Quase 40% dos portugueses trabalham com contrato a termo, com jovens mais afetados

Milhões de trabalhadores portugueses, particularmente jovens, enfrentam insegurança laboral e económica devido à prevalência de contratos temporários sem garantias de continuidade.
Sete em cada dez jovens portugueses trabalham sem garantias de continuidade
Em 2019, 69,1% dos trabalhadores entre 15 e 24 anos tinham contratos a termo, refletindo a precariedade estrutural do mercado laboral para gerações mais jovens.
Mark

Porque é que os jovens são tão mais afetados do que os trabalhadores mais velhos?

Mimi

Porque entram no mercado quando a precariedade já é norma. Um trabalhador de 50 anos pode ter um contrato permanente que conseguiu há 20 anos. Um de 20 anos nunca conheceu outra realidade.

Mark

Mas o ensino superior deveria proteger contra isto, não é?

Mimi

Protege, parcialmente. Um licenciado tem menos probabilidade de estar em contrato a termo — 27,5% contra 41,3% para quem tem secundário. Mas mesmo assim, mais de um quarto está precário. A educação abre portas, mas não garante estabilidade.

Mark

E as mulheres? Parecem estar ligeiramente melhor do que os homens.

Mimi

Por apenas 2,4 pontos percentuais. É uma diferença tão pequena que não muda a realidade: ambos estão precários. O que importa é que quase 35% das mulheres e quase 37% dos homens não têm contratos permanentes.

Mark

Isto aconteceu gradualmente ou foi uma mudança abrupta?

Mimi

Gradual, mas consistente. De 24% para 36% em nove anos é uma transformação lenta o suficiente para passar despercebida, mas rápida o suficiente para ser estrutural. Não é um acidente; é uma escolha do mercado.

Mark

O que significa isto para alguém que tem 22 anos e acaba de entrar no mercado de trabalho?

Mimi

Significa que tem 69% de probabilidade de estar num contrato que pode terminar em qualquer momento. Significa dificuldade em pedir um crédito para casa, em fazer planos, em construir uma vida estável. É uma insegurança que molda tudo.

  • A taxa de contratos temporários em Portugal saltou de 24% para 36% numa única década, sinalizando uma precarização acelerada e sistemática do emprego.
  • Os jovens entre os 15 e os 24 anos são os mais expostos, com quase 70% a trabalhar sem garantias de continuidade — uma geração inteira a construir a vida sobre areia.
  • Mesmo a educação superior, tradicionalmente vista como escudo, não protege plenamente: mais de um quarto dos licenciados também vive sob contratos a termo.
  • Empresas ganham flexibilidade para ajustar rapidamente os seus quadros, mas os trabalhadores perdem a capacidade de fazer planos, acumular direitos e projetar o futuro.
  • A tendência não dá sinais de reversão, apontando para um mercado laboral onde a instabilidade deixou de ser exceção para se tornar norma geracional.

Ao longo da última década, o mercado de trabalho português reconfigurou-se silenciosamente: o que em 2010 afetava um em cada quatro trabalhadores tornou-se, em 2019, a realidade de quase quatro em cada dez. Esta transformação não é uma turbulência passageira, mas uma mudança estrutural que pesa de forma desproporcional sobre os jovens — aqueles que chegam ao mundo do trabalho sem ainda terem construído raízes, e que agora o fazem sem a segurança de as poderem lançar.

Em 2010, um em cada quatro portugueses trabalhava com contrato a termo. Uma década depois, esse número aproximava-se de quatro em cada dez. Os dados, recolhidos pela plataforma Brighter Future da Fundação José Neves a partir dos Quadros de Pessoal, revelam uma transformação profunda — e as suas consequências mais duras recaem sobre os mais jovens.

A subida de 24% para 36% entre 2010 e 2019 foi consistente e transversal. Homens e mulheres foram igualmente atingidos, com taxas de 36,7% e 34,3% respetivamente. Mas é na dimensão geracional que o fenómeno se torna mais perturbador: nos trabalhadores com menos de 35 anos, o aumento foi de cerca de 17 pontos percentuais ao longo da década. Entre os 15 e os 24 anos, 69,1% estavam em contratos a termo em 2019; na faixa dos 25 aos 34 anos, a proporção era de 47,1%.

A educação atenua, mas não resolve. Os trabalhadores com ensino superior registavam a menor taxa de precariedade — 27,5% —, ainda assim superior a um quarto do total. Os detentores de ensino secundário chegavam aos 41,3%, e os com ensino básico aos 35,2%. A vantagem do diploma é real, mas insuficiente para garantir estabilidade.

O que estes números descrevem é um mercado que se tornou mais flexível para as empresas e mais incerto para as pessoas. Para os jovens portugueses, a entrada na vida ativa significa hoje contratos que terminam, renovações imprevisíveis e dificuldade em construir qualquer projeto de vida a médio prazo. Tudo indica que esta não é uma fase de transição, mas uma nova condição permanente.

Em 2010, um em cada quatro portugueses trabalhava com contrato a termo. Uma década depois, esse número tinha crescido para quase quatro em cada dez. Os dados, compilados pela plataforma Brighter Future da Fundação José Neves a partir dos Quadros de Pessoal — relatórios anuais que todas as empresas entregam ao Ministério do Trabalho — revelam uma transformação profunda no mercado laboral português, com consequências particularmente agudas para os mais jovens.

O crescimento foi consistente ao longo dos anos 2010, passando de 24% para 36% em 2019. Mas essa média nacional esconde disparidades significativas. Entre os homens, a taxa de contratação temporária atingiu 36,7% nesse ano, enquanto entre as mulheres ficou em 34,3%. A diferença é pequena, mas revela que a precariedade não poupa ninguém.

O que realmente distingue este fenómeno é o seu impacto geracional. Nos trabalhadores com menos de 35 anos, o aumento foi de cerca de 17 pontos percentuais ao longo da década — uma mudança estrutural, não uma flutuação. Entre os 15 e os 24 anos, 69,1% estavam em contratos a termo em 2019. Para a faixa dos 25 aos 34 anos, a proporção era de 47,1%. Estes números significam que a maioria dos jovens portugueses entra no mercado de trabalho sem a segurança de um contrato permanente, sem garantias de continuidade, sem a possibilidade de fazer planos a médio prazo.

A educação oferece alguma proteção, mas incompleta. Os trabalhadores com ensino superior apresentavam a menor taxa de precariedade: 27,5% em contratos a termo. Ainda assim, mais de um quarto deles não tinha estabilidade contratual. Aqueles com ensino secundário enfrentavam 41,3% de precariedade, e os com apenas ensino básico chegavam aos 35,2%. A diferença entre o ensino superior e o secundário é de quase 14 pontos percentuais — uma vantagem real, mas que não elimina o problema.

O que estes números revelam é um mercado de trabalho que se tornou progressivamente mais flexível, ou mais precário, dependendo da perspetiva. As empresas ganharam capacidade de ajustar rapidamente os seus efetivos. Os trabalhadores perderam segurança. Para os jovens, esta é a realidade que encontram quando começam a trabalhar: contratos que terminam, renovações incertas, dificuldade em acumular direitos ou fazer planos de vida. A tendência sugere que esta não é uma situação temporária, mas uma transformação estrutural do mercado laboral português.

A contratação temporária aumentou mais nos jovens (menos de 35 anos) na última década, com cerca de 69,1% dos trabalhadores dos 15 aos 24 anos em contratos a termo
— Fundação José Neves, plataforma Brighter Future
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