Putin e Irã viraram o jogo da guerra, afirma Pepe Escobar

O Irã que existia até 50, 60 dias atrás não existe mais
Escobar descreve a transformação do Irã após o conflito, emergindo como potência capaz de impor condições diplomáticas.

Irã condiciona retomada de negociações nucleares ao término da guerra e garantias internacionais, rejeitando modelo anterior de discussões. Rússia sinaliza apoio estratégico ao Irã, alterando profundamente o equilíbrio de forças e tornando Moscou essencial para qualquer resolução do conflito.

  • Abbas Araghchi visitou São Petersburgo e foi recebido por Putin e Lavrov
  • Irã condiciona negociações nucleares ao fim da guerra e garantias internacionais
  • Irã e Omã discutem novo modelo de administração do Estreito de Ormuz com possível cobrança de pedágio
  • Putin dedicou uma hora e meia ao encontro com o chanceler iraniano
  • Rússia sinaliza apoio estratégico essencial para qualquer resolução do conflito

Analista Pepe Escobar afirma que encontro entre líderes iranianos e russos em São Petersburgo marca inflexão na guerra, com Irã emergindo mais forte e condicionando negociações nucleares ao fim do conflito.

Abbas Araghchi chegou a São Petersburgo em maio de 2026 com uma mensagem clara: o Irã que o mundo conhecia havia desaparecido. O chanceler iraniano foi recebido por Vladimir Putin e Sergei Lavrov em um encontro que o analista geopolítico Pepe Escobar descreveu como um ponto de virada na guerra que envolve Teerã, Washington e seus aliados no Oriente Médio. Antes de chegar à Rússia, Araghchi havia percorrido uma rota diplomática intensa: Islamabad, onde conversou com mediadores paquistaneses; Omã, onde foi recebido pelo sultão; de volta ao Paquistão; e finalmente São Petersburgo. Cada parada tinha um propósito: apresentar a nova posição iraniana para futuras negociações com os Estados Unidos.

Essa nova posição iraniana é radical em sua simplicidade. O Irã não voltará a negociar seu programa nuclear nos termos antigos. Segundo Escobar, Teerã deixou claro que qualquer discussão sobre armas nucleares está agora subordinada a três condições: o fim definitivo da guerra, garantias internacionais de segurança e o alívio das sanções que sufocam a economia do país. Apenas depois que esses três pontos forem resolvidos é que o dossiê nuclear voltaria à mesa de negociações. Trump rejeitou essa abordagem, uma reação que Escobar interpretou como reveladora da dificuldade americana em aceitar a nova correlação de forças que emergiu do conflito.

No centro dessa nova realidade está o Estreito de Ormuz, a passagem estratégica por onde flui grande parte do petróleo global. Irã e Omã começaram a discutir um modelo completamente novo de administração dessa rota. Segundo a interpretação conjunta de Teerã e Mascate, não existem águas internacionais no estreito — a passagem seria dividida apenas entre águas territoriais iranianas e omanenses. Isso abre a possibilidade de cobrança de pedágio, potencialmente em moeda iraniana, uma medida que poderia fortalecer o rial e reduzir a vulnerabilidade do país a ataques financeiros e sanções. O parlamento iraniano estava prestes a analisar esse modelo nos dias e semanas seguintes.

O encontro entre Araghchi e Putin em São Petersburgo ganhou peso simbólico desproporcional. Putin dedicou uma hora e meia ao chanceler iraniano — um tempo extraordinário em termos diplomáticos, segundo Escobar. O conteúdo mais sensível da reunião não foi divulgado, mas o analista defendeu que Rússia, Irã e China haviam começado a coordenar respostas geopolíticas diante da pressão americana. Putin respondeu a uma mensagem do aiatolá Ali Khamenei com respeito político e reforçou a dimensão estratégica da relação entre Moscou e Teerã. Em uma declaração sobre a luta iraniana por independência e soberania, Putin afirmou: "Da nossa parte nós vamos fazer tudo que sirva aos interesses de todos os povos da região". Para Escobar, essa fala tinha peso simbólico e político profundo.

A entrada da Rússia nesse jogo muda tudo. Escobar foi direto: não haverá resolução da guerra sem participação de Moscou. Ele descreveu Rússia e Irã como "dois estados-civilização milenares, soberanos e independentes", unidos pela resistência à pressão anglo-americana. Washington, na sua avaliação, subestimou mais uma vez a capacidade estratégica persa. Os Estados Unidos confundiram diplomacia com coerção, com "pressão máxima", tornando inviável o modelo anterior de negociação.

Trump enfrenta agora um impasse estratégico. Terá de prestar esclarecimentos ao Congresso sobre uma guerra que, segundo Escobar, seria impopular mesmo em Washington. Ainda existe risco de novo ataque americano contra o Irã antes do fim do prazo político interno, mas qualquer ação militar teria de levar em conta um Irã mais forte e apoiado por Moscou. "A diferença é que agora o império da pirataria vai ter que lidar imperativamente com o novo poderoso Irã que está surgindo por causa dessa guerra", disse Escobar.

O ponto central é que o modelo de negociação anterior está morto. A partir daquele momento em São Petersburgo, os Estados Unidos teriam de lidar com uma nova realidade regional: um Irã que emergiu do conflito com maior capacidade de impor condições, uma Rússia decidida a participar do processo diplomático, e o Estreito de Ormuz no centro da disputa geopolítica global.

O Irã não vai mais negociar sobre o seu programa nuclear como era antes, porque isto está subordinado ao final da guerra
— Pepe Escobar, analista geopolítico
Da nossa parte nós vamos fazer tudo que sirva aos interesses de todos os povos da região
— Vladimir Putin, presidente russo
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que esse encontro em São Petersburgo é tão importante? Parece apenas mais uma reunião diplomática.

Model

Porque marca o momento em que o Irã deixa de ser um país sob pressão e passa a ser um que impõe condições. Araghchi não foi lá pedir nada — foi apresentar exigências.

Inventor

E a Rússia? Por que Putin dedicou tanto tempo a essa conversa?

Model

Porque Moscou entendeu que o Irã agora é um ator indispensável. Sem a Rússia na mesa, não há acordo possível. Putin está sinalizando que a Rússia está dentro do jogo.

Inventor

Esse negócio do Estreito de Ormuz parece uma mudança radical. Como cobrar pedágio em uma rota internacional?

Model

Não é internacional, segundo Irã e Omã. É água territorial dividida entre dois países. Se isso for aceito, muda completamente quem controla o fluxo de petróleo global.

Inventor

E se Trump atacar de novo?

Model

Agora o Irã não está sozinho. Tem Rússia ao lado. Um ataque teria consequências muito maiores do que antes. Washington sabe disso.

Inventor

Então o Irã venceu?

Model

Não é vitória ou derrota ainda. É um novo tabuleiro. O Irã emergiu mais forte, mas a guerra continua. O que mudou é que agora ninguém pode resolver isso sem Moscou.

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