Redes de recrutamento aliciam brasileiros para guerra na Ucrânia com promessas falsas

Centenas de brasileiros morreram ou desapareceram em combate; em 2025-2026, 102 estão desaparecidos e 38 tiveram mortes confirmadas, deixando famílias sem corpos para sepultar.
Quanto mais mortes acontecem, mais brasileiros continuam indo
Reflexão de uma advogada cujo irmão morreu na Ucrânia, sobre o ciclo de recrutamento que parece imparável.
Mark

Por que tantos brasileiros estão indo para a Ucrânia se as promessas são falsas? Não deveriam saber disso?

Mimi

A maioria descobre tarde demais. Os recrutadores usam redes sociais, vídeos de soldados brasileiros em ação, promessas de salários impossíveis. Para um jovem ganhando R$ 2,5 mil por mês, R$ 25 mil parecem reais.

Luke

Mas quanto desses números podemos confirmar? O Henrique diz que enviou 4 mil brasileiros, mas o texto diz que isso não foi confirmado independentemente. Quantos realmente estão lá?

Mimi

Ninguém sabe ao certo. Nem Rússia nem Ucrânia divulgam números. As estimativas falam em mais de mil pela Ucrânia, algumas dezenas pela Rússia.

Mark

E os recrutadores ganham dinheiro com isso?

Mimi

Sim. Recebem em média R$ 2 mil por pessoa que conseguem convencer. Se alguém recruta 20 ou 30 pessoas, fica bem remunerado.

Luke

Espera — eles recebem bônus do governo ucraniano ou russo? Ou de intermediários privados? O texto não deixa claro.

Mimi

Segundo relatos de familiares e soldados, a estrutura é financiada pelos governos, mas opera através de intermediários. Os sites oficiais existem, os telefones são atendidos em português.

Mark

E por que o Brasil não faz nada?

Mimi

Porque não há lei contra mercenarismo. As famílias estão tentando enquadrar como tráfico humano, mas é um vazio legal.

Luke

Então tecnicamente não é crime? Um recrutador pode oferecer passagem aérea e documentação sem infringir nenhuma lei brasileira?

Mimi

Aparentemente sim. Por isso as famílias estão pedindo ao Ministério Público que bloqueie os sites oficiais de recrutamento. Mas é uma batalha difícil.

  • Mais de mil brasileiros estão combatendo na Ucrânia, atraídos por promessas de até R$ 25 mil mensais que raramente se concretizam — e o número de mortos e desaparecidos cresce a cada mês.
  • Recrutadores operam com sofisticação industrial: páginas no Instagram e TikTok, hotéis no centro de São Paulo como pontos de triagem, passagens aéreas pagas e bônus de R$ 2 mil por cada jovem convencido a partir.
  • Famílias descobrem o paradeiro de seus filhos apenas quando eles já estão em zonas de combate — ou quando chegam relatos de morte sem corpo para sepultar.
  • Sem lei específica contra mercenarismo, grupos de famílias recorrem ao Ministério Público Federal com a tese de tráfico humano, enquanto o governo brasileiro emite comunicados que a máquina de recrutamento simplesmente ignora.
  • A cada morte confirmada, novos jovens parecem dispostos a partir — o recrutamento funciona como um algoritmo de recompensa que se alimenta da própria tragédia que produz.

Em um tempo de guerras distantes que chegam perto demais, jovens brasileiros cruzam o Atlântico seduzidos por promessas de salários que nunca existiram, para lutar em trincheiras que nunca escolheram. Redes organizadas — financiadas tanto pela Ucrânia quanto pela Rússia — operam livremente em redes sociais e hotéis brasileiros, recrutando homens que deixam para trás famílias que só saberão da verdade quando o silêncio se tornar permanente. O Brasil, sem legislação contra o mercenarismo, assiste ao crescimento desse fenômeno enquanto mães e advogados tentam, com recursos escassos, deter uma máquina que transforma a desesperança econômica em combustível de guerra.

Clarice de Almeida acreditou que o filho havia viajado para Madri de férias. Felipe tinha 26 anos, trabalhava em uma usina de cana-de-açúcar no interior de São Paulo e nunca voltou. Semanas depois, ela soube que ele estava na Ucrânia. Antes do fim de 2025, estava morto — o corpo perdido em alguma trincheira das estepes, sem possibilidade de repatriação.

A história de Felipe se repete em centenas de famílias brasileiras. Em 2024, o Itamaraty registrou cinco mortos e cinco desaparecidos. Em 2025, foram 13 mortos e 30 desaparecidos. Até agosto de 2026, o Brasil contabilizava 38 mortes confirmadas e 102 desaparecidos em combate. Estima-se que mais de mil brasileiros lutam pelo lado ucraniano, enquanto algumas dezenas combatem pelo russo.

A operação de recrutamento é sofisticada. Páginas no Instagram, TikTok e Facebook mostram soldados brasileiros em ação com relatos animadores. Os governos ucraniano e russo mantêm sites oficiais em português. No Brasil, intermediários usam hotéis no centro de São Paulo — como o Hotel Cinelândia, na República — para verificar documentos antes do embarque. A isca é financeira: promessas de até R$ 25 mil mensais para jovens que ganham R$ 2,5 mil. Recrutadores recebem bônus de cerca de R$ 2 mil por cada pessoa convencida. Uma agência chamada Henrique Turismos afirma ter enviado mais de 4 mil brasileiros, com cerca de 300 chegando mensalmente.

As promessas raramente se cumprem. Eduardo Bianchi, de 29 anos, foi recrutado para atuar como paramédico. Morreu em sua primeira missão. Sua última mensagem para a mãe, Patrícia Cruz, foi: "Mãe, acho que fomos enganados."

Diante do vazio legal — o Brasil não possui legislação específica contra mercenarismo —, famílias organizadas em grupos investigam o fenômeno e apresentam denúncias ao Ministério Público Federal com a tese de tráfico humano. A advogada Letícia Araújo, que perdeu o irmão de 22 anos, conseguiu convencer 13 jovens a desistir de partir. Outros 14 viajaram mesmo assim.

Clarice não pede muito. Quer trazer para casa ao menos os ossos do filho. Para a maioria das famílias, nem isso é possível.

Clarice de Almeida recebeu uma ligação que mudaria sua vida para sempre. Seu filho Felipe, um rapaz de 26 anos que trabalhava em uma usina de cana-de-açúcar no interior de São Paulo, havia desaparecido. Ele havia dito que viajaria para Madri por uma semana de férias. Nunca voltou. Semanas depois, ela descobriria a verdade: Felipe estava na Ucrânia, lutando em uma guerra que não era sua, em um país que nunca havia visitado, em um conflito que já havia matado centenas de milhares de pessoas. Antes que 2025 terminasse, ele estava morto, seu corpo perdido em uma trincheira em algum lugar das estepes ucranianas.

A história de Felipe não é isolada. Ela faz parte de um fenômeno que cresceu exponencialmente nos últimos dois anos: uma rede organizada e bem financiada de recrutadores, operando tanto do lado ucraniano quanto do russo, que atrai jovens brasileiros para a guerra com promessas que raramente se concretizam. Os números revelam a escala do problema. Em 2024, o Itamaraty registrou cinco brasileiros mortos e cinco desaparecidos. Em 2025, esses números saltaram para 13 mortos e 30 desaparecidos. Até agosto de 2026, o Brasil contabilizava 102 brasileiros desaparecidos em combate e 38 mortes confirmadas. Provavelmente mais de mil brasileiros estão lutando pela Ucrânia, enquanto algumas dezenas combatem pelo lado russo.

Os recrutadores operam com sofisticação. Oferecem passagens aéreas gratuitas, documentação para atravessar a Europa, hospedagem na fronteira polonesa e transporte até cidades ucranianas. Tudo bancado pela estrutura de recrutamento. Nas redes sociais — Instagram, TikTok, Facebook — páginas proliferam mostrando soldados brasileiros em ação, relatando experiências animadoras e oferecendo instruções sobre como se alistar. Os governos ucraniano e russo estabeleceram sites oficiais de recrutamento em português, com telefones atendidos por falantes do idioma. No Brasil, intermediários usam hotéis no centro de São Paulo como pontos de encontro e verificação de documentos antes do embarque. Um deles, o Hotel Cinelândia na República, tornou-se conhecido entre as famílias como um dos principais centros de operação.

O incentivo financeiro é a isca principal. Recrutadores prometem até R$ 25 mil por mês — uma quantia astronômica para um jovem que ganha R$ 2,5 mil em uma usina de açúcar. Mas essas promessas raramente se materializam. Felipe foi informado que operaria na retaguarda, receberia treinamento especializado e ganharia aquele salário. Nada disso aconteceu. Eduardo Bianchi, um jovem de 29 anos que havia deixado o curso de Medicina no Paraguai, foi recrutado com a promessa de trabalhar como paramédico. Morreu em sua primeira missão. Sua mãe, Patrícia Cruz, uma bacharel em Direito de Florianópolis, soube da morte por uma amiga do filho. Em sua última conversa, Eduardo havia dito: "Mãe, acho que fomos enganados."

Os recrutadores que conseguem convencer entre 20 e 30 brasileiros a se alistarem recebem bônus em seus pagamentos — em média, o equivalente a R$ 2 mil por pessoa. Alguns soldados brasileiros que foram para a Ucrânia montaram agências de turismo especializadas. A Henrique Turismos, cujo dono se identifica apenas como Henrique, afirma ter enviado mais de 4 mil brasileiros para a Ucrânia, com cerca de 300 combatentes chegando mensalmente por seus serviços. A demanda é tão alta que o recrutamento opera como um algoritmo de recompensa, segundo Welbert Henriques Pereira, um advogado mineiro que perdeu seu próprio filho na guerra. Quanto mais interesse um jovem demonstra, mais promessas lhe são oferecidas.

As famílias brasileiras começaram a se organizar. Grupos de pais, irmãos e cônjuges investigam o que leva seus entes queridos a cruzar o mundo para morrer em uma guerra distante. Muitos deles são advogados que buscam na Justiça maneiras de frear o recrutamento. O problema é que o Brasil não possui legislação específica contra mercenarismo. As famílias argumentam que o que ocorre se enquadra em tráfico humano e têm apresentado denúncias ao Ministério Público Federal em diferentes estados. Letícia Araújo, uma advogada que perdeu seu irmão de 22 anos, Elton, planeja fazer um vídeo coletivo com outras famílias tentando convencer jovens a desistirem. Seu grupo conseguiu fazer com que 13 brasileiros desistissem de partir, mas 14 outros viajaram mesmo assim.

O que torna a situação ainda mais trágica é que muitos dos corpos nunca são recuperados. Clarice de Almeida sabe que o corpo de Felipe foi deixado para trás, possivelmente devorado por animais. Ela não pede muito: quer trazer para casa nem que sejam apenas os ossos de seu filho. Na maior parte dos casos acompanhados pelas famílias, combatentes oficialmente classificados como desaparecidos são considerados mortos por parentes que recebem relatos, fotografias ou informações de companheiros de batalha, mas cujos corpos nunca foram recuperados. O governo brasileiro faz comunicados oficiais aos dois países tentando desencorajar a busca de cidadãos brasileiros para atuarem como mercenários, mas a máquina de recrutamento continua funcionando. Quanto mais mortes acontecem, mais jovens brasileiros parecem dispostos a partir.

Meu filho era um inocente, um menino do interior, e o convenceram a ir para lá
— Clarice de Almeida, mãe de Felipe, morto na Ucrânia
Mãe, acho que fomos enganados
— Eduardo Bianchi, em sua última conversa com a mãe antes de morrer
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