Em São Paulo, a ciência encontrou o chão da política pública: entre 2017 e 2019, a cidade registrou uma queda histórica de 25% nos novos casos de HIV, impulsionada pela adoção da PrEP no sistema público de saúde. Pela primeira vez desde os anos 1980, a curva que só subia começou a ceder — especialmente entre homens gays e bissexuais, grupo que mais acessa a profilaxia e que concentrava a maior parte das transmissões. O feito, porém, carrega uma advertência: quando uma ferramenta eficaz chega de forma desigual, o progresso de uns pode obscurecer o abandono de outros.
PrEP reduz novos casos de HIV em São Paulo em 25% em dois anos
A redução de 25% é real, mas incompleta
Por que a PrEP funcionou tão bem em São Paulo quando tantos especialistas duvidavam dela em 2016?
Porque alguém acreditou na ciência quando ela ainda era impopular. Os gestores de saúde da cidade não esperaram consenso — implementaram, monitoraram, ajustaram. Isso criou escala.
Mas se 86% dos usuários são homens gays, isso não significa que a PrEP está deixando outras populações para trás?
Exatamente. A PrEP chegou primeiro a quem tinha acesso à informação e aos serviços de saúde. Pessoas negras, mulheres, populações mais pobres — elas ainda estão fora dessa proteção. A redução de 25% é real, mas incompleta.
Como é possível que a incidência entre pessoas negras seja três vezes maior se a PrEP está disponível?
Porque disponibilidade não é acesso. Ter um medicamento no SUS é diferente de uma pessoa saber que existe, confiar nele, conseguir chegar até um serviço que o oferece, e manter o acompanhamento. Essas barreiras são invisíveis nos números agregados.
Então a história de sucesso de São Paulo é incompleta?
É um sucesso real, mas que expõe uma desigualdade real. A cidade provou que a PrEP funciona. Agora precisa provar que funciona para todos.
O Pulso
- Pela primeira vez em décadas, São Paulo quebrou a tendência de crescimento contínuo do HIV — 2.946 casos em 2019 representam uma queda de 25% frente a 2017, uma inversão que parecia improvável.
- A PrEP, distribuída pelo SUS desde 2018, concentra na capital paulista um terço de todos os usuários do país, tornando a cidade um experimento real de prevenção combinada em larga escala.
- O impacto foi mais forte onde a epidemia era mais intensa: entre homens gays e bissexuais, responsáveis por 71% das transmissões sexuais, a redução chegou a 26%.
- A sombra do sucesso é a desigualdade: 73% dos usuários de PrEP têm ensino superior e apenas 38% se identificam como negros, enquanto a incidência entre pessoas pretas é três vezes maior do que entre brancas.
- O desafio que resta não é mais convencer a ciência — é garantir que seus benefícios atravessem as barreiras de raça, escolaridade e acesso que ainda protegem a epidemia onde ela mais fere.
Em São Paulo, a ciência encontrou o chão da política pública: entre 2017 e 2019, a cidade registrou uma queda histórica de 25% nos novos casos de HIV, impulsionada pela adoção da PrEP no sistema público de saúde. Pela primeira vez desde os anos 1980, a curva que só subia começou a ceder — especialmente entre homens gays e bissexuais, grupo que mais acessa a profilaxia e que concentrava a maior parte das transmissões. O feito, porém, carrega uma advertência: quando uma ferramenta eficaz chega de forma desigual, o progresso de uns pode obscurecer o abandono de outros.
Em 2016, dois infectologistas debatiam a PrEP em um congresso paulista como se o veredicto ainda estivesse em aberto. Um listava objeções — resistência, custo, abandono do preservativo. O outro apresentava as evidências. Quatro anos depois, São Paulo tornaria esse debate obsoleto.
Desde que a profilaxia pré-exposição ao HIV começou a ser oferecida pelo SUS em 2018, a capital se transformou no maior laboratório de prevenção combinada do país. Até outubro de 2020, 5.183 pessoas estavam em acompanhamento — um terço de todos os usuários de PrEP no Brasil. No Dia Mundial de Luta Contra a Aids, em 1º de dezembro de 2020, os boletins epidemiológicos trouxeram o resultado: 2.946 novos casos de HIV em 2019, uma queda de 25% desde 2017. Desde os anos 1980, os números só haviam crescido.
A redução foi especialmente marcante entre homens gays e bissexuais — 86% dos usuários de PrEP na cidade e responsáveis por 71% das transmissões sexuais. Entre eles, a queda chegou a 26%. A profilaxia estava funcionando onde era mais necessária.
Mas os mesmos dados que celebravam o avanço revelavam sua fragilidade. Três em cada quatro usuários de PrEP tinham ensino superior. Apenas 38% se identificavam como negros — enquanto a incidência entre pessoas pretas era mais de três vezes maior do que entre brancas. A ferramenta mais eficaz de prevenção chegava com mais facilidade a quem já tinha mais acesso. O trabalho de convencer a ciência havia terminado. O de fazer a ciência chegar a todos estava apenas começando.
Em 2016, dois infectologistas se enfrentaram em uma mesa redonda durante o Congresso Paulista de Infectologia. Um apresentava todas as objeções clássicas contra a PrEP — baixa adesão dos usuários, surgimento de cepas resistentes, custo elevado, abandono do preservativo, explosão de outras infecções sexualmente transmissíveis. O outro listava meticulosamente os estudos científicos que comprovavam a eficácia inquestionável da profilaxia pré-exposição ao HIV. Na época, fazia sentido existir esse debate. Os profissionais de saúde brasileiros ainda precisavam ser convencidos.
Quatro anos depois, esse debate seria inaceitável. São Paulo se encarregou de fornecer as respostas.
Desde o início de 2018, quando a PrEP começou a ser implementada no sistema público, a capital paulista se transformou em laboratório vivo de prevenção combinada. Os números falam por si: até outubro de 2020, 5.183 pessoas estavam em acompanhamento de PrEP pelo SUS na cidade. Esse contingente representa um terço de todos os usuários de PrEP em todo o país. Nenhuma outra cidade brasileira se aproxima dessa escala.
No dia 1º de dezembro de 2020, quando o mundo marcava o Dia Mundial de Conscientização e Luta Contra a Aids, São Paulo divulgou seus boletins epidemiológicos. Os números eram impressionantes. Durante todo o ano de 2019, foram notificados 2.946 novos casos de infecção por HIV na cidade. Comparado aos anos anteriores, desde 2017 houve uma redução inédita de 25% na incidência. Desde a década de 1980, o número de novos casos só havia crescido, ano após ano. Essa queda representava uma inversão histórica.
A redução foi ainda mais pronunciada entre os homens, que respondiam por 81% das novas infecções do município. Entre eles, a queda chegou a 26%. Não era coincidência. Em 71% dos casos de transmissão entre homens, a infecção havia ocorrido por via sexual em relações com outros homens. E esse era precisamente o grupo que mais acessava a PrEP na cidade: cerca de 86% dos usuários de PrEP pelo SUS em São Paulo se identificavam como homens gays e bissexuais. A profilaxia estava funcionando onde era mais necessária.
Mas havia uma sombra sobre esses números promissores. A PrEP estava chegando desigualmente. Entre os usuários de PrEP em São Paulo, 73% possuíam nível de escolaridade superior completo. Apenas 38% se identificavam como negros. Enquanto isso, em 2019 a incidência de HIV foi mais de três vezes maior entre as pessoas autodeclaradas pretas quando comparadas com as brancas. A ferramenta mais eficaz de prevenção estava concentrada nas mãos de quem tinha mais acesso à educação e à informação, deixando para trás justamente as populações mais vulneráveis.
Os gestores responsáveis pelas políticas de enfrentamento da epidemia em São Paulo haviam escolhido acreditar na ciência. Depois daquele congresso de 2016, eles seguiram o caminho do infectologista que defendia a PrEP, investindo na sua implementação e expansão. Os resultados estavam ali, concretos e mensuráveis. Mas o trabalho estava longe de terminar. O desafio agora era garantir que os benefícios dessa prevenção chegassem a todos, especialmente àqueles com menos acesso à saúde e informação.
Citações Notáveis
Desde a década de 1980 o número de novos casos de infecção por HIV no município só vinha aumentando ano após ano— Boletim epidemiológico municipal de São Paulo