Mais de 33 milhões de eleitores não compareceram ao primeiro turno, número que merece análise além de simplificações sobre comportamento político. Trabalhadores em jornadas extensas, cuidadores domésticos e pessoas sem controle sobre seu tempo enfrentam barreiras reais para votar.
Quem tem tempo para votar? O acesso ao voto além da descrença política
Quem pode organizar o domingo em torno da eleição talvez nem se pergunte
Então você está dizendo que 33 milhões de pessoas não votaram simplesmente porque não tinham tempo?
Não é tão simples assim. Havia muitas razões diferentes — descrença, doença, dificuldades de deslocamento. Mas para um número significativo delas, sim, o tempo era a barreira real. Garçons, faxineiros, seguranças privados trabalhavam enquanto o país votava.
Mas como sabemos quantas pessoas não votaram especificamente por causa do trabalho? O texto menciona 171 ocorrências em Porto Alegre, mas não há dados nacionais sobre quantas das 33 milhões foram impedidas por jornadas de trabalho.
É verdade, não temos um número exato. Mas a decisão de Porto Alegre mostra que era um problema real e documentado. E há também o trabalho não remunerado — cuidado de crianças, idosos, pessoas dependentes.
Então a questão é que o sistema não foi desenhado pensando em quem não controla seu próprio tempo?
Exatamente. Uma pessoa que mora perto da seção eleitoral e controla sua agenda pode votar em meia hora. Mas quem trabalha o dia inteiro ou cuida de dependentes enfrenta uma realidade completamente diferente.
O texto menciona que mulheres dedicam 21,3 horas semanais a afazeres domésticos contra 11,7 horas dos homens. Mas não há dados específicos sobre como isso afetou a abstenção feminina no primeiro turno.
Verdade. O que o texto faz é apontar a desigualdade estrutural que existe. Não é uma questão de motivação política, é uma questão de acesso real.
E a solução seria garantir que os serviços não essenciais fechassem no dia da eleição?
Sim, e que os empregadores garantissem condições efetivas de votação. A decisão de Porto Alegre foi nesse sentido — não basta dizer para votar antes ou depois do trabalho, é preciso dar tempo real.
Mas o texto não explica como isso funcionaria na prática para quem cuida de dependentes em casa. Fechar o comércio não resolve esse problema.
Você tem razão. Seria necessário pensar em soluções mais criativas para essas pessoas. O texto aponta o problema, mas não oferece todas as respostas.
Il Polso
- Mais de 33 milhões de eleitores não compareceram ao primeiro turno das eleições nacionais
- Justiça do Trabalho de Porto Alegre identificou 171 ocorrências de jornadas incompatíveis com votação em eleições anteriores
- Mulheres dedicam 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidado de pessoas, contra 11,7 horas dos homens
- Decisão de Porto Alegre determinou que empresas garantissem condições efetivas de votação aos empregados
Mais de 33 milhões de eleitores não compareceram ao primeiro turno, número que merece análise além de simplificações sobre comportamento político. Trabalhadores em jornadas extensas, cuidadores domésticos e pessoas sem controle sobre seu tempo enfrentam barreiras reais para votar.
Análise sobre 33 milhões de eleitores ausentes no primeiro turno das eleições nacionais, destacando como obstáculos de tempo e trabalho impedem o exercício do direito de voto, especialmente entre trabalhadores de baixa renda.
Quando o primeiro turno das eleições nacionais terminou, começou a proliferação de análises sobre quem era culpado pelos resultados. No centro de todas essas discussões estava um número que não podia ser ignorado: mais de 33 milhões de eleitores simplesmente não apareceram para votar. Um contingente dessa magnitude merecia mais do que explicações superficiais ou rótulos prontos. Era preciso fazer uma pergunta mais profunda: quem realmente tem tempo para votar?
Em 29 de setembro, a Justiça do Trabalho de Porto Alegre ofereceu uma pista concreta sobre essa questão. Um juiz concedeu uma decisão determinando que uma empresa de segurança e uma empresa de sistemas garantissem aos seus funcionários condições reais de votação. O Ministério Público do Trabalho havia investigado e encontrado 171 casos em eleições anteriores onde trabalhadores enfrentavam jornadas incompatíveis com o exercício do voto. Alguns deles trabalhavam das sete da manhã até as sete da noite. A decisão foi clara: simplesmente sugerir que alguém votasse antes ou depois do expediente não era suficiente. Era necessário garantir uma oportunidade genuína.
Essa sentença revelava algo que as análises políticas costumavam ignorar. Quando se tentava explicar a ausência de 33 milhões de pessoas, havia uma tendência de tratar a população pobre como um bloco monolítico, como se todos compartilhassem as mesmas razões para não votar. Mas pessoas pobres, como qualquer outro grupo social, tinham convicções próprias, contradições e motivos legítimos para criticar governos. O que importava era que dentro daquele número gigantesco havia razões muito diferentes: descrença nas candidaturas, doença, eventos climáticos, dificuldades de deslocamento, ou simplesmente não saber onde votar. Cada uma dessas razões merecia atenção apropriada, mas todas acabavam reunidas em uma única estatística que obscurecia a verdadeira complexidade.
Uma análise mais cuidadosa revelava como classe, raça e gênero se entrelaçavam na distribuição das condições para participar politicamente. Garçons, cozinheiras, camareiras, faxineiros, motoristas e seguranças continuavam trabalhando enquanto o país votava. Para quem morava perto da seção eleitoral e controlava sua própria agenda, votar era uma breve interrupção do domingo, talvez até um passeio agradável: votar na escola da infância e depois se reunir para almoçar. Mas para quem dependia de um patrão para sair do trabalho, a situação era completamente diferente. Uma sociedade construída sobre a escravidão e acostumada a ser servida tendia a considerar natural a disponibilidade permanente do tempo alheio. Quem podia organizar seu domingo em torno da eleição talvez nunca se perguntasse se a pessoa que preparou sua comida ou limpou seu quarto conseguiu chegar até a urna.
O problema se estendia além do trabalho remunerado. Quem cuidava das crianças, dos idosos e das pessoas dependentes enquanto os outros saíam para votar? E essa pessoa cuidadora conseguia tempo para votar? Segundo dados de 2022, as mulheres dedicavam em média 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, enquanto os homens dedicavam 11,7 horas. Por que essa desigualdade desapareceria no domingo da eleição? Para essas pessoas, um apelo em uma rede social pedindo para votarem no segundo turno tinha pouca ou nenhuma efetividade. Não eram pessoas que deixavam de votar porque eram "de direita", "burras" ou "fascistas". Eram pessoas que enfrentavam obstáculos estruturais reais.
A Constituição brasileira estabelecia que a soberania popular seria exercida pelo sufrágio universal e tornava o voto obrigatório, com exceções constitucionais. Assegurar condições para seu exercício era responsabilidade do poder público e exigia o cumprimento das obrigações dos empregadores. Um contingente de 33 milhões de ausentes exigia respostas dos partidos e dos políticos, mas deveria mobilizar também a Justiça Eleitoral. Além das campanhas de incentivo ao voto, era necessário investigar as ausências que decorrem de obstáculos que as instituições deveriam ajudar a remover. A prestação da Justiça Eleitoral precisava ser avaliada pela sua capacidade de assegurar condições efetivas de participação.
A decisão de Porto Alegre precisava se tornar um paradigma nacional. Com efeitos para todos os serviços não essenciais nas cinco regiões do país no dia 25 de outubro, seria possível proporcionar fiscalização, meios, tempo e direito para que pessoas de todas as classes sociais pudessem votar. Sem isso, continuaria havendo milhões de cidadãos impedidos de exercer um direito fundamental não por falta de vontade, mas por falta de tempo.
Citazioni salienti
É preciso garantir uma oportunidade real de votação, não apenas sugerir que se vote antes ou depois do expediente— Decisão da Justiça do Trabalho de Porto Alegre
Uma análise interseccional permite compreender como classe, raça e gênero se articulam na distribuição das condições de participação política— Análise do texto