Em cada três mulheres no mundo, uma carrega a marca da violência — e, no Brasil, essa ferida costuma abrir-se dentro de casa, no silêncio que a vergonha impõe. A psicóloga Josy Severo, após mais de uma década entre consultórios, hospitais e comunidades religiosas, chegou a uma conclusão que desafia tanto a ciência quanto a fé: o maior obstáculo não é a falta de serviços, mas a ausência de confiança para romper o silêncio. Seu trabalho propõe que as comunidades de fé deixem de ser muros de culpabilização e se tornem pontes de proteção — porque a fé de uma mulher nunca pode custar a vida dela.
Psicóloga alerta para pandemia silenciosa da violência doméstica no Brasil
A violência prospera no escuro, no segredo e na vergonha
Por que você acha que as comunidades religiosas especificamente têm um papel tão importante nessa conversa sobre violência doméstica?
Porque é onde as mulheres já estão. Elas vão à igreja, ao templo, à comunidade de fé. Se a gente espera que elas procurem um serviço público isolado, muitas nunca chegam lá. Mas se a comunidade onde ela já confia souber como acolher, como ouvir, como encaminhar — aí muda tudo.
Você mencionou que dizer a uma mulher para orar mais e ter paciência transfere culpa para ela. Como você vê a diferença entre fé genuína e culpabilização?
A fé genuína liberta. Culpabilização aprisiona. Uma coisa é dizer "você é forte, você merece proteção, vamos ajudá-la a sair disso". Outra é dizer "sofra em silêncio, Deus quer assim". Uma salva. A outra mata.
O silêncio é o maior obstáculo, você disse. Por que as mulheres não pedem ajuda mesmo quando têm acesso a serviços?
Porque pedir ajuda significa admitir que algo está errado. Significa medo do que vai acontecer depois. Significa vergonha. Significa, muitas vezes, não ter para onde ir. O silêncio é uma forma de sobrevivência, não de aceitação.
Seu modelo tem cinco eixos. Qual deles você acha que é o mais crítico?
A escuta sem julgamento. Se você não consegue ouvir uma mulher sem julgá-la — sem perguntar por que ela não saiu antes, por que voltou, por que não denunciou — você perde ela ali mesmo. Tudo o mais depende dessa abertura inicial.
E quanto ao letramento jurídico? Por que isso importa tanto?
Porque muitas mulheres não sabem que têm direitos. Não sabem que podem denunciar, que existem delegacias especializadas, que há proteção legal. Elas vivem achando que é normal, que é privado, que ninguém pode fazer nada. Informação é poder.
O Pulso
- Milhões de mulheres brasileiras vivem em perigo dentro de suas próprias casas, agredidas por companheiros ou ex-companheiros, numa violência que a maioria nunca denuncia.
- O silêncio não é passividade — é o produto direto da vergonha, do medo e, muitas vezes, de mensagens religiosas que transferem à vítima a culpa pela própria dor.
- Josy Severo sistematizou anos de prática em um artigo científico aprovado por revisão cega, propondo um modelo concreto para que igrejas atuem como espaços seguros de escuta e encaminhamento.
- Seu modelo se apoia em cinco eixos — liderança feminina, escuta sem julgamento, letramento jurídico, articulação com a rede pública e conscientização contínua — sem substituir polícia ou Justiça.
- A divulgação de canais como o Ligue 180 e as delegacias da mulher nos espaços onde as vítimas já circulam é apontada como o primeiro passo concreto para transformar informação em proteção.
Em cada três mulheres no mundo, uma carrega a marca da violência — e, no Brasil, essa ferida costuma abrir-se dentro de casa, no silêncio que a vergonha impõe. A psicóloga Josy Severo, após mais de uma década entre consultórios, hospitais e comunidades religiosas, chegou a uma conclusão que desafia tanto a ciência quanto a fé: o maior obstáculo não é a falta de serviços, mas a ausência de confiança para romper o silêncio. Seu trabalho propõe que as comunidades de fé deixem de ser muros de culpabilização e se tornem pontes de proteção — porque a fé de uma mulher nunca pode custar a vida dela.
Josy Severo construiu uma trajetória rara: consultório clínico, hospital psiquiátrico, projetos sociais e comunidades religiosas convergindo para uma única questão urgente. No Brasil, o lugar mais perigoso para milhões de mulheres não é a rua — é a casa. É desse paradoxo que ela trabalha.
Os números são brutais: uma em cada três mulheres no mundo sofreu violência física ou sexual em algum momento da vida, e no Brasil a maioria das agressões ocorre dentro de casa, praticada por companheiros ou ex-companheiros. Mas o dado que Severo considera mais revelador é outro — a maioria das vítimas não procura ajuda. O silêncio é a resposta mais comum, alimentado pela vergonha e, muitas vezes, por orientações religiosas que pedem paciência e oração em vez de proteção.
Com pós-graduação em Saúde Mental e passagens por instituições de referência como o Centro de Tratamento Bezerra de Menezes, Severo também atuou na Assembleia Legislativa de São Paulo e levou psicologia a grupos de mulheres em situação de vulnerabilidade. Seu trabalho mais recente sintetiza essa experiência em um artigo científico aprovado por revisão cega, que analisa o papel das comunidades de fé no enfrentamento da violência doméstica.
A tese central é direta: quando se diz a uma mulher agredida para orar mais e ter paciência, transfere-se a ela a culpa pela própria dor. Em vez de barreira, Severo propõe que a igreja seja ponte — um espaço de escuta sem julgamento, informação sobre direitos e encaminhamento para a rede de proteção, estruturado em cinco eixos que incluem liderança feminina, letramento jurídico e articulação com serviços públicos.
A violência prospera no segredo. Por isso, Severo defende que canais como o Ligue 180 e as delegacias da mulher sejam divulgados nos espaços onde as mulheres já estão. Conscientizar é acender a luz — e acender a luz, aqui, pode significar salvar uma vida.
Josy Severo passou mais de uma década construindo uma carreira que poucos psicólogos conseguem articular: consultório clínico, hospital psiquiátrico, projetos sociais e comunidades religiosas, tudo convergindo para uma única questão urgente. No Brasil, milhões de mulheres descobriram que o lugar mais perigoso não é a rua. É a casa. É desse paradoxo que ela trabalha.
Os números são brutais. Estima-se que uma em cada três mulheres no mundo tenha sofrido violência física ou sexual em algum momento da vida — uma proporção que mal se moveu em vinte anos. No Brasil, pesquisas recentes apontam milhões de vítimas de violência doméstica em um único ano, a maioria agredida por companheiros ou ex-companheiros dentro de casa. Mas há um dado que Severo considera ainda mais revelador: a maioria das vítimas não procura ajuda. O silêncio é a resposta mais comum. Por isso, o desafio real não é simplesmente oferecer serviços. É criar confiança suficiente para que as mulheres rompam esse silêncio — e é aí que a comunidade ao redor delas faz diferença.
A trajetória de Severo é incomum. Formada em Psicologia com pós-graduação em Saúde Mental e capacitação em avaliação psicológica para procedimentos cirúrgicos, ela trabalhou em comunidades terapêuticas e clínicas de reabilitação focadas em dependência química. Entre 2020 e 2024, atuou como psicóloga no Centro de Tratamento Bezerra de Menezes, uma instituição de referência em saúde mental. Mantém consultório próprio desde 2012, oferecendo psicoterapia individual e terapia de casais. Sua atuação também alcançou a esfera pública: na Assembleia Legislativa de São Paulo, coordenou a Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos da Pessoa com Epilepsia, articulando lideranças e ajudando a construir políticas públicas. Em paralelo, levou psicologia a projetos sociais e grupos de mulheres em situação de vulnerabilidade, com foco em conscientização sobre violência doméstica e restauração da autonomia feminina.
Seu trabalho mais recente sintetiza tudo isso. Severo reuniu anos de prática e pesquisa em um artigo científico sobre o papel das comunidades de fé no enfrentamento da violência doméstica — um estudo quantitativo e comparativo que analisa dados oficiais e experiências bem-sucedidas de intervenção religiosa no Brasil e no mundo. O trabalho foi aprovado por pares em revisão cega e aguarda publicação em uma das revistas científicas mais reconhecidas do país. A tese central é provocadora: quando se diz a uma mulher agredida para orar mais e ter paciência, transfere-se a ela a culpa pela própria dor. A fé de uma mulher nunca pode custar a vida dela.
Em vez de barreira, Severo propõe que a igreja seja ponte. Um lugar seguro de escuta, informação sobre direitos e encaminhamento para a rede de proteção. Seu modelo se estrutura em cinco eixos: liderança feminina, escuta sem julgamento, letramento jurídico, articulação com a rede pública e conscientização permanente da comunidade. A igreja não substitui a polícia nem a Justiça. Ela abre portas.
Para Severo, informação é o primeiro passo da prevenção. Canais como o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) e o 190 (emergência), além das delegacias da mulher e dos centros de referência, precisam ser conhecidos e divulgados nos espaços onde as mulheres já estão. A violência prospera no escuro, no segredo e na vergonha. Conscientizar é acender a luz — e acender a luz, aqui, pode significar salvar uma vida.
Citações Notáveis
A casa, que deveria ser refúgio, tornou-se para milhões o endereço do medo— Josy Severo, psicóloga clínica
A fé de uma mulher nunca pode custar a vida dela— Josy Severo