Em Brasília, Regina Silveira estende sobre a fachada de um edifício de Oscar Niemeyer 530 metros quadrados de adesivos vinílicos que imitam costuras — um gesto que não é decorativo, mas filosófico. A artista interroga o que a civilização das telas digitais nos fez esquecer: o encontro direto entre a pele e a matéria. Ao mesmo tempo em que cobre o concreto com tecido simulado, transforma uma obra analógica dos anos 1980 em painel luminoso digital, colocando frente a frente o calor da lâmpada e a frieza do pixel.
Regina Silveira cobre fachada de museu em Brasília com monumental costura de vinil
O dedo contra a carne digital, tal qual o incrédulo
Por que Silveira insiste em cobrir fachadas inteiras com esses adesivos? Parece um gesto muito específico para repetir tantas vezes.
Porque cada fachada é um corpo diferente. O Masp é uma coisa, um prédio de Niemeyer é outra. Ela está conversando com a arquitetura, não apenas decorando.
Mas qual é a diferença material entre cobrir uma fachada com adesivos e qualquer outro revestimento? O que torna isso arte e não design?
A intenção. Silveira está pensando sobre tato, sobre memória do contato físico. Os adesivos criam uma textura visual que faz você querer tocar.
E essa obsessão com recuperar o tátil — é porque ela acha que perdemos algo importante?
Exatamente. Ela está dizendo que a arte virou tela, tudo virou tela, e esquecemos que antes havia corpo, havia mão, havia resistência da matéria.
Mas ela mesma está exibindo uma obra em painel digital luminoso. Então ela não está rejeitando a tecnologia, está?
Não, ela está dialogando com ela. Mostrando a mesma obra em duas encarnações — lâmpada e pixel — para que você veja o que mudou.
E a referência a São Tomás? Como isso entra na conversa?
Tomás não acreditava até tocar. Silveira está dizendo que nós também não acreditamos mais no que não podemos tocar. O dedo contra a carne digital é uma dúvida.
Mas ninguém vai realmente tocar esses adesivos na fachada. É uma metáfora visual, não uma experiência tátil real.
Verdade. Mas você vê a costura, vê a textura, e seu corpo lembra que toque existe. Isso já é algo.
The Pulse
- A fachada de um ícone de Niemeyer desaparece sob 530 metros quadrados de adesivos que imitam costuras à mão — a escala da intervenção é, por si só, uma declaração de urgência.
- Silveira diagnostica uma perda silenciosa: a arte contemporânea migrou para telas e esqueceu que o corpo tem pele, que a experiência começa no toque antes de chegar aos olhos.
- A mesma mostra apresenta 'Dígito', painel de cem metros quadrados que converte uma obra de lâmpadas incandescentes dos anos 1980 em luz digital fria — a contradição é o argumento.
- A referência a São Tomás — o apóstolo que só acreditou ao tocar as feridas — transforma a instalação em uma pergunta sem resposta: o que significa crer em algo que só existe como imagem?
- A exposição está em rota de ampliar o debate sobre tato e digitalidade na arte brasileira, enquanto dois museus afro-brasileiros recebem R$ 400 mil cada para reforçar acessibilidade e programas educativos.
Em Brasília, Regina Silveira estende sobre a fachada de um edifício de Oscar Niemeyer 530 metros quadrados de adesivos vinílicos que imitam costuras — um gesto que não é decorativo, mas filosófico. A artista interroga o que a civilização das telas digitais nos fez esquecer: o encontro direto entre a pele e a matéria. Ao mesmo tempo em que cobre o concreto com tecido simulado, transforma uma obra analógica dos anos 1980 em painel luminoso digital, colocando frente a frente o calor da lâmpada e a frieza do pixel.
Regina Silveira, uma das artistas mais reconhecidas do Brasil, inaugura na próxima semana uma intervenção monumental no Sesi Lab de Brasília. A obra recobre integralmente a fachada do edifício — projeto original de Oscar Niemeyer — com 530 metros quadrados de adesivos vinílicos dispostos em padrões que evocam tecido costurado à mão. Não é a primeira vez: Silveira já realizou gestos semelhantes no Masp, no Palácio das Artes em Belo Horizonte e em um museu no México.
O que move essa série é uma preocupação central em sua trajetória: recuperar a dimensão tátil que a arte contemporânea vem perdendo. Enquanto as telas digitais se tornaram hegemônicas, Silveira apela à memória do contato físico — aquele encontro entre pele e matéria que antecedia os cristais líquidos e a inteligência artificial. Não é nostalgia; é um argumento sobre o que a tecnologia nos fez esquecer.
Na mesma mostra, ela apresenta 'Dígito', um painel luminoso de cem metros quadrados que retoma uma obra de lâmpadas incandescentes exibida na avenida São João, em São Paulo, nos anos 1980. A transformação é deliberada: o que era calor e toque de lâmpada torna-se pixel e luz fria de tela. O trabalho dialoga com a figura de São Tomás — o apóstolo que só acreditou na ressurreição ao enfiar os dedos nas feridas — e questiona nossa própria incredulidade diante do imaterial digital.
Paralelamente, dois museus dedicados à cultura afro-brasileira receberão R$ 400 mil cada via Lei Rouanet: o Museu Afro Brasil, em São Paulo, e o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, em Salvador. Os recursos, patrocinados pela concessionária Motiva, destinam-se a ampliar a acessibilidade e os programas educativos dessas instituições.
Regina Silveira, uma das artistas mais reconhecidas do Brasil, inaugura na próxima semana uma intervenção monumental no Sesi Lab de Brasília. A obra cobre integralmente a fachada do edifício — um projeto original de Oscar Niemeyer — com 530 metros quadrados de adesivos vinílicos dispostos em padrões que evocam o tecido costurado à mão. É um gesto que retoma uma prática recorrente na trajetória de Silveira: ela já interveio dessa forma no Masp em São Paulo, no Palácio das Artes em Belo Horizonte e em um museu no México.
O que move essa série de trabalhos é uma preocupação que atravessa toda a obra de Silveira — a elasticidade das imagens em diferentes planos e, agora, uma insistência em recuperar a dimensão tátil que a arte contemporânea vem perdendo há décadas. Enquanto as telas digitais se tornaram hegemônicas, Silveira apela para a memória do contato físico, aquele encontro direto entre pele, carne e matéria que precedia os cristais líquidos e a inteligência artificial sensível à voz. Não é nostalgia; é um argumento sobre o que a tecnologia nos fez esquecer.
Na mesma mostra em Brasília, Silveira apresenta uma segunda camada dessa reflexão. Ela retoma uma obra de sua era analógica — um trabalho feito com lâmpadas incandescentes que ocupava a avenida São João em São Paulo durante a década de 1980. Agora, essa mesma peça reaparece como um painel digital luminoso de cem metros quadrados, batizado "Dígito". A transformação é deliberada: o que era toque e calor de lâmpada se torna pixel e luz fria de tela.
A obra dialoga com uma imagem cristã específica — São Tomás, o apóstolo que não acreditou na ressurreição de Cristo até enfiar os dedos nas feridas do corpo ressuscitado. Aqui, o dedo de Silveira investe contra a carne digital, questionando a mesma incredulidade que marca nossa relação contemporânea com o imaterial. O trabalho não oferece respostas; oferece uma provocação visual e tátil sobre o que ganhamos e o que perdemos quando a experiência artística migra inteiramente para as telas.
Paralelamente à instalação em Brasília, dois museus dedicados à cultura afro-brasileira receberão investimento via Lei Rouanet. O Museu Afro Brasil em São Paulo e o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira em Salvador ganharão cada um R$ 400 mil, patrocinados pela Motiva, concessionária de infraestrutura. Os recursos destinam-se a reforçar a acessibilidade dos espaços e de seus programas educativos, ampliando o alcance público dessas instituições.
Notable Quotes
Silveira quer lembrar que antes de cristais líquidos e inteligência artificial, tudo precisava do contato físico entre artista e matéria— contexto da obra