Em democracias maduras, a linha entre arte e propaganda raramente é nítida — e é justamente nessa ambiguidade que o Partido dos Trabalhadores enxerga uma ameaça ao equilíbrio eleitoral. Ao denunciar formalmente à Polícia Federal e ao STF o filme 'Dark Horse', sobre Jair Bolsonaro, o PT questiona se dezenas de milhões de reais canalizados para uma produção cinematográfica com estreia prevista às vésperas das eleições de 2026 constituem, na prática, financiamento clandestino da pré-campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro. O caso coloca em tensão os limites entre liberdade de expressão,
PT pede investigação se orçamento de 'Dark Horse' virou caixa 2 da campanha de Flávio
Dezenas de milhões para exaltar uma figura política no auge da campanha
Por que o PT decidiu levar isso à Polícia Federal e ao Supremo agora, e não antes?
Porque o filme estava prestes a estrear em setembro, a menos de um mês das eleições. Quando você vê dezenas de milhões de reais sendo movimentados através de fundos no exterior, ligados a um candidato, e o produto final é uma cinebiografia que promove esse candidato e sua família, a preocupação com interferência eleitoral fica muito concreta.
Mas Flávio declarou que o dinheiro foi para a produção. Qual é a prova de que foi desviado?
A Polícia Federal já abriu apuração justamente porque há questões sem resposta. Por que o dinheiro passou por um fundo no Texas ligado ao advogado de Eduardo? Por que a quantidade pedida foi tão maior do que a paga? Essas são as lacunas que a investigação precisa preencher.
E quanto às emendas parlamentares que o PT menciona? Como isso se conecta?
O Instituto Conhecer Brasil, que está ligado à produtora do filme, recebeu emendas parlamentares. Se essas emendas foram redirecionadas para financiar o filme, isso seria um desvio de recursos públicos para beneficiar uma campanha privada.
Mas a denúncia não prova que as emendas foram desviadas, certo? Ela pede investigação sobre isso.
Exato. É por isso que é uma denúncia, não uma acusação. O PT está pedindo que as autoridades investiguem se houve desvio.
E quanto aos profissionais estrangeiros? Por que isso importa?
Se Jim Caviezel e o diretor não tinham vistos de trabalho artístico adequados ou se os impostos não foram recolhidos, há violações trabalhistas e fiscais. Mas também sinaliza como o projeto foi estruturado — de forma a contornar regulações.
Isso é especulação. Pode ser apenas negligência administrativa.
Verdade. Por isso a investigação precisa examinar os registros da Ancine, do Copyright Office e da Biblioteca Nacional. Os documentos vão mostrar o que realmente aconteceu.
E essa lei americana, o Foreign Agents Registration Act? Como isso se aplica aqui?
Se a rede de Eduardo no Texas estava fazendo atividades políticas em favor da família Bolsonaro, e isso não foi registrado como exigido pela lei americana, há uma violação. O PT quer que isso seja verificado através de cooperação jurídica internacional.
O Pulso
- Flávio Bolsonaro teria solicitado US$ 24 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme; US$ 10,6 milhões já foram transferidos entre fevereiro e maio de 2025, parte deles parar num fundo ligado ao advogado de Eduardo Bolsonaro no Texas.
- O PT alega que o projeto não é cinema, mas peça de campanha disfarçada: o lançamento estava marcado para 11 de setembro, menos de um mês antes do pleito de 2026, e o próprio Flávio é retratado no filme como personagem central.
- A denúncia aponta emendas parlamentares possivelmente desviadas para o Instituto Conhecer Brasil, ligado à produtora do filme, levantando suspeitas de violação do artigo 350 do Código Eleitoral, que proíbe financiamento clandestino de campanha.
- Investigadores deverão rastrear a origem e o destino de todos os recursos, verificar vistos e contratos de profissionais estrangeiros como o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh, e avaliar se atividades nos EUA violam o Foreign Agents Registration Act.
- O caso está nas mãos da Polícia Federal e do STF, com pedido de cooperação jurídica internacional, transformando uma disputa sobre um filme numa investigação transnacional sobre dinheiro, política e influência.
Em democracias maduras, a linha entre arte e propaganda raramente é nítida — e é justamente nessa ambiguidade que o Partido dos Trabalhadores enxerga uma ameaça ao equilíbrio eleitoral. Ao denunciar formalmente à Polícia Federal e ao STF o filme 'Dark Horse', sobre Jair Bolsonaro, o PT questiona se dezenas de milhões de reais canalizados para uma produção cinematográfica com estreia prevista às vésperas das eleições de 2026 constituem, na prática, financiamento clandestino da pré-campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro. O caso coloca em tensão os limites entre liberdade de expressão, poder econômico e integridade do processo democrático.
O Partido dos Trabalhadores formalizou nesta quarta-feira denúncias à Polícia Federal e ao Supremo Tribunal Federal pedindo investigações sobre o filme 'Dark Horse', produção que retrata a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Os advogados do partido querem apurar se houve abuso de poder econômico e se recursos foram usados para financiar clandestinamente a pré-campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro.
No centro das suspeitas está um pedido de US$ 24 milhões feito por Flávio a Daniel Vorcaro, ex-dono do banco Master. Vorcaro transferiu US$ 10,6 milhões entre fevereiro e maio de 2025. Parte do dinheiro chegou ao fundo Havengate Development Fund LP, ligado ao advogado de Eduardo Bolsonaro no Texas, Paulo Calixto — o que já motivou apuração da PF sobre se os valores custearam a permanência de Eduardo nos Estados Unidos. Flávio nega qualquer desvio, afirmando que os recursos foram integralmente destinados à produção.
Para o PT, o projeto vai além do audiovisual: trata-se de um instrumento de promoção política de Bolsonaro e de Flávio — interpretado pelo ator Marcus Ornellas — em plena campanha eleitoral. O lançamento estava previsto para 11 de setembro, menos de um mês antes do pleito de 2026. Os advogados do partido sustentam que Flávio é o beneficiário final dos recursos e que a obra tem 'inequívoca aptidão para interferir na formação da vontade do eleitorado'.
A denúncia também mira o Instituto Conhecer Brasil, ligado à produtora Go Up Entertainment, questionando se emendas parlamentares foram desviadas para a entidade em violação ao Código Eleitoral. Além disso, o PT quer verificar os registros regulatórios do filme, a situação migratória de profissionais estrangeiros como o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh, e se atividades políticas da rede de Eduardo nos EUA violam o Foreign Agents Registration Act — com pedido de cooperação jurídica internacional ao Departamento de Justiça americano.
O Partido dos Trabalhadores apresentou denúncias formais nesta quarta-feira à Polícia Federal e ao Supremo Tribunal Federal pedindo investigações sobre a produção do filme "Dark Horse", que retrata a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Os advogados do partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva querem que as autoridades apurem se houve abuso de poder econômico e se recursos foram desviados para financiar clandestinamente a pré-campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro, além de outros possíveis ilícitos.
No centro da acusação está um pedido feito por Flávio a Daniel Vorcaro, então dono do banco Master, de US$ 24 milhões (R$ 134 milhões à época) para a produção do filme. Vorcaro transferiu US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) entre fevereiro e maio de 2025. Parte desse dinheiro foi repassada pela Entre Investimentos e Participações, que operava em parceria com empresas de Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, ligado ao advogado de Eduardo Bolsonaro no Texas, Paulo Calixto. Flávio declarou que os recursos foram integralmente destinados à produção cinematográfica, mas a Polícia Federal já abriu apuração para verificar se o dinheiro foi usado para custear a permanência de Eduardo nos Estados Unidos.
O PT argumenta que o projeto vai muito além de uma simples produção audiovisual. Segundo a denúncia, trata-se de um instrumento para promover Bolsonaro e o próprio Flávio, que é interpretado pelo ator Marcus Ornellas, em plena campanha eleitoral de 2026. O filme tinha previsão de estreia em 11 de setembro, menos de um mês antes do pleito. Os advogados do partido sustentam que Flávio é o beneficiário final dos recursos, tendo negociado "ativamente" o investimento destinado a um fundo que "serve à articulação política internacional em benefício da candidatura de Flávio".
A denúncia aponta especificamente para o Instituto Conhecer Brasil, de Karina Ferreira Gama, também proprietária da Go Up Entertainment, produtora do filme. O PT alega que emendas parlamentares foram destinadas ao instituto e questiona se houve violação da lei eleitoral, particularmente o artigo 350 do Código Eleitoral, que trata de financiamento clandestino de campanha. Os advogados argumentam que dezenas de milhões de reais destinados a uma obra concebida para exaltar a figura central de um grupo político, com lançamento programado para o auge da campanha eleitoral, têm "inequívoca aptidão para interferir na formação da vontade do eleitorado e desequilibrar a disputa democrática".
Além da questão do financiamento, o PT pediu um exame minucioso da produção do longa. O partido quer que sejam verificados os registros regulatórios audiovisuais junto à Agência Nacional do Cinema, além de documentação do U.S. Copyright Office e da Biblioteca Nacional. A investigação também deve examinar a situação migratória e trabalhista dos profissionais estrangeiros que atuaram no filme, incluindo o ator Jim Caviezel, que interpretou Bolsonaro, e o diretor Cyrus Nowrasteh, verificando se possuem vistos de trabalho artístico e contratos regularizados com recolhimento de impostos.
Outro aspecto levantado pela denúncia é a possível incidência do "Foreign Agents Registration Act", lei norte-americana que regula atividades de agentes estrangeiros. O PT pediu que a Polícia Federal verifique junto ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos se as atividades políticas e informativas desenvolvidas pela rede de Eduardo no Texas em favor do grupo político da família Bolsonaro violam essa legislação, por meio de cooperação jurídica internacional. As investigações devem agora apurar a origem, circulação e destinação de todos os recursos financeiros relacionados ao projeto, bem como a atuação de políticos, empresas e outras pessoas envolvidas.
Citações Notáveis
A destinação de dezenas de milhões de reais para uma obra concebida para exaltar a figura central de um grupo político, com lançamento programado para o ápice da campanha eleitoral de 2026, apresenta inequívoca aptidão para interferir na formação da vontade do eleitorado— Advogados do PT na denúncia ao STF