Ex-presidente irlandesa Mary Robinson relata deterioração grave na Cisjordânia desde 2023, com aldeias atacadas diariamente e violência sistemática contra palestinos. Grupo formado por Robinson, Graça Machel, Helen Clark e Hina Jilani confrontou presidente israelense Herzog sobre resposta desproporcional e advocou libertação de Marwan Barghouti.
Quarteto de mulheres líderes denuncia anexação israelense na Cisjordânia
O direito histórico à autodeterminação não pode desaparecer
Por que essas quatro mulheres em particular? O que as torna capazes de dizer coisas que outros não conseguem?
Elas vêm de lugares onde poder real foi exercido. Robinson presidiu um país, Machel reconstruiu educação após guerra civil, Clark liderou uma nação. Não são ativistas de sofá. Quando falam, falam de experiência.
E Herzog os recebeu. Por quê?
Porque elas têm legitimidade internacional que não pode ser descartada facilmente. Recusá-las seria admitir que não há espaço para diálogo. Mas o diálogo que tiveram foi tenso — elas não vieram para concordar.
Elas mencionaram Marwan Barghouti especificamente. Por que ele importa tanto?
Porque ele representa a possibilidade de negociação real. Ele acredita em dois Estados, não na destruição de Israel. Se estivesse livre, poderia ser um interlocutor credível com os palestinos. Sua prisão é um símbolo de que Israel não quer negociar.
E a Jordânia? Por que o risco de êxodo para lá é tão importante?
Porque a Jordânia já abriga centenas de milhares de refugiados palestinos dos conflitos anteriores. Mais um êxodo em massa desestabilizaria a região inteira. Não é apenas um problema palestino — é um problema de segurança regional.
Robinson disse que Netanyahu quer fazer a Palestina desaparecer. Isso é análise ou acusação?
É ambos. É o que ela viu com seus próprios olhos — aldeias atacadas diariamente, terras sendo anexadas, população sendo expulsa. A conclusão não é especulação, é observação documentada.
The Pulse
- Mary Robinson, 84 anos, ex-presidente da Irlanda, visitou Cisjordânia em agosto de 2026
- Grupo de quatro mulheres líderes: Robinson, Graça Machel, Helen Clark e Hina Jilani
- Aldeias palestinas sofrem ataques múltiplas vezes por dia; postos de saúde funcionam uma vez ao mês
- Mais de 70 mil mortos em Gaza; Marwan Barghouti preso há 24 anos em Israel
- Eleições israelenses marcadas para outubro de 2026; risco de êxodo massivo de palestinos para Jordânia
Ex-presidente irlandesa Mary Robinson relata deterioração grave na Cisjordânia desde 2023, com aldeias atacadas diariamente e violência sistemática contra palestinos. Grupo formado por Robinson, Graça Machel, Helen Clark e Hina Jilani confrontou presidente israelense Herzog sobre resposta desproporcional e advocou libertação de Marwan Barghouti.
Mary Robinson e três líderes globais visitam Cisjordânia e denunciam anexação israelense de terras palestinas, acusando governo Netanyahu de buscar desaparecimento físico, econômico e político da Palestina.
Mary Robinson voltou à Cisjordânia depois de três anos e o que encontrou a deixou sem ilusões. A ex-presidente irlandesa, hoje com 84 anos, havia visitado aquele território em 2023 e o considerava perturbador. Desta vez, porém, a deterioração era visível e inegável: um processo de anexação israelense de terras palestinas se desenrolava abertamente, agressivo e sistemático. Na carta que escreveu depois, Robinson foi direto ao ponto: o governo do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, em sua avaliação, trabalha para fazer a Palestina desaparecer — não apenas territorialmente, mas também em suas dimensões econômica, cultural e política.
Robinson não estava sozinha nesta missão. Ela viajou acompanhada por três mulheres de peso internacional: Graça Machel, que foi ministra da Educação de Moçambique e viúva tanto do primeiro presidente daquele país quanto do próprio Nelson Mandela; Helen Clark, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia; e Hina Jilani, advogada paquistanesa dedicada à defesa dos direitos humanos. As quatro integram The Elders, organização fundada por Mandela em 2007 que reúne líderes globais comprometidos com paz e justiça. A organização já perdeu alguns de seus membros fundadores — Jimmy Carter e Desmond Tutu, ambos Prêmio Nobel da Paz, já faleceram — mas mantém outros como membros eméritos, incluindo os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Ricardo Lagos.
O que Robinson viu nas aldeias palestinas foi sistemático e repetido. Comunidades inteiras enfrentavam ataques múltiplas vezes por dia. Postos de saúde funcionavam apenas uma vez ao mês, deixando a população sem acesso regular a cuidados médicos. Em um momento, o grupo precisou fugir de carro quando colonos judeus de um assentamento próximo os ameaçaram. Robinson documentou as várias camadas da violência que testemunhou — não era um incidente isolado, mas um padrão.
O quarteto foi recebido por Isaac Herzog, presidente de Israel, cujo cargo é principalmente representativo. Herzog argumentou que a comunidade internacional não compreende o que Israel vivenciou em 7 de outubro de 2023, quando ataques do Hamas mataram centenas de pessoas. As mulheres ouviram o argumento, mas não o aceitaram como justificativa. Responderam que, por mais horríveis que fossem aqueles crimes, a resposta israelense havia sido desproporcional — uma devastação que deixou mais de 70 mil mortos em Gaza. Elegantes mas diretas, questionaram Herzog também sobre o aumento da violência doméstica e dos suicídios dentro de Israel, fenômenos que crescem enquanto o conflito se intensifica.
Um dos pontos centrais da conversa foi a libertação de Marwan Barghouti, ex-líder do Fatah e defensor da solução de dois Estados. Barghouti, frequentemente chamado de "Mandela da Palestina", cumpre há 24 anos uma sentença em prisão israelense, tendo sido submetido a torturas. Para Robinson e suas companheiras, sua libertação poderia abrir caminhos genuínos para negociações de paz. De Jerusalém, o grupo seguiu para Bruxelas, onde pressionou a União Europeia por ação mais incisiva no fim dos conflitos. A próxima parada será a Assembleia-Geral da ONU em Nova York, em setembro.
O timing desta missão não é casual. Netanyahu e sua coalizão ultradireitista enfrentam eleições em outubro e precisam consolidar apoio político. O plano de paz proposto por Donald Trump — que incluía o desarmamento do Hamas — está desmoronando enquanto os ataques a Gaza continuam. Observadores internacionais alertam sobre hostilidades israelenses crescentes na mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, um local sagrado para o islã que poderia desencadear uma revolta do mundo muçulmano. E subjacente a tudo isso está o risco real de um êxodo massivo: palestinos deserdados de suas terras sendo empurrados para a vizinha Jordânia em ondas sucessivas. Robinson encerrou sua carta com uma afirmação simples mas contundente: o direito histórico do povo palestino à autodeterminação não pode desaparecer. A questão agora é se alguém com poder para agir está ouvindo.
Notable Quotes
O governo do primeiro-ministro Netanyahu pretende fazer com que a Palestina desapareça física, econômica, cultural e politicamente— Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda
Aqueles crimes horríveis não justificam a resposta desproporcional de Israel— Posição do quarteto de mulheres líderes ao presidente Herzog