Doze anos sem um acidente mortal. Depois, tudo muda numa encosta arborizada.
No dia 21 de março de 2022, um Boeing 737-800 da China Eastern com 132 pessoas a bordo desapareceu do radar e caiu numa encosta arborizada perto de Wuzhou, no sul da China, sem sobreviventes identificados. O voo MU5735 encerra doze anos de silêncio trágico — um intervalo que testemunhava o quanto a aviação civil chinesa havia amadurecido em segurança desde os acidentes frequentes das décadas anteriores. A queda de um único avião é sempre uma ruptura no tempo; quando esse avião pertence a uma indústria que havia conquistado uma década de estabilidade, a ruptura ressoa ainda mais fundo.
- O voo MU5735 desapareceu abruptamente do radar cerca de uma hora após a descolagem, sem qualquer sinal de alerta prévio que preparasse o mundo para o que se seguiria.
- Com 132 vidas perdidas numa encosta arborizada de Guangxi, o desastre tornou-se o mais mortífero da aviação chinesa em décadas, abalando uma indústria que havia construído um registo de segurança invejável.
- A China Eastern, já enfraquecida por perdas de 772 milhões de euros no primeiro semestre de 2021 devido à pandemia, enfrenta agora uma crise de confiança que pode agravar ainda mais a sua situação financeira.
- As autoridades mobilizaram equipas de resgate para o local do acidente enquanto investigadores iniciam a busca pelas causas, num processo que determinará o futuro regulatório e operacional da companhia.
- O incidente levanta questões sobre a resiliência de uma indústria que superou os Estados Unidos em número de passageiros em 2020, mas que agora vê a sua reputação de segurança confrontada com a sua maior prova em doze anos.
A segunda-feira de 21 de março de 2022 ficará marcada na história da aviação chinesa. Um Boeing 737-800 da China Eastern desapareceu do radar pouco mais de uma hora após descolar de Kunming, caindo numa encosta arborizada perto de Wuzhou, na província de Guangxi. A bordo seguiam 132 pessoas — 123 passageiros e 9 tripulantes — e nenhum sobrevivente havia sido identificado no primeiro balanço das autoridades.
O que torna este desastre particularmente pesado é o silêncio que o precede. Durante doze anos, desde agosto de 2010, a China não havia registado um acidente aéreo com mais de cinco mortes. O último envolvera um Embraer da Henan Airlines na aproximação ao aeroporto de Yichun: 44 mortos, 52 sobreviventes, e uma causa determinada — erro do piloto numa aterragem noturna com visibilidade reduzida. Esse intervalo de segurança refletia uma transformação real: melhorias em regulação, treino de pilotos e manutenção de aeronaves haviam convertido uma indústria outrora acidentada num dos registos mais sólidos do mundo.
A China Eastern, fundada em 1995 e com sede em Xangai, opera uma frota de 749 aeronaves, 291 das quais são Boeing 737. É uma das quatro grandes transportadoras chinesas, mas chegou a este momento já fragilizada: registou perdas de cerca de 772 milhões de euros no primeiro semestre de 2021, consequência direta das restrições pandémicas impostas pelo Governo, que reduziu em 98% as viagens internacionais.
O acidente ocorre também num momento de grande ambição para a aviação chinesa. A Boeing estima um crescimento anual de 5,4% no tráfego aéreo do país e prevê que a China responda por um sexto da futura capacidade mundial. Em paralelo, o Governo aposta em construtoras nacionais como a COMAC, que desenvolve os modelos ARJ21, C919 e o futuro C929, para reduzir a dependência de Boeing e Airbus.
O voo MU5735 interrompe um período de estabilidade conquistado com esforço. As investigações determinarão as causas, mas o impacto imediato — na confiança dos passageiros e numa companhia já em dificuldades — é inevitável e imediato.
A China, uma das três maiores potências da aviação civil mundial, viveu uma segunda-feira de horror no dia 21 de março quando um Boeing 737-800 da China Eastern desapareceu do radar pouco mais de uma hora após descolar de Kunming. O avião caiu numa encosta arborizada perto de Wuzhou, na província de Guangxi, no sul do país. A bordo seguiam 132 pessoas — 123 passageiros e 9 tripulantes. Até ao momento em que as autoridades fizeram o primeiro balanço, nenhum sobrevivente tinha sido identificado. O voo MU5735 tornou-se assim o acidente aéreo mais mortífero da China em décadas.
O que torna este desastre particularmente notável é o intervalo que o precede. Durante doze anos — desde agosto de 2010 — a China não havia registado um acidente aéreo com mais de cinco mortes. Esse acidente anterior envolveu um Embraer ERJ 190-100 operado pela Henan Airlines que se despenhou na aproximação ao aeroporto de Yichun, no nordeste do país. O avião transportava 96 pessoas. Quarenta e quatro morreram no impacto e no incêndio que se seguiu; 52 sobreviveram. Os investigadores concluíram que o piloto havia cometido um erro durante a aterragem noturna, quando a visibilidade era reduzida.
Este intervalo de segurança reflete uma transformação profunda na indústria aeronáutica chinesa. Nas décadas de 1990 e 2000, o país sofreu uma série de acidentes mortais que marcaram a aviação civil. Mas as melhorias implementadas — em regulação, treino de pilotos, manutenção de aeronaves e procedimentos de segurança — criaram um registo impressionante. A China Eastern, a companhia que operava o voo desaparecido, é uma das quatro principais transportadoras do país, juntamente com a Air China, a China Southern Airlines e o grupo HNA. Fundada em 1995, tem sede em Xangai e opera uma frota de 749 aeronaves, das quais 291 são Boeing 737.
O contexto económico em que este acidente ocorre é também relevante. A China Eastern, como todas as companhias aéreas chinesas, sofreu perdas financeiras substanciais durante a pandemia de covid-19. A empresa registou uma perda de 5,4 mil milhões de yuans — aproximadamente 772 milhões de euros — no primeiro semestre de 2021. O Governo chinês mantém uma estratégia de "tolerância zero" que reduziu em 98% as viagens internacionais. As viagens domésticas são frequentemente interrompidas por confinamentos e restrições às deslocações internas. Apesar destes obstáculos, a China ultrapassou os Estados Unidos em número de passageiros em 2020, em parte porque foi o primeiro grande país a retomar as viagens internas após o surto inicial de covid-19 em Wuhan.
A Boeing prevê um crescimento anual de tráfego aéreo de 5,4% na China e estima que o país deverá responder por um sexto da futura capacidade adicional das companhias aéreas mundiais. A China é um dos mercados mais importantes tanto para a Boeing como para a rival europeia Airbus. Ambas as construtoras contam com as operadoras chinesas para impulsionar as vendas, especialmente quando a procura nos Estados Unidos e na Europa diminui. Mas existe também uma dimensão política e estratégica nesta dinâmica. O Governo chinês quer que construtoras nacionais comecem a competir com aparelhos de fabrico próprio. A estatal COMAC lançou o ARJ21, um jato de curto alcance para 105 passageiros, e o C919, maior mas também de curto alcance, com 190 assentos. A empresa trabalha agora num avião de corredor duplo de longo alcance, o C929, para 290 passageiros.
O acidente do voo MU5735 interrompe um período de estabilidade que a indústria aeronáutica chinesa havia conquistado através de investimento em segurança e regulação. Marca também um ponto de inflexão para uma companhia aérea já fragilizada pelas perdas pandémicas. As investigações que se seguem determinarão as causas do desastre, mas o impacto imediato na confiança dos passageiros e nas operações da China Eastern é inevitável.
Notable Quotes
A China registou uma perda de 5,4 mil milhões de yuans no primeiro semestre de 2021, face às perdas financeiras causadas pela pandemia de covid-19— Dados da China Eastern
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que é que este acidente é tão significativo para a China, além do número de vítimas?
Porque interrompe um recorde de segurança que durava doze anos. A China havia transformado a sua indústria aeronáutica após décadas de acidentes frequentes. Este desastre é um retrocesso simbólico.
A China Eastern estava numa posição frágil antes do acidente?
Muito frágil. Perdeu 772 milhões de euros no primeiro semestre de 2021. A pandemia destruiu as receitas. Um acidente desta magnitude, com 132 mortes, pode ser catastrófico para a confiança dos passageiros.
Como é que a China conseguiu ultrapassar os Estados Unidos em número de passageiros se estava tão restringida pela pandemia?
Porque foi o primeiro grande país a retomar as viagens internas. Enquanto o resto do mundo estava fechado, a China já voava internamente. Isso deu-lhe uma vantagem competitiva enorme.
E quanto à ambição da China em construir os seus próprios aviões?
É real e estratégica. A COMAC está a desenvolver aviões para competir com Boeing e Airbus. Mas um acidente como este pode prejudicar a confiança nos aviões chineses, mesmo que este seja um Boeing.
O que muda agora para a indústria?
Tudo fica sob escrutínio. As investigações serão intensas. A confiança que a China havia construído em segurança será testada. E a China Eastern terá de lidar com as consequências reputacionais e financeiras.