parte dos carros de circular nos horários de maior sufoco. A medida salvou a cidade de um colapso imediato, mas o tempo e o crescimento incessante da frota transformaram o remédio em paliativo. Hoje, com 10 milhões de veículos nas ruas e congestionamentos que batem recordes históricos, a pergunta que paira sobre a metrópole não é se o rodízio ainda funciona — é se a cidade conseguirá inventar algo novo antes que o velho deixe de segurar.
Dirigir em São Paulo em 1996 era enfrentar 80 quilômetros de lentidão na hora do pico — quase o triplo do registrado quatro anos antes. A cidade precisava de uma saída radical. Em 5 de agosto daquele ano, o governo de Mário Covas lançou a primeira restrição de circulação de veículos do país, inicialmente voltada para melhorar a qualidade do ar nos meses secos. Durou menos de um mês, mas abriu caminho para o que viria depois.
No ano seguinte, o prefeito Celso Pitta transformou a ideia em política permanente: o rodízio que São Paulo conhece até hoje, com restrição nos horários de pico conforme o último dígito da placa, retirando 20% dos veículos das ruas. Nos primeiros anos, funcionou. Mas a cidade não parou de crescer. A frota saltou de 4,7 milhões para 10 milhões de veículos, e o que antes aliviava o trânsito passou a ser apenas um freio insuficiente diante de uma avalanche.
Os recordes de congestionamento contam essa história com números brutais. Em 2019, o índice de lentidão chegou a 1.902 quilômetros. Em junho passado, com o rodízio suspenso durante um jogo da Copa, o engarrafamento beirou 1.700 quilômetros. A adesão formal à medida permanece alta — 90% pela manhã, 85% à tarde —, mas os paulistanos aprenderam a contornar o sistema: segundo carro com placa diferente, mudança de horário, ou migração para elétricos e híbridos, isentos da restrição.
Especialistas como Ciro Biderman, do FGV Cidades, reconhecem que o rodízio envelheceu, mas alertam que abandoná-lo sem substituto seria catastrófico. As alternativas debatidas — pedágio urbano nos moldes de Nova York, ampliação dos horários de restrição, bloqueio de acesso ao centro — ainda não saíram do campo das ideias. Enquanto isso, as infrações dispararam 43% no último ano, sinal de que a disciplina histórica dos motoristas começa a ceder. O rodízio completa 30 anos essencial e esgotado, sustentando uma cidade que ainda não encontrou coragem para o próximo passo.
Dirigir em São Paulo sempre foi um exercício de paciência, mas há três décadas a situação havia se tornado crítica. Em 1996, o trânsito na hora de pico da manhã se arrastava a uma média de 80 quilômetros de lentidão — quase o triplo dos 28 quilômetros registrados apenas quatro anos antes. A cidade precisava de algo radical.
Em 5 de agosto de 1996, o governo estadual do tucano Mário Covas lançou a primeira restrição de circulação de veículos do país, estendendo-a também a nove cidades da região metropolitana. Durou menos de um mês, mas marcou um ponto de inflexão. O objetivo inicial era melhorar a qualidade do ar nos meses mais secos, não resolver o trânsito. Os carros com placas específicas ficavam proibidos de circular entre 7h e 20h. No ano seguinte, o prefeito Celso Pitta transformou a ideia em política permanente, criando o rodízio que conhecemos hoje: restrição apenas nos horários de pico (7h às 10h e 17h às 20h), com 20% dos veículos fora das ruas conforme o último dígito da placa.
Nos primeiros anos, funcionou. O rodízio cumpriu seu papel de desafogar as ruas durante os períodos críticos. Um estudo de 2023 do Centro de Inovação em Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas documentou essa eficácia inicial. Mas a cidade não parou de crescer, e nem a frota de carros. Em 1996, São Paulo tinha 4,7 milhões de veículos. Em março passado, pela primeira vez, ultrapassou os 10 milhões. O rodízio, que tirava 20% dos carros das ruas, tornou-se insuficiente diante dessa explosão.
Os números de congestionamento refletem essa inadequação. Em 5 de setembro de 2019, o índice de lentidão atingiu 1.902 quilômetros — o recorde histórico. Em junho passado, durante um jogo do Brasil na Copa do Mundo, quando a gestão Ricardo Nunes suspendeu o rodízio para facilitar o retorno dos torcedores, o engarrafamento chegou perto de 1.700 quilômetros. A medida que deveria evitar o colapso mostrou seus limites.
Mesmo assim, a Companhia de Engenharia de Tráfego afirma que não identificou necessidade de alterações nas regras vigentes. A adesão permanece alta: 90% dos motoristas respeitam a restrição pela manhã e 85% à tarde, segundo levantamento de 2019. Mas essa obediência mascara um problema mais profundo. Os paulistanos aprenderam a contornar o sistema. Alguns compraram segundo carro com placa diferente. Outros mudaram seus horários de trabalho. E uma parcela crescente migrou para veículos elétricos e híbridos, que são isentos da restrição por serem menos poluentes — há cerca de 13.500 desses veículos registrados na cidade atualmente.
Ciro Biderman, diretor do FGV Cidades, reconhece que o rodízio é uma política envelhecida. "Existem várias medidas mais modernas, mas é inviável sair dele. Sem um substituto, a cidade colapsa", afirma. Ele e outros especialistas apontam alternativas: uma taxa de congestionamento (pedágio urbano), como adotado em Nova York; aumento das horas de restrição; ou bloqueio de acesso à região central para carros particulares. Sérgio Avelleda, consultor em mobilidade urbana e ex-secretário municipal de Mobilidade e Transporte, defende que o acesso ao centro seja restringido, forçando uma mudança de comportamento. "As pessoas entendem a lógica do rodízio e reagem quando são estimuladas", diz.
O descumprimento do rodízio, porém, está em alta. Depois de dois anos de queda, as autuações dispararam no ano passado: quase 2 milhões contra 1,4 milhão em 2024, uma alta de 43%. A multa é de R$ 130,16 e quatro pontos na carteira. A política que nasceu como solução de emergência há três décadas segue vital para evitar o colapso, mas sua eficácia está se esgotando. A questão agora é se a cidade conseguirá fazer a transição para algo mais robusto antes que o sistema inteiro desmorone.
Notable Quotes
Existem várias medidas mais modernas que o rodízio, mas é inviável sair dele. Sem um substituto, a cidade colapsa— Ciro Biderman, diretor do FGV Cidades
É preciso gerenciar a demanda do automóvel, ele é um bem que quanto mais é usado, menos eficiente fica— Sérgio Avelleda, consultor em mobilidade urbana