Em Itapetinga, no sudoeste da Bahia, dois empreendedores que por décadas viram resíduos industriais desaparecerem em fornos decidiram que o problema não era o lixo em si, mas a ausência de destino útil para ele. Com um investimento de R$ 2,8 milhões, a VERT Soluções Ambientais transformou aquela mistura descartada de espumas, borrachas e plásticos em placas termoplásticas capazes de substituir madeira e MDF — devolvendo à economia o que antes era simplesmente apagado pelo fogo. O gesto é pequeno na escala global, mas revela uma lógica antiga: o valor não some, ele espera por quem saiba reconhe
Resíduos industriais rejeitados ganham valor em placas reutilizáveis na Bahia
O lixo desaparecia em fornos, mas nenhum valor permanecia
Por que esses resíduos eram tão difíceis de reciclar antes?
Porque chegavam misturados — EVA, nylon, borracha, plásticos multicamadas. Separar isso manualmente é caro demais, e as máquinas tradicionais não conseguem lidar com essa variedade. As recicladoras simplesmente recusavam.
E a solução foi transformar tudo junto, em vez de separar?
Exatamente. Em vez de tentar desembaraçar a mistura, eles moldaram tudo junto com calor. Virou uma placa termoplástica que pode ser cortada e usada em móveis, construção, qualquer coisa que hoje usa madeira ou MDF.
Cada placa leva 20 quilos de lixo. Isso é muito?
Para contexto: uma árvore média produz talvez 100 quilos de madeira útil. Uma placa de 20 quilos de resíduo substitui madeira. Então sim, é significativo. E eles processam 350 toneladas por ano.
Como é que dois empreendedores de uma cidade pequena conseguem R$ 2,8 milhões para isso?
Eles tinham 20 anos de experiência no setor, sabiam exatamente qual era o problema. Prêmios ajudaram — ficaram em segundo lugar na FIEB, ganharam competição de startups. Isso abre portas com investidores.
E agora? Qual é o próximo passo?
Automatizar a produção, ampliar a fábrica, fechar parcerias com grandes indústrias que geram esses resíduos. A tecnologia funciona, mas ainda é pequena. O desafio é escalar.
The Pulse
- Durante anos, toneladas de resíduos misturados — EVA, nylon, poliuretano, plásticos multicamadas — eram queimadas em Itapetinga porque nenhuma recicladora tradicional aceitava separar aquela combinação.
- A ausência de solução criava um ciclo vicioso: o pátio das fábricas ficava limpo, mas o material desaparecia sem gerar valor, emprego ou alternativa ambiental.
- Wellington e Wesley responderam com tecnologia própria: placas termoplásticas moldadas com calor, cada uma absorvendo até 20 quilos de resíduos que antes não tinham comprador.
- A VERT já desenvolveu 18 produtos diferentes, firmou parceria com o Grupo Dass e estima evitar 805 toneladas de gases de efeito estufa por ano — números declarados no projeto, ainda sem auditoria independente.
- O próximo horizonte é automatizar a produção, ampliar a capacidade fabril e atrair indústrias que ainda não encontraram destino para seus resíduos mais difíceis de reciclar.
Em Itapetinga, no sudoeste da Bahia, dois empreendedores que por décadas viram resíduos industriais desaparecerem em fornos decidiram que o problema não era o lixo em si, mas a ausência de destino útil para ele. Com um investimento de R$ 2,8 milhões, a VERT Soluções Ambientais transformou aquela mistura descartada de espumas, borrachas e plásticos em placas termoplásticas capazes de substituir madeira e MDF — devolvendo à economia o que antes era simplesmente apagado pelo fogo. O gesto é pequeno na escala global, mas revela uma lógica antiga: o valor não some, ele espera por quem saiba reconhecê-lo.
Durante vinte anos, Wellington Soares Freitas e Wesley Kelly Félix Carvalho assistiram ao mesmo ciclo se repetir nas fábricas de Itapetinga: espuma de calçados, borracha e plástico saíam misturados, ninguém queria comprar, e o destino era o forno. A combinação de EVA, nylon, poliuretano e plásticos multicamadas tornava a separação inviável para as recicladoras convencionais. O material sumia sem deixar valor.
Os dois já haviam fundado a Recicla em 2001 e aprendido uma lição essencial: recolher resíduos não basta se não houver para onde mandá-los. Era preciso criar um produto com utilidade real e possibilidade de venda. Em 2024, pela VERT Soluções Ambientais, eles chegaram a uma resposta: placas termoplásticas moldadas com calor, cada uma incorporando cerca de 20 quilos de material descartado. O investimento foi de R$ 2,8 milhões e a capacidade projetada chega a 350 toneladas por ano.
As aplicações são amplas — divisórias, pallets, móveis, revestimentos, estruturas rurais e mobiliário urbano — com a proposta de substituir madeira, MDF e compensado naval. Em 2025, a empresa já havia desenvolvido 18 produtos diferentes e firmado parceria com o Grupo Dass para transformar resíduos de calçados em placas para construção e agronegócio. A VERT estima 12 empregos diretos, cerca de 500 pessoas beneficiadas e a prevenção de aproximadamente 805 toneladas de gases de efeito estufa por ano — dados declarados no projeto apresentado à FIEB, sem auditoria ambiental independente confirmada.
O projeto Compensado Inteligente ficou em segundo lugar no Prêmio FIEB de 2025, e a startup venceu uma competição no BTX, evento de tecnologia em Salvador. Em março de 2025, a empresa depositou pedido de patente — proteção solicitada, ainda não concedida. O caminho seguinte passa por automatizar a produção, ampliar a fábrica e atrair novos parceiros industriais. O que Itapetinga mostra é que o problema do descarte não termina quando o caminhão leva o lixo embora — ele termina quando alguém encontra o que fazer com ele.
Durante duas décadas, Wellington Soares Freitas e Wesley Kelly Félix Carvalho observaram toneladas de espuma de calçados, borracha e plástico saírem das fábricas de Itapetinga, no sudoeste baiano, apenas para serem queimadas. Ninguém queria comprar aquilo. Os materiais chegavam misturados — EVA, nylon, poliuretano, tecidos sintéticos, plásticos multicamadas — e essa combinação tornava a separação tão complicada que as recicladoras tradicionais simplesmente recusavam o trabalho. O lixo desaparecia em fornos industriais ou era usado como combustível. O pátio ficava limpo, mas nenhum valor permanecia.
Os dois empreendedores já conheciam bem o problema. Haviam fundado a Recicla em 2001, uma empresa de reciclagem que lhes mostrou uma lição fundamental: recolher resíduos não era suficiente. Era preciso criar algo que tivesse utilidade real, resistência e possibilidade de venda. Caso contrário, o material voltaria a se acumular, e o ciclo recomeçaria.
Em 2024, através da VERT Soluções Ambientais, eles desenvolveram uma resposta. A tecnologia transforma aquela mistura de resíduos em placas termoplásticas — chapas moldadas com calor que depois podem ser cortadas e utilizadas em outros produtos. Cada placa incorpora aproximadamente 20 quilos de material descartado. A capacidade projetada é de 350 toneladas por ano. O investimento total foi de R$ 2,8 milhões.
As aplicações são variadas. As placas podem virar divisórias, revestimentos, formas para obras, pallets, caixas, móveis, estruturas rurais e mobiliário urbano. A proposta central é substituir materiais convencionais como madeira, MDF e compensado naval — produtos que dominam o mercado de construção e móveis. Em 2025, a empresa já havia criado 18 produtos diferentes a partir do material. Uma parceria com o Grupo Dass transformou resíduos da produção de calçados em placas destinadas à construção e ao agronegócio.
Os números apresentados pela VERT indicam 12 empregos diretos e cerca de 500 pessoas beneficiadas de forma direta ou indireta. A empresa estima evitar aproximadamente 805 toneladas de gases de efeito estufa por ano — medida expressa em dióxido de carbono equivalente, que reúne o impacto de diferentes gases sobre o clima. Esses números foram declarados no projeto apresentado à FIEB e não aparecem acompanhados de auditoria ambiental independente nas fontes consultadas.
O projeto, chamado Compensado Inteligente, ficou em segundo lugar em sua categoria no Prêmio FIEB de 2025. A startup também venceu uma competição de apresentações empresariais durante o BTX, evento de tecnologia realizado em Salvador, onde empresas apresentam suas soluções em poucos minutos para avaliadores, parceiros e possíveis investidores. Em março de 2025, a VERT depositou um pedido de patente relacionado à tecnologia — o registro mostra que a empresa solicitou proteção para a invenção, mas não significa que a patente já tenha sido concedida.
O desafio agora é automatizar parte da produção, ampliar a capacidade da fábrica e fechar novas parcerias com indústrias que geram resíduos difíceis de reciclar. O caso de Itapetinga demonstra que o problema do descarte industrial não termina quando o caminhão retira o material da fábrica. Ao transformar 350 toneladas por ano em placas para obras, móveis e infraestrutura, os empreendedores mostram que parte do lixo industrial pode voltar à economia como matéria-prima, em vez de desaparecer em um forno sem deixar valor para trás.
Notable Quotes
Recolher os resíduos não era suficiente — era preciso criar um produto com utilidade, resistência e possibilidade real de comercialização— Lição aprendida por Wellington e Wesley através da Recicla (2001)