Professor brasileiro de jiu-jítsu é preso pelo ICE nos EUA; alunos mobilizam campanha por soltura

Professor detido em centro de detenção federal, transferido para presídio a 4 horas de distância, relata condições desumanas e acesso limitado a contato familiar.
Ele está com nossos filhos seis dias na semana há cinco anos
Mãe de aluno descreve a presença constante do professor na vida das crianças da comunidade.
Mark

Por que um professor de jiu-jítsu com uma vida estabelecida na Filadélfia foi detido justamente quando ia acompanhar seus alunos em um campeonato?

Mimi

Tecnicamente, porque seu visto de turista tinha expirado. Ele chegou com B2, que permite seis meses. Ficou dez anos. Pediu autorização de trabalho, foi negado. Mas a verdade é que o ICE intensificou operações nos aeroportos — agora detém qualquer um com documentação vencida, não apenas criminosos.

Mark

E por que seus alunos estão tão mobilizados? Ele é apenas um professor.

Mimi

Não é apenas um professor. Está com essas crianças seis dias por semana há anos. Conhece mais sobre elas do que pessoas que nasceram ali. Para uma criança de 9 anos, ele é praticamente um pai. Quando desaparece de repente, é um vazio real.

Mark

A campanha de arrecadação chegou ao objetivo?

Mimi

Até agora, 28 mil de 35 mil dólares. Mas o dinheiro é só para defesa legal. Ele está a 4 horas de carro, em um presídio que recebe apenas imigrantes, com poucos telefones, pouco contato com a família. A família no Brasil está desesperada.

Mark

Qual é o crime dele, exatamente?

Mimi

Ninguém sabe. O ICE não respondeu quando perguntaram. Ele está classificado como baixa periculosidade, aguardando audiência de custódia. Mas foi transportado algemado nos pés e nas mãos.

Mark

Isso é parte de uma tendência maior?

Mimi

Sim. Desde julho, o ICE detém cerca de 1.500 pessoas por dia. Trump quer chegar a 2 mil. Quase 5 mil brasileiros foram deportados desde o início do governo. Brito é um entre muitos.

Mark

E se for deportado?

Mimi

Volta ao Brasil. Deixa para trás uma comunidade que o vê como essencial, alunos que o consideram um pai, uma vida que construiu em dez anos. E a incerteza é o pior — ninguém sabe quanto tempo vai levar.

  • Thiago Brito, 34 anos, faixa-preta com 20 anos de carreira, preso no Aeroporto da Filadélfia em 24 de julho
  • Visto de turista (B2) expirado; solicitação de autorização de trabalho foi negada
  • Campanha arrecadou mais de US$ 28 mil para defesa legal; meta é US$ 35 mil
  • Transferido para presídio em Moshannon Valley, a 4 horas de distância, onde estão 17 brasileiros
  • ICE detém aproximadamente 1.500 imigrantes por dia; governo Trump visa 2 mil detenções diárias

Thiago Brito, 34 anos, foi preso ao embarcar para o Pan Kids, maior campeonato de jiu-jítsu do mundo, com visto de turista vencido. Alunos e pais descrevem o professor como figura essencial na comunidade; campanha arrecadou mais de US$ 28 mil para defesa legal.

Professor brasileiro Thiago Brito, faixa-preta de jiu-jítsu com 20 anos de carreira, foi detido pelo ICE no aeroporto da Filadélfia. Alunos e familiares mobilizam campanha online pedindo sua soltura.

Thiago Brito estava no Aeroporto Internacional da Filadélfia no dia 24 de julho, pronto para embarcar para Orlando. O professor de jiu-jítsu de 34 anos, faixa-preta com duas décadas de carreira competitiva, ia acompanhar alguns de seus alunos no Pan Kids, o maior campeonato da modalidade no mundo. Nunca chegou ao voo. Agentes do ICE, a polícia de imigração dos EUA, o detiveram ali mesmo no terminal. Desde então, seus alunos — crianças e adolescentes que treina há anos na Filadélfia — têm se movimentado para trazê-lo de volta.

Brito é natural de São Paulo e trabalha como instrutor na Pensilvânia há uma década. Chegou aos EUA com um visto de turista, categoria B2, que permite permanência máxima de seis meses. Segundo sua família, ele solicitou autorização de trabalho no país, mas o pedido foi negado. Mesmo assim, permaneceu, construindo uma presença significativa na comunidade de jiu-jítsu local. Seus prêmios em competições nacionais e internacionais ao longo de 20 anos estabeleceram sua reputação como técnico de qualidade.

A detenção desencadeou uma mobilização que começou nas redes sociais. Alunos escreveram cartas e fizeram desenhos ao lado de fotos com o treinador. Liam Karas, 14 anos, descreveu Brito como "um terceiro pai", alguém que o tornou melhor não apenas fisicamente, mas mentalmente, ensinando lições que carregará pela vida toda. Landry, 9 anos, pediu que o deixassem voltar, argumentando que se Brito cometeu um erro, esse erro o tornaria ainda melhor — e ele já era uma pessoa incrível. Os pais também se envolveram. Rhianon Kearns, mãe de um aluno, gravou um vídeo afirmando que a contribuição do professor para a comunidade superava a de muitos nascidos ali, que ele passava seis dias por semana com as crianças há cinco anos e conhecia mais sobre elas do que pessoas que viviam ali desde o nascimento.

Uma campanha de arrecadação foi lançada para cobrir despesas legais. Até a tarde de segunda-feira, 3 de agosto, mais de 28 mil dólares haviam sido recolhidos, com meta de 35 mil. O dinheiro será essencial: Brito foi transferido do Centro de Detenção Federal da Filadélfia para o presídio de Moshannon Valley, em Philipsburg, a cerca de 4 horas de carro. Segundo relatos à família, foi transportado algemado nos pés e nas mãos. Apesar disso, está classificado como detento de baixa periculosidade. Aguarda audiência de custódia e tenta acessar atendimento médico para problemas de saúde que já tinha antes da prisão. Ele disse à família estar vivendo um inferno.

Moshannon Valley é um dos maiores centros de detenção de imigrantes do país, com capacidade para 1.870 presos. Lá estão outras 17 pessoas de nacionalidade brasileira. O contato de Brito com a família é limitado — há poucos telefones disponíveis e muitos detentos precisam usá-los, criando filas e restrições de tempo. Do Brasil, seus familiares relatam desespero pela falta de respostas e incerteza sobre os próximos passos.

A prisão de Brito ocorre em contexto de intensificação das operações do ICE nos aeroportos americanos. Em colaboração com a TSA, agência de segurança aeroportuária, agentes têm detido crescentemente imigrantes com vistos vencidos — não apenas aqueles com antecedentes criminais. Em julho, quando essa prática foi iniciada, o número de detenções disparou: mais de 46 mil pessoas em custódia, aproximadamente 1.500 prisões por dia, segundo a rede CBS. O governo Trump já declarou intenção de chegar a 2 mil detenções diárias de imigrantes em situação irregular.

Desde o início do governo Trump em 2025 até julho, 63 voos com brasileiros deportados chegaram ao Brasil, conforme dados do programa Aqui é Brasil. Quase 5 mil brasileiros foram retornados. A maioria — 86% — é homem, entre 18 e 49 anos. Ao chegar, dirigem-se principalmente para Minas Gerais, São Paulo e Rondônia, frequentemente para casas de familiares. A reportagem questionou o ICE sobre a acusação formal contra Brito e suas condições na cadeia, mas não recebeu resposta até a publicação.

O professor Thiago é como um terceiro pai para mim. Viajei, competi e treinei com ele por 7 anos. Ele não apenas me tornou melhor fisicamente, mas também mentalmente.
— Liam Karas, 14 anos, aluno
Thiago tem sido absolutamente importante nas nossas vidas. Ele está com nossos filhos seis dias na semana pelos últimos cinco anos. Fez mais para essa comunidade do que a maioria que nasceu aqui.
— Rhianon Kearns, mãe de aluno
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