Durante mais de um século, a ciência traçou uma fronteira invisível acima dos 5500 metros, convicta de que nenhum mamífero poderia ali habitar de forma permanente. O roedor Phyllotis vaccarum, descoberto nos cumes vulcânicos dos Andes, veio desfazer essa certeza: populações inteiras vivem a mais de 6700 metros, onde o oxigénio é menos de metade do que existe ao nível do mar. Um estudo publicado na revista Science revela que estes animais não possuem um único gene milagroso, mas sim um conjunto refinado de adaptações que aperfeiçoam o que já existia — uma lição sobre como a vida encontra caminh
Ratinho alpino decifra segredo da sobrevivência acima de 6.700 metros
Aperfeiçoaram genes já existentes, em vez de redesenhar o genoma
Como é que um animal tão pequeno consegue viver onde os humanos mal conseguem respirar?
Não é uma única coisa. É como se o corpo deles tivesse sido afinado em múltiplas frequências ao mesmo tempo — melhor forma de queimar gordura para calor, melhor forma de usar o pouco oxigénio que existe, melhor forma de processar plantas venenosas. Cada adaptação resolve um problema diferente.
Mas se continuam a cruzar-se com ratos de terras baixas, porque é que não perdem estas adaptações?
Porque a seleção natural é implacável. Mesmo com genes a entrar e a sair da população, os que sobrevivem são sempre os que têm estas características. É como se o ambiente estivesse constantemente a peneirar, mantendo apenas o que funciona.
O que me surpreende é a parte da desintoxicação. Porque é que isso é tão importante?
Porque não há comida suficiente naquele lugar para ser exigente. As plantas que crescem lá desenvolveram defesas químicas para se protegerem. A maioria dos animais não consegue comer essas plantas. Mas estes ratos conseguem — o seu corpo consegue quebrar os venenos. É a diferença entre morrer de fome e sobreviver.
E isto pode ajudar-nos a entender doenças humanas?
Sim. O cancro também cria ambientes onde as células têm pouco oxigénio. Se compreendermos como as células destes ratos lidam com isso, talvez consigamos encontrar formas novas de tratar o cancro. A natureza já resolveu este problema. Nós apenas temos de aprender a ler a solução.
The Pulse
- Ratos vivem permanentemente a 7000 metros de altitude, um feito que a biologia considerava impossível há mais de cem anos.
- A pressão de oxigénio é apenas 44% da do nível do mar, o frio é constante e a paisagem vulcânica oferece quase nada para comer — e ainda assim estes animais prosperam.
- O estudo analisou mais de 160 indivíduos capturados em várias altitudes, combinando genómica, fisiologia e metabolismo para desvendar o mecanismo por trás da sobrevivência.
- A maior surpresa não foi o oxigénio, mas a comida: os ratos desenvolveram sistemas de desintoxicação que lhes permitem ingerir plantas tóxicas que matariam a maioria dos mamíferos.
- As adaptações resistem mesmo ao cruzamento contínuo com populações de baixa altitude, sinalizando uma pressão evolutiva extraordinariamente forte.
- As descobertas abrem caminho para investigação biomédica sobre hipóxia celular, com potencial impacto no estudo do cancro e outras doenças humanas.
Durante mais de um século, a ciência traçou uma fronteira invisível acima dos 5500 metros, convicta de que nenhum mamífero poderia ali habitar de forma permanente. O roedor Phyllotis vaccarum, descoberto nos cumes vulcânicos dos Andes, veio desfazer essa certeza: populações inteiras vivem a mais de 6700 metros, onde o oxigénio é menos de metade do que existe ao nível do mar. Um estudo publicado na revista Science revela que estes animais não possuem um único gene milagroso, mas sim um conjunto refinado de adaptações que aperfeiçoam o que já existia — uma lição sobre como a vida encontra caminho não pela rutura, mas pelo aperfeiçoamento silencioso.
Durante mais de um século, a ciência acreditou que havia um limite biológico intransponível para os mamíferos acima dos 5500 metros. O roedor Phyllotis vaccarum, descrito pela primeira vez em 1912, veio contrariar essa convicção: populações inteiras destes pequenos animais foram encontradas a viver permanentemente a mais de 6700 metros, nos cumes vulcânicos dos Andes, onde a pressão de oxigénio é apenas 44% da do nível do mar e as temperaturas raramente sobem acima de zero.
Um estudo publicado este mês na revista Science analisou mais de 160 ratos capturados entre a costa chilena e os vulcões andinos mais altos. Os investigadores combinaram sequenciamento genómico, testes fisiológicos e análises metabólicas para perceber o que distingue estes animais dos seus parentes de terras baixas. O que encontraram não foi uma mutação singular, mas um conjunto sofisticado de adaptações que funcionam em conjunto.
Entre as descobertas mais notáveis está a forma como estes ratos geram calor: recorrem intensamente à oxidação de gorduras em vez de hidratos de carbono, alimentando tanto o tremor muscular como o tecido adiposo castanho. Desenvolveram também melhorias na produção de energia e na regulação vascular, sem recorrer à hemoglobina com maior afinidade para o oxigénio, como fazem outros animais de altitude.
A maior surpresa veio da alimentação. A paisagem vulcânica é quase árida, e as poucas plantas que ali crescem produzem compostos tóxicos como defesa. O genoma dos ratos revela sinais claros de seleção natural em genes de desintoxicação, permitindo-lhes processar substâncias letais para a maioria dos mamíferos. Notavelmente, estas adaptações persistem mesmo com o cruzamento contínuo entre populações de alta e baixa altitude, o que indica uma pressão evolutiva muito forte.
Os investigadores sublinham que a evolução não redesenhou o genoma destes animais — aperfeiçoou o que já existia. As implicações estendem-se para além da biologia da altitude: compreender como as células respondem à privação crónica de oxigénio pode oferecer pistas valiosas para doenças como o cancro, onde a hipóxia celular desempenha um papel crítico.
Durante mais de um século, a ciência acreditou que havia um teto biológico inviolável para a vida dos mamíferos. Acima de 5500 metros de altitude, pensava-se, a combinação de ar rarefeito, frio extremo, escassez de alimento e ventos devastadores tornava a existência permanente praticamente impossível. Mas a natureza, como costuma fazer, ignorou essa fronteira teórica.
O roedor Phyllotis vaccarum foi descrito pela primeira vez em 1912, mas só recentemente os cientistas encontraram populações inteiras destes pequenos animais vivendo a mais de 6700 metros de altitude, nos cumes vulcânicos dos Andes. Estão a viver onde até os alpinistas humanos lutam para respirar, onde a pressão parcial de oxigénio é apenas 44% da que existe ao nível do mar, e onde as temperaturas raramente sobem acima de zero. A descoberta levantou uma pergunta óbvia e urgente: como é que isto é possível?
Um novo estudo publicado este mês na revista Science começou a fornecer respostas. Os investigadores recolheram dados de mais de 160 ratos capturados em várias altitudes, desde a costa do Pacífico chileno até aos vulcões andinos mais altos. Combinaram sequenciamento genómico completo, testes fisiológicos, análises musculares e medições metabólicas para identificar exatamente o que torna estes animais diferentes dos seus parentes que vivem em terras baixas. O que encontraram foi um conjunto sofisticado de adaptações que funcionam em conjunto, não uma única mutação milagrosa.
Uma das descobertas mais notáveis foi a eficiência com que estes ratos geram calor. Em vez de dependerem principalmente de hidratos de carbono para energia, como fazem a maioria dos mamíferos, recorrem intensamente à oxidação de gorduras. Este processo fornece combustível tanto para o tremor muscular como para o tecido adiposo castanho, que produz calor sem necessidade de contrações. Simultaneamente, desenvolveram alterações genéticas que melhoram a produção de energia, a regulação dos vasos sanguíneos e a capacidade de funcionar em condições de privação crónica de oxigénio. Ao contrário de alguns outros animais de altitude e certas populações humanas, não desenvolveram hemoglobina com maior afinidade para o oxigénio. Em vez disso, aperfeiçoaram múltiplos sistemas que trabalham juntos para manter os tecidos vivos apesar da hipóxia.
Mas a maior surpresa não veio do oxigénio. Veio da comida. A paisagem vulcânica parece quase completamente árida, mas os ratos conseguem sobreviver com as poucas plantas alpinas que conseguem crescer naquelas altitudes. O problema é que muitas destas plantas produzem compostos químicos defensivos altamente tóxicos. Quando os investigadores analisaram o genoma dos ratos, encontraram sinais claros de seleção natural em genes envolvidos na degradação de toxinas vegetais. Estes ratos desenvolveram vias de desintoxicação que lhes permitem processar compostos que seriam letais para a maioria dos outros mamíferos.
O que torna tudo isto ainda mais notável é que os ratos de alta altitude continuam a cruzar-se com os seus parentes de terras baixas. Apesar desta troca constante de genes, as adaptações mantêm-se. Isto sugere que a seleção natural continua a favorecer fortemente estas características, mantendo-as mesmo quando há fluxo genético que as poderia diluir. Os investigadores também descobriram que estas adaptações não resultaram de grandes reestruturações do genoma. A evolução não redesenhou o código genético. Em vez disso, aperfeiçoou genes que já existiam, refinando-os para funções extremas.
O estudo tem limitações. Os cientistas ainda não sabem exatamente o que estes ratos comem ao longo de todo o ano, nem como cada gene de desintoxicação contribui individualmente para a sua sobrevivência. Investigações futuras vão examinar a dieta com maior detalhe e testar se estas alterações genéticas realmente permitem aos ratos explorar fontes alimentares ricas em toxinas. Mas as implicações já se estendem para além da biologia da altitude. Compreender como as células destes ratos respondem à privação prolongada de oxigénio pode oferecer pistas para doenças humanas como o cancro, onde a hipóxia celular é um fator crítico. A vida num vulcão a 6700 metros pode, afinal, ensinar-nos algo sobre a vida e a morte em contextos muito mais próximos de casa.
Notable Quotes
Os ratos de alta e baixa altitude continuam a cruzar-se entre si, mas as adaptações necessárias para a vida em altitudes extremas mantêm-se— Investigadores do estudo publicado em Science