Robôs e perfis falsos: como manipulam o debate eleitoral nas redes sociais

Eles criam a ilusão de que sua opinião é compartilhada por muito mais gente
Como bots amplificam o viés de confirmação durante campanhas eleitorais, reforçando crenças já existentes.
Mark

Se os bots não conseguem converter eleitores, por que as campanhas gastam tanto dinheiro com eles?

Mimi

Porque eles não precisam converter. Eles precisam convencer quem já está convencido de que está certo. É mais barato reforçar uma crença do que criar uma nova.

Mark

Mas isso não é só amplificar o que já existe?

Mimi

Exatamente. E amplificar é tudo. Se você vê mil comentários apoiando um candidato, você pensa que ele tem mais apoio do que realmente tem. Você se sente menos sozinho na sua opinião. Isso importa.

Mark

Como alguém consegue diferenciar um comentário real de um bot?

Mimi

Na maioria das vezes, não consegue. Esse é o problema. Um bot bem feito parece uma pessoa. Tem foto, tem histórico, tem amigos. Você não sabe que é máquina.

Mark

E os perfis falsos? São diferentes?

Mimi

São piores em alguns aspectos. Um bot é automático, previsível. Um perfil falso pode ser operado por uma pessoa real, pode ter conversas, pode parecer genuíno. Pode ganhar sua confiança.

Mark

Então a solução é simplesmente desconfiar de tudo?

Mimi

Não. A solução é entender como funciona. Quando você sabe que existe amplificação artificial, você começa a questionar o que vê. Você percebe quando algo parece muito consensual demais, muito rápido demais.

Mark

Isso muda a forma como você vota?

Mimi

Muda a forma como você pensa sobre o que vota. E isso é o mais importante.

  • Centenas de comentários idênticos surgem em minutos sob postagens de candidatos — e muitos deles não pertencem a seres humanos reais.
  • A distinção entre bot e perfil falso importa: um é pura automação; o outro é uma identidade fabricada para enganar, e ambos estão cada vez mais sofisticados.
  • Pesquisadores da FGV alertam que a verdadeira ameaça não é a conversão de eleitores indecisos, mas o reforço do viés de confirmação entre quem já tem posição definida.
  • O efeito é o de uma praça tomada por vozes repetindo a mesma frase: cria-se a ilusão de consenso onde há apenas automação em escala.
  • Com as eleições de 2026 se aproximando, o G1 lança série de 50 vídeos investigando como IA, deepfakes e influenciadores digitais estão redesenhando as regras do jogo democrático.

Nas vésperas das eleições de 2026, uma pergunta silenciosa paira sobre cada comentário, cada curtida, cada onda de apoio nas redes sociais: quem, de fato, está falando? Bots e perfis falsos — ferramentas distintas com propósitos convergentes — não elegem candidatos de forma direta, mas moldam a percepção do que é popular, do que é relevante, do que merece atenção. Especialistas alertam que o perigo não está na conversão de eleitores, mas no aprofundamento de convicções já existentes, tornando as bolhas mais densas e o eco mais ensurdecedor.

Abrir as redes sociais durante uma campanha eleitoral pode ser uma experiência enganosa. Uma postagem de candidato acumula centenas, depois milhares de comentários em poucas horas — todos repetindo a mesma frase, atacando o mesmo adversário. A pergunta perturbadora que emerge é: essas pessoas realmente existem?

Na maioria das vezes, não. Bots são contas automatizadas programadas para publicar, curtir e comentar sem intervenção humana. Perfis falsos são outra categoria: identidades fabricadas que simulam pessoas reais. Ambos se tornaram ferramentas sofisticadas de interferência no debate eleitoral — mas seus efeitos são mais sutis do que a narrativa popular sugere.

Yasmin Curzi, professora da Fundação Getulio Vargas especializada em discurso de ódio, é direta: é impossível traçar uma linha reta entre a presença de bots e a eleição de um candidato. O que essas ferramentas fazem, na prática, é alimentar o viés de confirmação — amplificando o que eleitores já acreditam, criando a ilusão de que suas opiniões são compartilhadas por multidões. A bolha não cresce; ela apenas fica mais densa e mais convicta de si mesma.

O mecanismo lembra uma praça tomada por cem pessoas gritando a mesma frase: quem passa de fora pode concluir que aquele é o assunto do dia. Na internet, o efeito é idêntico, mas multiplicado por milhões. Não é necessário converter ninguém — basta fazer com que os já convertidos se sintam parte de uma maioria esmagadora.

Vale notar que nem todo bot serve à manipulação: há contas automatizadas que monitoram legislação e ações do poder público de forma legítima. Mas quando centenas de milhares delas são ativadas simultaneamente em período eleitoral, o ruído que produzem distorce a conversa de maneiras difíceis de desfazer. É nesse cenário que o G1 lança sua série sobre as eleições de 2026 — investigando como bots, inteligência artificial, deepfakes e influenciadores digitais estão redefinindo o que significa disputar — e vencer — uma eleição.

Você abre o Twitter e vê uma postagem de um candidato. Em minutos, há centenas de comentários. Em horas, milhares. Todos defendendo a mesma posição, atacando o mesmo adversário, repetindo a mesma frase. A pergunta que fica é simples e perturbadora: essas pessoas todas realmente existem?

A resposta, frequentemente, é não. O que você está vendo é o trabalho de bots e perfis falsos — duas ferramentas distintas que funcionam de maneiras diferentes, mas com objetivos semelhantes. Um bot é uma conta automatizada, programada por alguém para publicar, curtir, comentar e compartilhar conteúdos sem intervenção humana. Um perfil falso é outra coisa: uma conta criada deliberadamente para se passar por uma pessoa real, um rosto que não existe, uma história que foi inventada. Ambos têm se tornado cada vez mais sofisticados durante as campanhas eleitorais, e ambos interferem profundamente no modo como as conversas políticas acontecem nas redes sociais.

Mas aqui está o detalhe que complica a narrativa simples de "robôs elegem candidatos": eles provavelmente não fazem isso. Ou pelo menos, não da forma direta que muitos imaginam. Segundo Yasmin Curzi, professora da Fundação Getulio Vargas que pesquisa discurso de ódio, é impossível traçar uma linha reta entre a presença de bots em uma rede social e a eleição de um candidato. "Obviamente, o bot interfere no debate público", ela explica, "mas não necessariamente ele consegue converter de fato eleitores." O que os bots fazem, na verdade, é muito mais sutil e talvez mais perigoso: eles reforçam o que você já acredita.

Esse fenômeno chama-se viés de confirmação. Se você já tem uma posição política definida, se você já está em um determinado espectro do debate, os bots vão amplificar exatamente aquilo que você quer ouvir. Eles criam a ilusão de que sua opinião é compartilhada por muito mais gente do que realmente é. Imagine cem pessoas entrando em uma praça e gritando a mesma frase ao mesmo tempo. Quem passa por ali, ouvindo aquele barulho, pode pensar que aquele é o assunto mais importante do dia, que é o que todos estão falando. Na internet, o efeito é idêntico, mas amplificado. Milhares de mensagens repetindo a mesma ideia criam a impressão de que essa ideia é muito mais popular, muito mais relevante, muito mais apoiada do que realmente é.

O resultado é que mais pessoas começam a acreditar que determinado assunto ou candidato tem um apoio muito maior do que tem na realidade. Aqueles que já pensavam daquela forma têm suas opiniões reforçadas. A bolha fica mais fechada, o eco mais alto. É um mecanismo de amplificação que não precisa converter ninguém — ele só precisa fazer com que as pessoas que já estão ali dentro fiquem mais convencidas de que estão certas.

É importante notar que nem todo bot é usado para manipulação política. Existem bots que fazem trabalho útil: monitorar automaticamente projetos de lei, acompanhar ações do poder público, alertar sobre mudanças em legislação. Mas durante uma campanha eleitoral, quando centenas de milhares de contas automatizadas são ativadas simultaneamente, o efeito é inegável. Elas mudam o tom da conversa. Elas criam ruído. Elas fazem parecer que há consenso onde há apenas automação.

Este é um dos temas que a série de 50 vídeos do G1 sobre as eleições de 2026 vai explorar em profundidade. Não é apenas sobre bots e perfis falsos — é sobre como a inteligência artificial, os deepfakes, os influenciadores digitais e todas essas novas tecnologias estão mudando o jeito como as campanhas funcionam, como as pessoas votam, como a democracia se expressa nas redes. A questão não é mais apenas quem tem a melhor proposta ou quem consegue falar melhor em um debate. É também quem consegue mobilizar mais máquinas, quem consegue criar mais ruído, quem consegue fazer sua voz parecer mais alta do que realmente é.

O bot interfere no debate público, mas não necessariamente consegue converter de fato eleitores
— Yasmin Curzi, professora da FGV
O bot serve para viés de confirmação. Ele vai influenciar pessoas que já têm uma posição política definida
— Yasmin Curzi, professora da FGV
Quer a matéria completa? Leia o original em G1 ↗
Fale Conosco FAQ