Nos arquipélagos onde o mar pode cortar o mundo em pedaços, há homens e mulheres que mantêm a escuta — não por obrigação, mas por vocação. Nos Açores, seis associações de radioamadores formam uma rede invisível que, há quase cinco décadas, preenche o silêncio deixado pelas catástrofes quando os sistemas modernos cedem. A sua força não está na sofisticação, mas na simplicidade: um fio, uma bateria, e a disposição de permanecer acordado enquanto a tempestade passa.
Radioamadores dos Açores garantem comunicações vitais em emergências e crises
Há sempre um radioamador à escuta, pronto a ouvir
Porque é que os radioamadores continuam a ser necessários se temos satélites e tecnologia moderna?
Porque os satélites podem falhar, as redes convencionais podem cair, e uma ilha pode ficar completamente isolada. Os radioamadores oferecem redundância com equipamento simples que não depende de infraestrutura complexa.
Mas quantas vezes é que isso realmente acontece? O furacão Gabrielle foi um teste, mas foi bem-sucedido porque não houve falhas graves de comunicação.
Verdade, mas o ponto é que estavam preparados. E em 1997, na Ribeira Quente, 29 pessoas morreram. Em situações assim, ter um sistema de backup pode ser a diferença entre caos e coordenação.
Como é que uma pessoa com um rádio e uma bateria de carro consegue fazer diferença numa emergência real?
Não é uma pessoa. São seis associações, cada uma com operadores treinados, canais diretos com a Proteção Civil e os bombeiros, e frequências que funcionam quando tudo o resto falha.
Mas o artigo não diz quantos radioamadores existem no total, nem quantas operações de emergência tiveram realmente sucesso. Sabemos que estiveram lá em 1997, 1998, 2019 e setembro de 2025, mas não sabemos o impacto real.
Justo. O que sabemos é que em setembro, pela primeira vez, todas as associações se coordenaram, e mantiveram as comunicações interilhas durante a noite toda.
E isso é significativo porque?
Porque mostra que o sistema funciona quando é testado. E porque, nos Açores, estar isolado durante uma tempestade não é um cenário teórico — é um risco real.
Il Polso
- Cada furacão, sismo ou derrocada que atinge os Açores expõe a mesma vulnerabilidade: ilhas que podem ficar completamente isoladas quando as redes convencionais colapsam.
- Em setembro de 2025, o furacão Gabrielle forçou a maior coordenação da história — pela primeira vez, todas as associações açorianas operaram em conjunto, mantendo canais abertos com a Proteção Civil e os bombeiros durante toda a noite.
- Falhas de energia em São Jorge durante o Gabrielle testaram os limites da rede, mas as ligações interilhas resistiram sem interrupção, provando que a redundância funciona quando mais importa.
- Apesar da proliferação de satélites e tecnologias avançadas, os radioamadores argumentam — e demonstram — que nenhum sistema moderno garante sozinho a resiliência que um operador com uma bateria de carro consegue oferecer.
- A rede cresce: a associação de São Jorge, fundada há apenas dois anos, já integra o sistema de emergência regional, sinalizando que a comunidade se expande mesmo numa era dominada pelo digital.
Nos arquipélagos onde o mar pode cortar o mundo em pedaços, há homens e mulheres que mantêm a escuta — não por obrigação, mas por vocação. Nos Açores, seis associações de radioamadores formam uma rede invisível que, há quase cinco décadas, preenche o silêncio deixado pelas catástrofes quando os sistemas modernos cedem. A sua força não está na sofisticação, mas na simplicidade: um fio, uma bateria, e a disposição de permanecer acordado enquanto a tempestade passa.
Quando uma tempestade destrói as linhas telefónicas ou um sismo corta a energia nos Açores, há sempre alguém à escuta. Bruno Farias, secretário da Associação de Radioamadores dos Açores, descreve assim cinco décadas de serviço: "Estamos sempre aqui para ajudar, seja numa emergência, urgência e mesmo no dia-a-dia."
A rede que coordena distribui-se por seis associações espalhadas pelo arquipélago — São Miguel, Santa Maria, Faial, São Jorge e duas na Terceira. A primeira foi fundada em 1976; a de São Jorge existe há apenas dois anos. Juntas, formam uma coluna vertebral invisível nos momentos em que tudo o resto falha.
A história comprova essa importância. Em 1997, uma derrocada na Ribeira Quente soterrou 29 pessoas. Em 1998, um sismo atingiu o Faial. Em 2019, o furacão Lorenzo varreu o arquipélago. Em cada ocasião, os radioamadores mantiveram ligações quando nenhuma outra comunicação funcionava — coordenando até consultas médicas nas Flores por rádio e transmitindo mensagens entre famílias separadas pela tempestade.
Em setembro de 2025, o furacão Gabrielle trouxe o maior teste até hoje. Pela primeira vez na história, todas as associações açorianas coordenaram-se numa operação conjunta, com pelo menos um operador por ilha e canais diretos para a Proteção Civil e os bombeiros. Houve falhas de energia em São Jorge, mas as ligações interilhas nunca se cortaram. "Mostrou o valor da cooperação e da preparação da comunidade radioamadora", disse Farias.
O que torna esta rede resiliente é precisamente a sua simplicidade: com fio, um rádio e uma bateria de carro, um operador consegue comunicar com qualquer ilha ou qualquer parte do mundo, sem servidores nem contratos com operadores. Farias insiste que, apesar dos avanços em satélites, "existe sempre o risco de uma ilha ficar completamente isolada" — e que nenhuma tecnologia moderna garante sozinha a redundância que estes voluntários oferecem, acordados, enquanto a tempestade passa.
Quando uma tempestade destrói as linhas telefónicas ou um sismo corta a energia, há sempre alguém à escuta. Nos Açores, essa pessoa está provavelmente sentada diante de um rádio, antena improvisada, bateria de carro ligada, pronta para fazer passar uma mensagem que pode salvar uma vida. Bruno Farias, secretário da Associação de Radioamadores dos Açores, resume assim o trabalho que a sua comunidade faz há quase cinco décadas: "Estamos sempre aqui para ajudar, seja numa emergência, urgência e mesmo no dia-a-dia."
A rede que Farias coordena não é uma estrutura única e centralizada. Distribui-se por seis associações espalhadas pelo arquipélago — uma em São Miguel, outra em Santa Maria, uma no Faial, uma em São Jorge e duas na Terceira. A primeira destas associações foi fundada em 1976, tornando-se a pioneira da região. A mais recente, a de São Jorge, existe há apenas dois anos. Juntas, formam um sistema de comunicações que funciona como coluna vertebral invisível nos momentos em que tudo o resto falha.
Essa importância não é teórica. Ao longo das décadas, os radioamadores açorianos foram chamados a intervir em catástrofes que marcaram a região. Em 1997, chuva intensa provocou uma derrocada na Ribeira Quente, em São Miguel, que soterrou 29 pessoas. Em 1998, um sismo atingiu o Faial. Em 2019, o furacão Lorenzo passou pelo arquipélago. Em cada uma destas ocasiões, os radioamadores estiveram lá, mantendo ligações quando nenhuma outra forma de comunicação funcionava. Durante o furacão Lorenzo, por exemplo, coordenaram consultas médicas nas Flores através de rádio, transmitiram mensagens entre famílias separadas pela tempestade e garantiram que a Proteção Civil pudesse comunicar com as ilhas isoladas.
O desafio permanece atual. Apesar dos avanços tecnológicos — satélites em implementação crescente, sistemas cada vez mais sofisticados — Farias insiste num ponto que as autoridades não podem ignorar: "Existe sempre o risco de uma ilha ficar completamente isolada" em caso de catástrofe natural. Os satélites podem falhar. As redes convencionais podem cair. Os radioamadores, com o seu acesso a um largo espetro de frequências e equipamento simples, oferecem redundância que nenhuma tecnologia moderna consegue garantir sozinha.
Em setembro de 2025, durante a passagem do furacão Gabrielle, essa redundância foi testada e funcionou. Pela primeira vez na história, todas as associações de radioamadores dos Açores coordenaram-se numa operação conjunta. Cada ilha teve pelo menos um operador disponível — muitos com mais de uma estação ativa — e canais diretos para a Proteção Civil e os bombeiros, através de estações na Terceira e no Faial. A rede manteve-se em alerta durante toda a noite e madrugada, pronta para intervir se as comunicações falhassem. Houve relatos de falhas de energia na zona do Topo, em São Jorge, mas as ligações interilhas nunca se cortaram. "Mostrou o valor da cooperação e da preparação da comunidade radioamadora," disse Farias.
O que torna esta rede particularmente resiliente é a sua simplicidade. Com um pouco de fio, um equipamento ligado a uma bateria de carro, um radioamador consegue falar para qualquer parte do mundo ou para qualquer ilha, a partir de qualquer sítio. Não precisa de infraestrutura complexa, de servidores, de contratos com operadores. Precisa apenas de conhecimento, de frequências alocadas, e de pessoas dispostas a estar de pé durante a noite quando a tempestade passa.
Mas o trabalho dos radioamadores não se resume a emergências. Mantêm-se ativos em serviços de apoio diário, cultivando um espírito de entreajuda que, segundo Farias, "em momentos de crise, pode fazer a diferença." Ele próprio mantém amizade com um faroleiro na ilha das Flores, a quem apoiou em 2019 quando "nas Lajes não havia nem telefone, nem internet, nada." Essas ligações humanas, tecidas ao longo dos anos em rotina, transformam-se em cordas de salvação quando chega a tempestade.
Citazioni salienti
Existe sempre o risco de uma ilha ficar completamente isolada em caso de catástrofes naturais, apesar dos avanços tecnológicos em satélites— Bruno Farias, secretário da Associação de Radioamadores dos Açores
Pela primeira vez juntaram-se todas as associações dos Açores durante o furacão Gabrielle— Bruno Farias