No coração do Cariri cearense, onde quatro em cada cinco habitantes se declaram católicos, um jovem professor de literatura de 25 anos encarna uma tensão silenciosa que pode redesenhar a direita brasileira. Lucca Nobre rejeita o bolsonarismo sem abandonar a direita, desconfia dos evangélicos radicais sem abrir mão da fé, e aposta que o catolicismo político — enraizado na transformação interior antes da social — emergirá como força nacional. Sua trajetória singular, entre Belchior e Tomás de Aquino, entre o Missão e a catedral do Crato, sugere que as próximas rupturas da política brasileira pod
Professor cearense vê catolicismo como futuro da direita brasileira
O catolicismo político vai se tornar uma força nacional em breve
Por que um professor jovem, formado em direito, escolhe ensinar literatura clássica em vez de exercer a profissão?
Acho que tem a ver com o que ele acredita que importa. Ele poderia estar ganhando mais como advogado, mas escolheu estar perto de adolescentes, mostrando a eles autores que o formaram. Tem algo de coerência nisso.
Ele votou em Bolsonaro duas vezes e agora rejeita o bolsonarismo. O que mudou?
Não é que ele tenha mudado de lado. É que ele acha que Bolsonaro cumpriu um papel — reuniu a direita — mas agora está no caminho. Lucca quer ver novas lideranças, pessoas da sua geração falando a linguagem dele.
Por que Renan Santos o atrai tanto?
Porque Renan fala de um jeito que Lucca reconhece. Não é a estética bolsonarista, não é a linguagem evangélica radical. É algo mais próximo dele, mais católico, mais intelectual talvez.
Ele diz que votaria em Lula contra Michelle Bolsonaro. Isso não é contraditório para alguém de direita?
Para Lucca, não. Porque para ele o problema não é esquerda ou direita — é a instrumentalização da fé. Se a escolha for entre um petista e alguém que usa a religião de forma corrosiva, ele escolhe o petista. É uma questão de princípio.
Qual é a visão dele para o futuro da direita?
Ele acredita que vai surgir uma direita católica forte, diferente do que existe agora. Não sabe em qual partido vai estar, mas sabe que vai existir. É como se ele estivesse vendo algo que ainda não tem forma, mas que sente vindo.
O Pulso
- A direita brasileira enfrenta uma crise de identidade após o ciclo bolsonarista, e jovens como Lucca buscam referências que o ex-presidente não conseguiu oferecer.
- O crescimento da influência evangélica radical nos espaços conservadores provoca rejeição em católicos praticantes que veem sua fé sendo instrumentalizada e distorcida.
- Renan Santos surge como aposta geracional para quem quer uma direita com nova estética, nova linguagem e distância das figuras que dominaram a última década.
- A violência das facções no interior do Ceará transforma percepções locais e empurra eleitores para escolhas pragmáticas que cruzam fronteiras ideológicas tradicionais.
- Lucca prevê uma ruptura iminente na direita brasileira, com o catolicismo político se organizando como força nacional distinta dos grupos evangélicos e do bolsonarismo residual.
No coração do Cariri cearense, onde quatro em cada cinco habitantes se declaram católicos, um jovem professor de literatura de 25 anos encarna uma tensão silenciosa que pode redesenhar a direita brasileira. Lucca Nobre rejeita o bolsonarismo sem abandonar a direita, desconfia dos evangélicos radicais sem abrir mão da fé, e aposta que o catolicismo político — enraizado na transformação interior antes da social — emergirá como força nacional. Sua trajetória singular, entre Belchior e Tomás de Aquino, entre o Missão e a catedral do Crato, sugere que as próximas rupturas da política brasileira podem vir de lugares menos esperados do que os holofotes costumam iluminar.
A Catedral Nossa Senhora da Penha, inaugurada em 1745 no centro do Crato, fica numa cidade onde 81% dos habitantes se declaram católicos — a maior proporção entre municípios com mais de cem mil pessoas no Brasil. Foi lá que Lucca Nobre, 25 anos, professor de literatura clássica na vizinha Barbalha, ajoelhou-se numa manhã de julho. Sua posição política, embora ele prefira não revelar o voto em sala de aula, é difícil de esconder: é de direita, católico praticante, filho de pais conservadores, e se define com versos de Belchior como "um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes".
Seu percurso político passou por uma breve simpatia socialista na adolescência, pela descoberta de autores conservadores como Olavo de Carvalho, pela aproximação e posterior afastamento do Movimento Brasil Livre. Votou em Bolsonaro em 2018 e 2022, mas hoje rejeita o bolsonarismo — reconhece o papel do ex-presidente em aglutinar a direita, mas critica como sua permanência como referência central bloqueou o surgimento de novas lideranças.
Para as eleições deste ano, Lucca aposta em Renan Santos, do partido Missão, atraído pelo corte geracional que o candidato representa. No segundo turno, apoiaria Flávio Bolsonaro contra Lula. Para o governo do Ceará, vota em Ciro Gomes, movido pela preocupação com a segurança pública — o domínio territorial das facções se tornou realidade próxima quando uma família em Barbalha precisou abandonar a própria casa após ameaças.
Sua crítica mais contundente, porém, é dirigida à instrumentalização da fé por grupos evangélicos radicais dentro da direita. Numa hipotética disputa entre Lula e Michelle Bolsonaro, afirma que votaria no petista. "Minha crítica não é à presença de cristãos na política. É a instrumentalização da política por uma fé capturada e corrosiva", explica. Também se preocupa com a radicalização de jovens nas redes sociais, fenômeno que descreve como cognitivo e viciante.
Lucca acredita que o catolicismo político — ancorado na ideia de que a transformação da sociedade começa pela mudança interior de cada pessoa — está prestes a se organizar como força nacional, com lideranças e representações pelo país. Para ele, essa ruptura representa a direita brasileira buscando reinventar-se além das figuras que a dominaram na última década, encontrando raízes em tradições religiosas mais antigas e em gerações que não viveram a polarização que definiu a política recente.
A Catedral Nossa Senhora da Penha amanheceu quase vazia na última quarta de julho. Um rapaz em jeans e camiseta atravessou os portões de madeira, ajoelhou-se e fez o sinal da cruz. A igreja, inaugurada em 1745 no centro do Crato, fica numa cidade onde 81% dos habitantes se declaram católicos — a maior proporção entre municípios com mais de cem mil pessoas no Brasil. A média nacional é 56,7%.
Lucca Nobre tem 25 anos e ensina literatura clássica em Barbalha, cidade vizinha na região do Cariri, no sul do Ceará. Em sala de aula, quando perguntam em quem vai votar nas eleições presidenciais deste ano, ele desconversa: "O voto é secreto", responde. Mas sua posição política é mais difícil de esconder. Lucca é de direita. Católico praticante, filho de pais conservadores, ele se define com versos do cearense Belchior como "um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes". Formado em direito pela Universidade Regional do Cariri, dedica-se a ensinar adolescentes. Mora sozinho, dá aulas três vezes por semana e passa o tempo livre com filmes, documentários e leituras.
Seu interesse pela política começou na escola. Por um tempo breve considerou-se socialista, mas a fase não durou. Pela internet descobriu autores conservadores, entre eles Olavo de Carvalho, que marcou sua formação. Na adolescência aproximou-se do Movimento Brasil Livre, embrião do partido Missão, mas se afastou. "Foi uma experiência muito boa, mas um pouco frustrante. Percebi que muita gente ali não era tão idealista quanto eu", conta. Votou em Jair Bolsonaro em 2018 e 2022, mas hoje rejeita o bolsonarismo. Diz que o ex-presidente foi importante ao aglutinar a direita, mas sua permanência como principal referência impediu o surgimento de novas lideranças.
Em outubro, Lucca pretende votar em Renan Santos, do partido Missão, vendo nele a candidatura mais disruptiva entre os nomes da direita. "Tem aí um corte geracional. A forma como o Renan Santos fala, a identidade, a estética, dialoga muito comigo", explica. No segundo turno, apoiará Flávio Bolsonaro contra o presidente Lula. Para o governo do Ceará, vota em Ciro Gomes do PSDB, movido pelos desafios na segurança pública. O domínio territorial das facções se tornou realidade no Ceará — ele cita o caso de uma família em Barbalha que precisou deixar a própria casa após ser ameaçada por integrantes de uma facção. O caso mudou sua percepção e o fez ver o ex-governador tucano como capaz de enfrentá-lo. "Ciro é a direita da esquerda", define.
No campo da direita, Lucca critica a aproximação de setores conservadores com o que chama de grupos evangélicos radicais. Sua rejeição é tanta que, numa hipotética disputa entre Lula e Michelle Bolsonaro, afirma que votaria no petista. "Minha crítica não é à presença de cristãos na política, muito pelo contrário. É a instrumentalização da política por uma fé capturada e corrosiva. Considero particularmente preocupante quando essa instrumentalização passa a ser confundida com o próprio cristianismo", diz. Também se preocupa com a radicalização política entre jovens influenciados por conteúdos das redes sociais. "É um fenômeno cognitivo. Por que estão se radicalizando na internet? Porque a internet é viciante. Eu tenho celular, eu sei, é viciante."
Lucca vê espaço para o crescimento no Brasil de uma direita ligada à doutrina católica, ancorada na ideia de que, antes de transformar a sociedade, é preciso mudar as pessoas, inclusive a si mesmo. "O catolicismo político, pode apostar, vai se tornar uma força nacional em breve, com representações e lideranças pelo país. Não sei ainda qual vai ser o lugar partidário desses católicos, mas vai haver uma nova ruptura na direita brasileira", prevê. Para ele, essa ruptura marca um momento em que a direita brasileira busca se reinventar além das figuras que a dominaram na última década, encontrando ancoragem em tradições religiosas mais antigas e em gerações que não viveram a polarização que definiu a política recente.
Citações Notáveis
Minha crítica não é à presença de cristãos na política, muito pelo contrário. É a instrumentalização da política por uma fé capturada e corrosiva.— Lucca Nobre
O catolicismo político, pode apostar, vai se tornar uma força nacional em breve, com representações e lideranças pelo país.— Lucca Nobre