Desde 2025, solicitações de refúgio de cubanos no Brasil quase dobraram, chegando a 41,9 mil em 2025 e 13,4 mil já em 2026. Rede coordenada envolve brasileiros, guianenses e cubanos; transportadores ganham R$ 10 a 15 mil por viagem em carros superlotados pela BR-401.
Rede de coiotes cobra US$ 10 mil para trazer cubanos ao Brasil pela Amazônia
Não quero recordar o trajeto, diz cubana sobre rota de coiotes
Por que exatamente dez mil dólares? Parece um número muito específico para uma operação tão descentralizada.
É o preço que o mercado suporta. Cobre tudo: o voo para Georgetown, a travessia da fronteira, o transporte até Boa Vista, hospedagens temporárias, e depois uma passagem aérea para o Sudeste ou Sul. Os coiotes sabem que cubanos conseguem juntar essa quantia vendendo tudo que têm, ou prometendo pagar depois com trabalho.
E os transportadores na BR-401 ganham apenas trezentos dólares por pessoa. Onde fica o resto do dinheiro?
Fica com os coordenadores da rede. Os que organizam os voos, os que alugam os carros, os que mantêm as casas de apoio. É uma cadeia. O motorista é o elo mais visível e mais vulnerável à prisão.
Você mencionou que muitos motoristas presos não têm histórico em redes migratórias. Por que pessoas comuns entram nesse negócio?
Porque é muito vantajoso e parece fácil. Um motorista ganha em uma viagem o que levaria semanas para ganhar dirigindo um táxi. Ninguém quer saber de onde vem o dinheiro.
E os migrantes? Eles sabem em que estão se metendo?
Alguns sim, alguns não. Beatriz sabia que era perigoso, mas deixou dois filhos em Cuba. Quando você está nessa situação, o risco parece menor que ficar.
El Pulso
- 225 cubanos resgatados pela PRF em 2026
- Coiotes cobram US$ 10 mil (R$ 51 mil) por pessoa
- 41,9 mil solicitações de refúgio de cubanos no Brasil em 2025
- 108 cubanos encontrados em condições degradantes em 8 de junho
- Dois cubanos morreram em capotamento de veículo em fuga em 2025
Desde 2025, solicitações de refúgio de cubanos no Brasil quase dobraram, chegando a 41,9 mil em 2025 e 13,4 mil já em 2026. Rede coordenada envolve brasileiros, guianenses e cubanos; transportadores ganham R$ 10 a 15 mil por viagem em carros superlotados pela BR-401.
Quadrilhas de tráfico humano cobram US$ 10 mil por pessoa para trazer cubanos irregularmente ao Brasil via Guiana, explorando rotas vulneráveis na Amazônia. PRF relata crise humanitária com vítimas em condições degradantes e acidentes fatais.
Na madrugada de 8 de junho, policiais federais encontraram 108 cubanos espalhados por casarões em Cantá, no interior de Roraima, alguns deles sem comer há dois dias. Mulheres, crianças e idosos em condições físicas precárias aguardavam em silêncio o próximo passo de uma jornada que começou em Havana e custou a cada um deles aproximadamente dez mil dólares — quantia que a maioria não tinha, mas que os coiotes garantiam poder ser paga depois, em trabalho.
A rota é simples em sua brutalidade. Cubanos saem de sua ilha em crise — sem luz, sem água, sem comida acessível — em voos para Georgetown, na Guiana. De lá, atravessam a pé a ponte que liga Lethem a Bonfim, ou em barcos clandestinos pelo rio que separa os dois países. O que parecia ser o fim da viagem é apenas o começo. Na fronteira, redes bem coordenadas de brasileiros, guianenses e cubanos os colocam em carros alugados, veículos projetados para cinco pessoas que saem carregando doze. A BR-401, estrada asfaltada que liga Bonfim a Boa Vista em 125 quilômetros, torna-se um corredor de lucro rápido: cada passageiro rende trezentos dólares ao transportador, e uma viagem com dez pessoas gera entre dez e quinze mil reais.
Beatriz, uma cubana de 29 anos que conseguiu chegar a Boa Vista, descreve o trajeto como "horrível". Ela deixou dois filhos em Cuba — um de doze anos, outro de sete — com a avó, esperando juntar dinheiro em Florianópolis para trazê-los. Sua história é uma entre dezenas de milhares. Em 2025, cubanos apresentaram 41,9 mil solicitações de refúgio no Brasil, quase o dobro dos 22,3 mil do ano anterior. Em 2026, apenas nos primeiros meses, já são 13,4 mil pedidos. A crise energética que os Estados Unidos impuseram a Cuba neste ano transformou a ilha em um lugar onde apagões são rotina e hospitais funcionam com recursos mínimos.
A Polícia Rodoviária Federal resgatou 225 cubanos só neste ano, e cada operação revela a mesma estrutura de exploração. Quando os motoristas avistam as viaturas, abandonam a rodovia e entram em estradas de terra em alta velocidade, tentando escapar. Em 2025, dois cubanos morreram quando um veículo capotou em fuga. Nos últimos dias, coiotes simplesmente deixaram migrantes a dez quilômetros de Boa Vista e desapareceram. Desde o início do ano, 16 coiotes foram presos. Na quinta-feira 11 de junho, a Polícia Federal deflagrou a Operação Conexão Norte com três mandados de busca em Boa Vista e um em Bonfim, mas ninguém foi preso.
O que torna tudo isso possível é a geografia e a porosidade das fronteiras. Cuba fica perto da Guiana e do Suriname, onde há voos comerciais baratos. A divisa entre Brasil e Guiana tem trechos vulneráveis. Uma vez em solo brasileiro, os migrantes conseguem comprar passagens aéreas domésticas usando documentos de seus países de origem, e seguem para cidades do Sudeste e do Sul. Pesquisadores apontam que o Brasil permanece um dos poucos países onde migrantes conseguem se regularizar enquanto aguardam análise de pedidos de refúgio.
A maior operação de resgate já registrada em Roraima aconteceu no dia 8 de junho, quando 108 pessoas foram localizadas. Cinco brasileiros suspeitos de atuar como coiotes foram presos em flagrante. As vítimas foram direcionadas para abrigos da Operação Acolhida, a mesma estrutura que há anos recebe venezuelanos. O Ministério da Justiça afirma monitorar fluxos migratórios por sistemas integrados e trabalhar no enfrentamento ao contrabando de migrantes. A Guiana, por sua vez, comprometeu-se em comunicado a colaborar com o Brasil para desmantelar elementos criminosos que usam ilegalmente as fronteiras compartilhadas. Mas a rota continua operando, os carros continuam saindo de Bonfim superlotados, e em Havana, mais pessoas estão vendendo o que têm para pagar dez mil dólares a homens que prometem levá-las para um lugar onde há luz.
Citas Notables
Cuba tem muitos problemas. Não tem luz, água, gás, comida, os preços estão altos e o salário não alcança— Beatriz, cubana de 29 anos em Boa Vista
Estamos diante de uma crise humanitária. São pessoas exploradas economicamente durante toda a viagem— Isaías Magalhães, chefe de comunicação da PRF em Roraima