Psicólogo holandês admite: a ciência ainda desconhece muito sobre depressão

Populações afetadas por guerra desenvolvem elevados níveis de stress pós-traumático e depressão que persistem durante muitos anos.
Há mais coisas que não sabemos do que aquilo que sabemos
Cuijpers resume o estado atual do conhecimento científico sobre depressão após décadas de investigação.
Mark

Depois de décadas a estudar isto, Cuijpers basicamente diz que não sabemos o que é a depressão. Como é que isso é possível?

Mimi

Porque a depressão não tem um teste físico. Não há uma análise de sangue que a diagnostique. É um consenso de sintomas — duração, gravidade, impacto na vida. Mas isso não nos diz o que é realmente.

Luke

Espera, mas temos tratamentos que funcionam. Como é que funcionam se não sabemos o que estamos a tratar?

Mimi

Boa pergunta. Cuijpers diz que não é necessário compreender o mecanismo para saber se um tratamento funciona. Os ensaios aleatórios testam se funciona, independentemente de compreendermos o porquê.

Mark

E quanto aos fatores sociais? Ele diz que pobreza e desigualdade são importantes, mas depois diz que não mudaram muito.

Mimi

Exatamente. O que mudou foi talvez a nossa disposição para falar sobre isto, ou os instrumentos de avaliação. Mas não sabemos ao certo se a depressão está realmente a piorar.

Luke

Portanto, quando ele diz que "não sabemos", está a ser honesto sobre os limites da investigação, não a dizer que a investigação é inútil.

Mimi

Precisamente. Ele sabe que os tratamentos funcionam. Sabe que muitas pessoas não recuperam com o primeiro. Sabe que a combinação de psicoterapia e medicação é mais eficaz. Isso é conhecimento robusto.

Mark

Mas há um problema prático aí, não há? Se não sabemos quem vai responder a qual tratamento, as pessoas têm de passar por tentativa e erro.

Mimi

Sim. E isso é frustrante. Mas Cuijpers é honesto sobre isso também. Não há recursos suficientes para investigar essa questão adequadamente.

Luke

E quanto às novas tecnologias? Ele parece preocupado.

Mimi

Não preocupado, cauteloso. Diz que os efeitos ainda não estão claros e que não devemos permitir que as grandes empresas tecnológicas assumam riscos apenas para lucro.

Mark

Portanto, a mensagem final é: sabemos o suficiente para ajudar, mas não sabemos o suficiente para compreender completamente.

Mimi

Exatamente. E talvez isso seja aceitável.

  • Pim Cuijpers é investigador neerlandês e referência internacional em psicoterapia
  • Não existe teste físico para diagnosticar depressão, apenas consenso sobre sintomas
  • Muitas pessoas não recuperam com o primeiro tratamento e precisam de múltiplas intervenções
  • A psicoterapia tem efeitos que perduram oito anos após o término, comparado com medicação isolada
  • Fatores sociais como pobreza, desigualdade e guerra têm peso determinante na saúde mental

A ciência conhece tratamentos eficazes para depressão, mas não compreende totalmente o que é a doença nem consegue prever quem beneficiará de cada tratamento. Fatores sociais como pobreza, desigualdade, más condições de habitação e guerra têm peso determinante na saúde mental, mas a depressão não é apenas uma doença individual.

O psicólogo neerlandês Pim Cuijpers reconhece que apesar de décadas de investigação, a ciência desconhece ainda muito sobre a depressão, seus mecanismos e por que alguns tratamentos funcionam para uns e não para outros.

Pim Cuijpers passou décadas a estudar depressão. É um dos investigadores mais respeitados internacionalmente no campo da psicoterapia. E depois de toda essa investigação, ele admite algo que desconforta: a ciência ainda não compreende realmente o que é a depressão.

Este é o paradoxo central que o psicólogo neerlandês expõe numa entrevista à CNN Portugal, realizada durante a sua participação no 7.º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Conhecemos vários caminhos para tratar a doença. Temos psicoterapia. Temos antidepressivos. Ambos funcionam. Mas não funcionam para toda a gente, e não sabemos exatamente por que razão algumas pessoas adoecem enquanto outras, em circunstâncias semelhantes, não adoecem. Não existe teste físico que diagnostique depressão. Não há marcador biológico definitivo. O que temos é um consenso de especialistas sobre um conjunto de sintomas — duração prolongada, gravidade, impacto na vida quotidiana, perturbações do sono, falta de concentração, perda de interesse nas coisas.

Cuijpers distingue claramente entre tristeza normal e depressão clínica. Toda a gente sente tristeza ou mau humor ocasionalmente. A depressão é diferente: dura mais tempo, é mais grave, afeta a capacidade de funcionar no dia a dia. Mas esta distinção, embora clara em teoria, torna-se turva na prática. Existe o risco simultâneo de medicalizar o sofrimento normal — de tratar como doença aquilo que é apenas parte da experiência humana — e, no extremo oposto, de minimizar uma doença grave porque alguém não parece estar "mal o suficiente". Cuijpers sugere um sinal prático: se não consegue manter a sua vida normal, se não consegue ir para o trabalho ou para a escola, se tem dificuldade em estar com amigos e família, então é hora de procurar tratamento.

O investigador recusa-se a simplificar as causas da depressão. Quando questionado sobre as maiores ameaças à saúde mental atualmente, responde com honestidade científica: não é possível dar uma resposta baseada em evidências robustas. Qualquer resposta seria especulação. O que se sabe é que fatores sociais desempenham um papel importante — pobreza, desigualdade de rendimentos, más condições de habitação. Mas estes fatores não mudaram significativamente nas últimas duas décadas, o que complica a narrativa de que a saúde mental está a piorar. Talvez as pessoas estejam apenas mais abertas a falar sobre os seus problemas. Talvez os instrumentos de avaliação tenham melhorado. Talvez a prevalência tenha aumentado por causa da COVID. A verdade é que não se sabe ao certo.

O que Cuijpers sabe, com base em investigação rigorosa, é que os tratamentos funcionam, mas não assim tão bem quanto seria desejável. Muitas pessoas não recuperam com o primeiro tratamento. Precisam de um segundo, um terceiro, ou de uma combinação de psicoterapia e medicação. A longo prazo, a psicoterapia parece ser ligeiramente mais eficaz do que os antidepressivos isolados, e os seus efeitos perduram muito mais tempo — um ciclo de psicoterapia é mais eficaz do que tomar antidepressivos durante um ano inteiro. Mas a combinação das duas abordagens é mais eficaz do que qualquer uma isoladamente. Isto significa que para muitas pessoas, a recuperação é possível. Para outras, a depressão torna-se uma doença crónica com a qual terão de aprender a viver, mesmo quando estão "bem".

Cuijpers é crítico em relação à forma como os governos tratam a saúde mental. A carga da doença é muito elevada. Os custos económicos são astronómicos, principalmente em perdas de produção. O sofrimento humano é imenso. E no entanto, a depressão continua a ser o parente pobre dos sistemas nacionais de saúde em muitos países. O Reino Unido é uma exceção notável: percebeu quanto custam a depressão e a ansiedade e investiu significativamente para tratar o maior número possível de pessoas, considerando isto um investimento na economia, não apenas um gasto em saúde.

Quando a conversa se desloca para as novas tecnologias — aplicações de saúde mental, terapia online, chatbots, inteligência artificial generativa — Cuijpers mantém a mesma cautela científica. Existe esperança de que estas ferramentas democratizem o acesso aos cuidados. Mas os efeitos, incluindo os potencialmente negativos, ainda não estão claros e precisam de investigação rigorosa. Não devemos permitir que as grandes empresas tecnológicas assumam riscos com as populações apenas para obter mais lucros. O impacto das redes sociais e da vida digital na saúde mental é provavelmente real, mas qual é exatamente esse impacto permanece desconhecido.

No final, Cuijpers resume o estado do conhecimento científico sobre depressão de forma humilde e honesta: há mais coisas que não sabemos do que aquilo que sabemos. Sabemos que a depressão existe porque vemos pessoas a sofrer com ela. Sabemos como tratá-la, graças aos ensaios controlados aleatórios que testam se os tratamentos funcionam e com que intensidade. Mas não sabemos realmente o que é a depressão, quem a desenvolve, ou de onde vem. E talvez, sugere, isso não seja tão importante quanto parece. O conhecimento sobre os mecanismos subjacentes não é necessário para realizar investigação robusta sobre tratamentos. O que importa é que funcionam — e que continuamos a tentar melhorar.

Conhecemos vários caminhos para tratar a depressão, mas continuamos sem compreender exatamente o que é
— Pim Cuijpers
Os tratamentos são eficazes, mas não assim tão eficazes. Muitas pessoas não recuperam com o primeiro tratamento
— Pim Cuijpers
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