A três semanas do primeiro turno, o PT convoca o país para uma mobilização descentralizada que é, em essência, um ato de autocrítica e recomeço. A campanha de Lula enfrenta o peso simultâneo de pesquisas desfavoráveis, falhas logísticas admitidas e uma crise no Supremo que embaralhou alianças e imagens. Como tantas vezes na história política brasileira, o partido busca na rua a energia que os bastidores não conseguiram preservar.
PT reorganiza campanha e convoca mobilização nacional para domingo
Ninguém pode ficar 40 anos no mesmo cargo
Por que o PT escolheu justamente este domingo para essa mobilização? Parece uma data muito específica.
É simbólica em dois sentidos. Primeiro, 13 é o número do PT na urna eletrônica — tem peso emocional para a militância. Segundo, marca exatamente três semanas para o primeiro turno. É um momento de inflexão: a campanha estava caindo nas pesquisas, havia críticas internas sobre desorganização, e a crise no STF estava danificando a imagem do presidente.
Mas qual é a evidência de que essa mobilização vai mudar alguma coisa? Atos de rua movem pesquisa?
Não é só sobre pesquisa. É sobre retomar narrativa. O PT estava na defensiva — Lula associado a Moraes, a campanha com erros logísticos, Flávio Bolsonaro avançando. Essa mobilização é um sinal de que o partido está reorganizado e ofensivo de novo.
Fale sobre os erros logísticos. O que exatamente deu errado?
O PT descentralizou a produção de materiais de campanha — panfletos, bandeiras — para os diretórios estaduais. A ideia era que cada estado produzisse o seu. Mas nem todos os estados têm gráficas com a mesma estrutura. Alguns não conseguiram produzir e distribuir. A militância reclamava que não tinha material nas bases.
Então eles reconheceram o erro e voltaram a centralizar. Isso é bom, mas também mostra que a campanha estava improvisando até pouco tempo atrás, três semanas antes do primeiro turno.
Exatamente. Edinho Silva admitiu publicamente: "É evidente que é um erro de planejamento". Não tentaram esconder.
E quanto à crise no STF? Como isso afeta Lula especificamente?
Lula é associado ao ministro Alexandre de Moraes. Moraes está sendo questionado por suas relações com um banqueiro, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Isso manchou a imagem do presidente, porque parece que ele está ligado a um ministro envolvido em escândalos.
Mas Lula não está sendo investigado por isso, certo? É Moraes que está sob escrutínio.
Correto. Mas na política, associação é tudo. Se o seu aliado está em apuros, você fica em apuros também, mesmo que indiretamente.
Qual é a estratégia de Lula para se desvincular de Moraes?
Ele está defendendo que "se investigue tudo e todos, doa a quem doer". E está colocando no discurso a necessidade de reforma do Judiciário, mandatos para ministros do STF. Quer parecer que está acima da briga, pensando no sistema como um todo.
Mas os ataques a Mendonça — o ministro que está mexendo nessa crise — não vão vir de Lula. Vão vir de dirigentes petistas e militantes. Por quê?
Porque Lula precisa manter uma certa distância, parecer presidencial. Se ele atacar Mendonça diretamente, parece que está interferindo no STF, o que é exatamente o que seus críticos já dizem que ele faz.
Então é um jogo de imagem muito cuidadoso.
Muito. Ele quer parecer que está acima da crise, enquanto o partido faz o trabalho sujo.
Der Puls
- O avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas e a turbulência no STF criaram uma janela de vulnerabilidade que a cúpula petista não pode ignorar.
- A Executiva Nacional reuniu-se em caráter de emergência após críticas internas contundentes: a campanha estava na defensiva e sem material suficiente nas bases.
- Edinho Silva admitiu publicamente o erro de descentralizar a produção gráfica — estados sem estrutura ficaram sem panfletos e bandeiras — e anunciou retorno à produção centralizada.
- A estratégia agora aposta em um Lula mais propositivo, com bandeiras como reforma do Judiciário e mandatos para ministros do STF, buscando separar sua imagem da de Alexandre de Moraes.
- Os atos de domingo — bandeiraços, carreatas, rodas de conversa — são o primeiro teste visível da campanha recalibrada, com Lula participando à distância por uma live às 18h.
A três semanas do primeiro turno, o PT convoca o país para uma mobilização descentralizada que é, em essência, um ato de autocrítica e recomeço. A campanha de Lula enfrenta o peso simultâneo de pesquisas desfavoráveis, falhas logísticas admitidas e uma crise no Supremo que embaralhou alianças e imagens. Como tantas vezes na história política brasileira, o partido busca na rua a energia que os bastidores não conseguiram preservar.
O PT escolheu o dia 13 de setembro — número do partido na urna e marco de três semanas para o primeiro turno — para lançar uma mobilização nacional descentralizada. Bandeiraços, carreatas, panfletagens e rodas de conversa foram convocados em cidades de todo o país, com diretórios municipais e movimentos sociais definindo seus próprios formatos e cadastrando os atos em uma plataforma unificada. Janja estaria em Brasília; Lula, sem sair às ruas, faria uma live pelo Zoom às 18h com militantes e apoiadores.
A decisão de reorganizar a campanha veio depois de três pressões que se acumularam ao mesmo tempo: queda nas pesquisas, críticas internas sobre a estratégia e uma crise institucional no STF que associou a imagem do presidente à de Alexandre de Moraes. A crise teve início em 1º de setembro, quando André Mendonça revelou mensagens entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro. O que se seguiu foi uma sequência de decisões e contra-decisões entre ministros — afastamentos na Polícia Federal, solidariedade de diretores, suspensões cruzadas — que manteve o tribunal no centro do noticiário por semanas.
Na quinta-feira anterior à mobilização, a Executiva Nacional reuniu-se em emergência. Edinho Silva, coordenador da campanha, ouviu críticas diretas e admitiu erros logísticos: a tentativa de descentralizar a produção de materiais falhou porque muitos estados não tinham estrutura gráfica adequada. O partido voltaria a centralizar a produção. 'É evidente que é um erro de planejamento', disse Edinho.
Além da logística, mudou também o tom. Lula passaria a apresentar propostas para o futuro — reforma do Judiciário, mandatos para ministros do STF, tipos penais mais duros para corrupção — em vez de apenas defender seu legado. Em entrevista ao SBT, o presidente disse que ninguém pode ficar quarenta anos no mesmo cargo e que pretendia ouvir a sociedade antes de formalizar propostas. Os ataques diretos ao ministro Mendonça, porém, ficariam a cargo de dirigentes e militantes, preservando a figura presidencial. A mobilização de domingo era o primeiro movimento visível dessa estratégia recalibrada.
O Partido dos Trabalhadores marcou para este domingo uma mobilização nacional em cidades de todo o país — bandeiraços, rodas de conversa, carreatas, panfletagens — com o objetivo explícito de recolocar a campanha de Lula em trajetória ascendente. A data não é casual: 13 de setembro coincide com o número do partido na urna eletrônica e marca exatamente três semanas para o primeiro turno das eleições, em 4 de outubro. Trata-se de um movimento de reorganização em resposta a três pressões simultâneas que têm minado a posição do presidente: queda nas pesquisas, críticas internas sobre a estratégia da campanha e uma crise institucional no Supremo Tribunal Federal que danificou sua imagem pública.
A mobilização será descentralizada. O PT pediu que diretórios municipais, coordenações estaduais e movimentos sociais definissem seus próprios locais, horários e formatos de atividade, depois cadastrando tudo em uma plataforma que reuniria e divulgaria os atos pelo país. A primeira-dama, Janja Lula da Silva, anunciou que estaria em Brasília durante o dia, com previsão de ato a partir das 9h30, embora sua equipe não tivesse confirmado o local até o fechamento da reportagem. O próprio presidente não sairia às ruas, mas faria uma live pelo Zoom às 18h para conversar com militantes, comunicadores, influenciadores e apoiadores.
A crise no STF que precipitou essa reorganização começou em 1º de setembro, quando o ministro André Mendonça retirou o sigilo de parte da investigação do caso Banco Master, revelando uma suposta troca de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro. Moraes reagiu encaminhando a Edson Fachin um pedido para investigar Mendonça por suspeitas de abuso de autoridade e improbidade administrativa. Fachin negou o pedido, mas em 8 de setembro Mendonça afastou preventivamente o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada, apontando suspeitas sobre a produção de relatórios da PF. A decisão provocou reação em cadeia: onze diretores da PF colocaram os cargos à disposição em apoio aos dois delegados. Flávio Dino determinou o retorno deles, apontando atropelos processuais. Fachin então suspendeu tanto a decisão de Mendonça quanto a de Dino, mantendo os dois delegados na PF enquanto analisava o impasse. No dia 10, Fachin pediu a derrubada do sigilo parcial e ordenou que Mendonça entregasse um HD com as informações à Presidência da Corte. No dia 11, o presidente do STF ordenou que Mendonça levantasse o sigilo total em 24 horas.
Na quinta-feira anterior à mobilização, a Executiva Nacional do PT convocou uma reunião de emergência em Brasília. Edinho Silva, coordenador da campanha e presidente do partido, ouviu críticas diretas: a campanha estava desorganizada, e Lula precisava sair da defensiva e retomar protagonismo na opinião pública. Tanto petistas quanto integrantes do Palácio do Planalto estavam preocupados com o avanço do senador Flávio Bolsonaro nas intenções de voto à Presidência. A crise no STF agravava o problema porque Lula era associado a Moraes, justamente no momento em que o ministro era questionado por suas relações com Vorcaro.
Edinho admitiu que a campanha havia cometido erros logísticos. O PT havia descentralizado a produção de materiais de campanha, atribuindo a função aos diretórios estaduais, mas a militância reclamava da falta de panfletos e bandeiras nas bases. Alguns estados não tinham estrutura de gráficas para produzir e distribuir adequadamente. O partido mudou de rota e voltaria a centralizar a produção em grandes centros. "É evidente que é um erro de planejamento", disse Edinho, explicando que tentaram fazer cada estado produzir seu próprio material, mas isso não funcionou por diferenças na capacidade logística regional.
A reorganização também incluiu uma mudança de tom. Lula passaria a ser mais enfático ao apresentar bandeiras para o futuro — reforma do Judiciário, propostas para combater o crime organizado — em vez de apenas destacar seu legado. A Executiva Nacional aprovou uma resolução defendendo mandatos para o Judiciário, sem definir prazo, além de tipos penais mais duros para corrupção, peculato e tráfico de influência. Em entrevista ao SBT, Lula falou sobre o assunto. Não cravou que o tema entraria no plano de governo, mas afirmou que pretendia conversar com a sociedade brasileira antes de elaborar uma proposta concreta. "Ninguém pode ficar 40 anos no mesmo cargo", disse, apontando também para a necessidade de discutir se um advogado pode ter um escritório trabalhando na Suprema Corte enquanto é ministro.
A campanha agora buscava elevar o tom e radicalizar o discurso, intensificando críticas não apenas a Flávio Bolsonaro, mas também ao ministro André Mendonça e sua atuação no caso Master. Simultaneamente, tentava desvincular a imagem de Lula da de Moraes. O presidente tem defendido que "se investigue tudo e todos, doa a quem doer". Os ataques a Mendonça, porém, não viriam da figura presidencial — a missão foi dada a dirigentes petistas e militantes. A mobilização de domingo era o primeiro movimento visível dessa estratégia recalibrada.
Bemerkenswerte Zitate
É evidente que é um erro de planejamento, porque tentamos fazer com que cada estado tivesse a sua elaboração de material e não funcionou— Edinho Silva, coordenador da campanha de Lula e presidente do PT
Ninguém pode ficar 40 anos no mesmo cargo. Vamos ter de discutir se um advogado pode ter um escritório trabalhando na Suprema Corte— Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República