A vida prospera mesmo ao lado de resíduos que deixámos para trás
No fundo do Atlântico Nordeste, a 4 700 metros de profundidade, repousam mais de 200 mil barris de resíduos radioativos submersos por países europeus entre 1950 e 1990, numa época em que tal prática era legal e considerada segura. Décadas depois, investigadores do CNRS desceram pessoalmente até esses abismos e descobriram que alguns barris se degradaram — mas também que a vida, contra todas as expectativas, floresceu ali. A ciência confronta agora não apenas o legado de decisões passadas, mas a complexidade de ecossistemas profundos que mal começámos a compreender.
- Mais de 200 mil barris de resíduos radioativos jazem no fundo do Atlântico há décadas, e só agora a tecnologia permite observá-los diretamente.
- Alguns barris estão degradados com derrame parcial do conteúdo, e os níveis de radionuclídeos superam o ruído de fundo natural da zona.
- A missão do navio Pourquoi Pas? em 2026 realizou 20 mergulhos tripulados até 4 700 metros, trazendo as primeiras imagens e amostras diretas do local.
- A surpresa maior foi biológica: peixes, corais, anémonas e crustáceos colonizam as imediações dos barris, revelando uma biodiversidade abissal muito mais rica do que se supunha.
- Nos próximos meses, amostras de água, sedimentos e organismos serão analisadas para perceber como os radionuclídeos circulam e interagem com estes ecossistemas ainda desconhecidos.
Entre 1950 e 1990, França, Reino Unido, Bélgica e Países Baixos submergiram mais de 200 mil barris de resíduos radioativos em zonas abissais do Atlântico Nordeste, a cerca de 4 700 metros de profundidade e a mais de mil quilómetros da costa. Os barris continham resíduos de baixa atividade provenientes de laboratórios, hospitais e instalações nucleares, revestidos com betume ou cimento. Na época, as planícies abissais pareciam suficientemente remotas e estáveis para que a prática fosse considerada segura. Desde 1993, está proibida — mas os barris permaneceram lá, durante décadas, num silêncio que a tecnologia não conseguia ainda quebrar.
Foi o projeto NODSSUM, liderado pelo CNRS em parceria com o Ifremer e outros laboratórios europeus, que começou a preencher essa lacuna. Após uma primeira campanha em 2025 com robôs de sonar, a missão de maio e junho de 2026 a bordo do Pourquoi Pas? levou investigadores a bordo do submarino tripulado Nautile até ao fundo do oceano. Em 20 mergulhos, viram o que estava lá: alguns barris em estado avançado de degradação, com derrame parcial sobre os sedimentos. As medições confirmaram a presença de radionuclídeos acima do ruído de fundo natural, embora a níveis que não impõem restrições significativas de proteção radiológica.
A revelação mais inesperada, porém, foi a vida. As profundezas abissais, imaginadas como um deserto biológico, mostraram-se surpreendentemente habitadas — peixes, anémonas, corais, esponjas e crustáceos colonizam as imediações dos barris. Essa riqueza biológica coloca agora perguntas mais complexas do que as que motivaram a expedição: como circulam os radionuclídeos neste ambiente? Como interagem com os organismos que ali prosperam? As amostras recolhidas serão analisadas nos próximos meses. As praias atlânticas francesas não correm risco — a distância e a profundidade garantem isso. O verdadeiro desafio é compreender o que acontece num mundo que mal conhecemos, onde a vida encontrou forma de existir mesmo ao lado do que deixámos para trás.
Há mais de trinta anos, quando a prática ainda era legal, vários países europeus fizeram uma escolha que pareceu sensata na época: levar os seus resíduos radioativos para o meio do oceano e deixá-los cair nas profundezas. Entre 1950 e 1990, França, Reino Unido, Bélgica e Países Baixos submergiram mais de 200 mil barris em zonas abissais do Atlântico Nordeste, a cerca de 4 700 metros de profundidade e a mais de mil quilómetros da costa francesa. Os barris continham principalmente resíduos de baixa ou muito baixa atividade — material de laboratórios, hospitais, instalações nucleares — revestidos com betume, cimento ou resina para retardar a degradação. Na altura, isto era considerado seguro. As planícies abissais pareciam geologicamente estáveis, remotas o suficiente para que ninguém se preocupasse.
A prática foi progressivamente questionada à medida que a compreensão dos impactos ambientais evoluiu. Desde 1993, a imersão de resíduos radioativos no mar está proibida. Mas durante décadas, os cientistas sabiam que os barris estavam lá — simplesmente não sabiam exatamente onde, nem em que estado se encontravam. Os meios tecnológicos não permitiam explorar facilmente profundidades superiores a 4 000 metros. Essa lacuna começou a ser preenchida recentemente.
O CNRS liderou o projeto NODSSUM, em parceria com o Ifremer, a Autoridade de Segurança Nuclear e Radioproteção e vários laboratórios franceses e europeus. Uma primeira campanha oceanográfica em 2025 utilizou um robô submarino autónomo equipado com sonar de alta resolução para cartografar vários milhares de barris. Mas foi a segunda missão, realizada entre maio e junho de 2026 a bordo do navio Pourquoi Pas?, que trouxe observações diretas sem precedentes. Os investigadores desceram a bordo do submarino tripulado Nautile e realizaram 20 mergulhos até aos 4 700 metros para ver pessoalmente o que estava lá.
O que encontraram foi preocupante em alguns aspetos, tranquilizador noutros. Alguns barris estão num estado avançado de degradação, com derrame parcial do conteúdo sobre os sedimentos circundantes. As medições confirmaram a presença de radionuclídeos característicos destes resíduos, a níveis superiores ao ruído de fundo natural da zona. Mas esses níveis mantêm-se suficientemente baixos para permitir que os investigadores manipulem as amostras sem restrições significativas de proteção radiológica.
A verdadeira surpresa veio de um lado inesperado. As profundezas abissais, que se imaginava serem um deserto biológico, revelaram-se surpreendentemente vivas. Peixes, anémonas, corais, esponjas e crustáceos colonizam as imediações dos barris. A biodiversidade é muito mais rica do que se pensava quando estes resíduos foram imersos há décadas. Agora os investigadores enfrentam uma pergunta mais complexa: será que a presença dos resíduos influencia estes ecossistemas? Como é que os radionuclídeos circulam neste ambiente profundo? Como interagem com a vida que prospera ali?
As amostras recolhidas — água, sedimentos, organismos marinhos — serão analisadas nos próximos meses. O objetivo é compreender melhor o destino da radioatividade no oceano profundo, um domínio ainda muito pouco estudado. É um trabalho que vai muito além das preocupações que a descoberta inicial pode ter suscitado. Não, não é perigoso tomar banho nas costas atlânticas francesas. Os barris estão a 4 700 metros de profundidade e a mais de mil quilómetros de distância. O verdadeiro desafio é compreender o que está a acontecer lá em baixo, num mundo que mal conhecemos, onde a vida encontrou forma de prosperar mesmo ao lado de resíduos que deixámos para trás.
Notable Quotes
Os níveis de radioatividade mantêm-se suficientemente baixos para permitir a manipulação das amostras sem restrições significativas em termos de proteção radiológica— Investigadores do CNRS
Nada indica que estes resíduos radioativos representem um risco para a prática da natação nas costas atlânticas francesas— CNRS e parceiros
The Hearth Conversation Another angle on the story
Porque é que isto importa agora, se os barris estão lá há trinta anos?
Porque durante todo este tempo ninguém sabia realmente o que estava a acontecer. Sabíamos que estavam lá, mas não conseguíamos vê-los nem medi-los. Agora temos a tecnologia para descer e observar.
E o que mudou? Os barris degradam-se mais depressa do que se esperava?
Alguns sim, estão num estado avançado de degradação. Mas o que realmente nos surpreendeu foi descobrir que há vida abundante ali perto. Peixes, corais, esponjas — ecossistemas inteiros que ninguém imaginava que pudessem prosperar a essa profundidade.
Então o risco é para essa vida, não para os humanos?
Exatamente. Os níveis de radioatividade são baixos o suficiente para que os investigadores trabalhem sem proteção especial. Mas não sabemos ainda como os radionuclídeos circulam naquele ambiente ou se afetam os organismos que vivem ali.
Porque é que levou tanto tempo para estudar isto?
Porque descer a 4 700 metros é extraordinariamente difícil e caro. Precisávamos de um submarino tripulado e de um navio oceanográfico. Só agora temos a vontade política e o financiamento para fazer isto.
E o que vão fazer com esta informação?
Primeiro, compreender. Depois, talvez, decidir se precisamos de fazer algo — recuperar os barris, deixá-los lá, monitorizar continuamente. Mas tudo depende do que as análises revelarem nos próximos meses.