Quase 1,6 mil militares recebem mais de R$ 100 mil mensais

Um tapa na cara do povo brasileiro que está em crise
Crítica do deputado Elias Vaz sobre os pagamentos extraordinários a militares enquanto população enfrenta dificuldades econômicas.
Mark

Como um coronel descrito como "militar da ativa" recebe mais de 600 mil reais em um mês?

Mimi

A maior parte vem de uma rubrica chamada "outras remunerações eventuais" — 733 mil reais em seu caso. Os registros dizem apenas que são "valores decorrentes de atrasos", mas não especificam atrasos de quê ou desde quando.

Mark

E o Ministério da Defesa explica isso?

Mimi

Sim, mas de forma genérica. Dizem que são indenizações por férias não usufruídas e direitos acumulados na carreira. O problema é que isso não aparece claro nos contracheques individuais — você vê o número, mas não o detalhamento.

Mark

Pazuello recebeu 305 mil reais. Ele era ministro da Saúde, não estava na ativa.

Mimi

Exatamente. Ele passou para a reserva remunerada em março. Recebeu uma remuneração básica de 32 mil reais mais 282 mil em verbas indenizatórias. Também justificado como "atrasos".

Mark

Isso é legal?

Mimi

Segundo o governo, sim. Todos os valores estão no Portal da Transparência e passam por órgãos de controle. Mas a legalidade não responde à pergunta política: por que alguns militares recebem essas quantias extraordinárias e outros não?

Mark

Quantos militares estamos falando?

Mimi

Quase 1.600 em cinco meses. Juntos, receberam 262 milhões de reais. Não é um caso isolado — é um padrão.

Mark

E os outros servidores federais?

Mimi

Professores e enfermeiros não recebem nada parecido. É aí que o deputado Vaz vê o problema: um privilégio concentrado em um grupo específico enquanto o país enfrenta crise econômica.

  • Um coronel do Exército recebeu R$ 603 mil em abril — cerca de mil vezes o valor médio do Auxílio Brasil pago naquele mesmo mês.
  • Registros oficiais classificam os valores como 'outras remunerações eventuais' e 'atrasos', sem explicações detalhadas, alimentando desconfiança sobre a opacidade dos pagamentos.
  • O Ministério da Defesa defende a legalidade dos repasses, atribuindo-os a férias não gozadas e direitos acumulados ao longo de carreiras militares, especialmente na passagem para a reserva.
  • O deputado Elias Vaz denuncia a concentração de benefícios em um grupo restrito enquanto professores, enfermeiros e a população em geral enfrentam escassez — chamando os pagamentos de 'um tapa na cara do povo brasileiro'.
  • A divulgação dos dados reacende o debate sobre como o Estado distribui recursos públicos entre diferentes categorias de servidores e qual o custo real dessa hierarquia de privilégios.

Em meio a uma das maiores crises econômicas da história recente do Brasil, registros públicos revelam que 1.559 militares das Forças Armadas receberam, entre janeiro e maio de 2022, pagamentos mensais superiores a R$ 100 mil — totalizando R$ 262,5 milhões em cinco meses. No topo dessa lista, um coronel do Exército recebeu mais de R$ 603 mil em um único mês, quantia equivalente a 38 anos de salário mínimo. O episódio coloca em relevo uma tensão antiga e profunda: a distância entre os privilégios acumulados por certas categorias do Estado e a realidade vivida pela maioria dos brasileiros.

Entre janeiro e maio de 2022, quase 1.600 militares das três Forças Armadas receberam contracheques mensais acima de R$ 100 mil. Somados, seus vencimentos líquidos chegaram a R$ 262,5 milhões em apenas cinco meses. Entre os nomes, figuram oficiais que passaram pelo governo Bolsonaro, como o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, que em março recebeu R$ 305 mil ao ingressar na reserva remunerada do Exército.

Mas Pazuello ficou longe do topo. O maior contracheque pertence ao coronel James Magalhães Sato, do Comando do Exército: em abril, seu pagamento líquido foi de R$ 603.398,92 — equivalente a 38 anos de salário mínimo e aproximadamente mil vezes o valor médio do Auxílio Brasil naquele período. Sua remuneração básica mensal é de R$ 22,4 mil, mas em abril foi acrescida de R$ 733,8 mil classificados como 'outras remunerações eventuais', com a observação de 'valores decorrentes de atrasos'. O coronel não respondeu aos contatos da reportagem.

O segundo maior pagamento foi de um major-brigadeiro da Aeronáutica em São Paulo, que recebeu R$ 405,7 mil em março, com justificativa de estar 'em ajuste de contas' antes de deixar a ativa. Levantamentos do deputado Elias Vaz identificaram ainda um aeronauta com vencimentos brutos de R$ 818 mil em junho de 2021 e outro que dirigiu a Anac com R$ 719,7 mil brutos em novembro do mesmo ano.

O Ministério da Defesa atribui os valores a indenizações por férias não usufruídas e direitos acumulados ao longo da carreira, afirmando que tudo está publicado no Portal da Transparência e submetido a órgãos de controle. Para o deputado Elias Vaz, porém, trata-se de um privilégio concentrado em poucos, enquanto professores, enfermeiros e a população em geral enfrentam uma crise econômica severa. 'É um tapa na cara do povo brasileiro', afirmou, questionando a disparidade entre essas benesses e o que chega aos demais servidores federais.

Entre janeiro e maio de 2022, quase mil e seiscentos militares das três Forças Armadas receberam contracheques mensais superiores a cem mil reais. Somados todos os seus vencimentos líquidos — já descontados impostos e contribuições previdenciárias — o total chegou a 262 milhões e meio de reais em apenas cinco meses. Os nomes incluem oficiais que passaram pelo governo Jair Bolsonaro, como o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, que em março embolsou 305 mil reais líquidos ao ingressar na reserva remunerada do Exército.

Mas Pazuello ficou longe do topo. O maior contracheque pertence a um coronel de 47 anos chamado James Magalhães Sato, lotado no Comando do Exército. Em abril, seu pagamento líquido foi de 603 mil e 398 reais — uma quantia equivalente a 38 anos de trabalho de alguém ganhando o salário mínimo vigente, de 1.212 reais. Para colocar em perspectiva: o valor é aproximadamente mil vezes maior que o Auxílio Brasil, que naquele mês teria valor médio de 607 reais por beneficiário.

Os registros do Exército descrevem Sato como "militar da ativa". Sua remuneração básica mensal é de 22 mil e 400 reais — já um valor considerável. Mas em abril, seus vencimentos foram acrescidos de uma verba extraordinária de 733 mil e 800 reais, classificada nos registros como "outras remunerações eventuais". O campo de observações menciona apenas "valores decorrentes de atrasos", sem maiores explicações. Quando procurado, o coronel não respondeu.

O segundo maior contracheque pertence a um major-brigadeiro da Aeronáutica que trabalha no Quarto Comando Aéreo Regional em São Paulo desde fevereiro. Em março, recebeu 405 mil e 700 reais líquidos, incluindo 376 mil e 800 reais em "outras remunerações eventuais". A justificativa oficial é que o militar estava "em ajuste de contas", preparando-se para deixar a ativa. Levantamento feito pela equipe do deputado Elias Vaz encontrou ainda um aeronauta cujos vencimentos brutos chegaram a 818 mil reais em junho de 2021, e outro que ocupou a direção da Agência Nacional de Aviação Civil com rendimentos brutos de 719 mil e 700 reais em novembro anterior.

O Ministério da Defesa justifica esses valores como indenizações pontuais e atrasados. Segundo nota oficial, referem-se ao recebimento de férias não usufruídas ao longo da carreira ou a outros direitos acumulados, calculados quando militares passam para a reserva. A pasta afirma que as Forças Armadas cumprem rigorosamente a legislação vigente e que todos os valores são publicados no Portal da Transparência, submetidos à fiscalização de órgãos de controle. Pazuello, por sua vez, declarou apenas que "todos os valores recebidos foram pagos conforme a legislação vigente".

O deputado Elias Vaz vê a questão de forma diferente. Para ele, trata-se de um privilégio concentrado em um grupo específico das Forças Armadas enquanto o país enfrenta uma das piores crises econômicas dos últimos tempos. "É um tapa na cara do povo brasileiro", disse Vaz, ressaltando que esses benefícios não abrangem todos os militares nem chegam a outros servidores federais como professores e enfermeiros. A disparidade levanta questões sobre como recursos públicos são distribuídos entre diferentes categorias de servidores do Estado.

É um tapa na cara do povo brasileiro, que está passando por uma das piores crises dos últimos tempos. Fica claro que há uma conduta do governo Bolsonaro que privilegia um grupo das Forças Armadas
— Deputado Elias Vaz (PSB-GO)
Todos os valores recebidos foram pagos conforme a legislação vigente
— General Eduardo Pazuello
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