Prefeitura inicia exoneração de servidora que empregou doméstica por 55 anos sem salário

Mulher de 62 anos foi explorada por 55 anos sem receber salário, vivendo em isolamento social completo, sem educação formal, conta bancária ou contato com família, em condições análogas à escravidão.
Vivia em uma prisão induzida, sem saber se locomover na cidade
Descrição da auditora fiscal sobre as condições de isolamento e controle em que a vítima passou 55 anos.

Zaamarah Alencar Brasil Andrade, servidora desde 2017, é exonerada após denúncia anônima que revelou exploração de doméstica por mais de cinco décadas. Família firmou Termo de Ajuste de Conduta com Ministério Público do Trabalho, assumindo pagamento de R$ 50 mil em verbas rescisórias e aquisição de imóvel residencial.

  • Mulher de 62 anos resgatada após 55 anos de trabalho sem salário em condomínio de luxo no Eusébio
  • Zaamarah Alencar Brasil Andrade, servidora desde março de 2017, exonerada pela Prefeitura de Fortaleza
  • Créditos trabalhistas estimados em R$ 1,5 milhão; acordo prevê R$ 50 mil em verbas rescisórias e imóvel residencial
  • Denúncia anônima ao Disque 100 em junho de 2026 levou ao resgate pela Auditoria-Fiscal do Trabalho

Prefeitura de Fortaleza inicia exoneração de servidora pública membro de família que explorou doméstica por 55 anos sem salário. Mulher de 62 anos foi resgatada em condições análogas à escravidão em condomínio de luxo.

Na manhã de quarta-feira, 8 de julho, a Secretaria Municipal da Conservação e Serviços Públicos de Fortaleza iniciou os procedimentos para exonerar Zaamarah Alencar Brasil Andrade do cargo que ocupava desde março de 2017. A razão: ela integra a família que manteve uma mulher de 62 anos em trabalho escravo doméstico por 55 anos, sem lhe pagar um único salário.

O resgate aconteceu em 24 de junho em um condomínio de luxo no município de Eusébio, na região metropolitana de Fortaleza, após denúncia anônima ao Disque 100. Auditores fiscais do Trabalho encontraram uma mulher que acordava por volta das 4h30 da manhã para preparar café, organizar a saída das crianças para a escola, e depois passava o dia inteiro limpando, cozinhando e cuidando dos filhos e netos de seus empregadores. Ela não tinha vida pessoal, não sabia ler, nunca havia aberto uma conta bancária, não tinha amizades, não saia sozinha e nunca havia namorado. Vivia, conforme descreveu Maria Neuzeli, auditora fiscal coordenadora do grupo de erradicação do trabalho escravo doméstico, em uma prisão induzida — tinha medo de sair porque desconhecia a cidade e temia a violência, acreditando estar sendo "paga" apenas com roupa, comida e moradia.

A história começou décadas antes. A mãe da vítima trabalhou para a família exploradora até os 14 anos, quando se casou e retornou a Padre Marcos, no Piauí. Lá teve seis filhos. Anos depois, a matriarca da família, sabendo da pobreza em que vivia a ex-empregada, viajou até lá e trouxe de volta a mulher e duas de suas filhas — uma delas era a criança que seria explorada por mais de meio século. A mãe morreu, mas antes disso teria "dado" a menina de 7 anos a uma das filhas da matriarca. A criança cresceu naquela primeira casa até 1982, quando completou 18 anos. Nesse momento, a filha da matriarca casou, teve filhos, e a empregada foi morar com ela para cuidar da nova geração. Em 2014, a neta da matriarca casou e teve seu primeiro filho — e a mulher foi levada para cuidar dos bisnetos.

A família empregadora é composta por seis pessoas: Paulo Martins Brasil e Aurora Dalva Bastos de Alencar Brasil, ambos aposentados; Paulo Martins Brasil Filho, advogado; Zaamarah Alencar Brasil Andrade, a servidora pública agora exonerada; Tiago Silva Andrade, médico veterinário; e Nayarah Alencar Brasil Magalhães, empregada pública. Através de seu escritório de advocacia, a família negou veementemente as acusações, afirmando que a relação era de "convivência, cuidado e afeto construída ao longo de décadas" e que "em nenhum momento houve resgate", já que a mulher "permanece convivendo com a família em uma relação que apresenta características pessoais e familiares incompatíveis com conclusões simplificadas".

Mas os números contam outra história. Os auditores fiscais estimam que os créditos trabalhistas não pagos — considerando salários, férias, décimos terceiros, FGTS, verbas rescisórias e horas extras pela supressão sistemática dos descansos semanais — ultrapassam R$ 1,5 milhão. A família assinou um Termo de Ajuste de Conduta com o Ministério Público do Trabalho no qual se comprometeu a pagar R$ 50 mil em verbas rescisórias em dez parcelas mensais, adquirir um imóvel residencial de no mínimo R$ 150 mil com mobiliário e eletrodomésticos, regularizar os recolhimentos previdenciários e custear as contribuições até a aposentadoria. O acordo também prevê complementação de até R$ 12 mil caso ela complete 64 anos sem acessar o benefício previdenciário. Mas o próprio TAC deixa claro que essas obrigações não significam quitação integral dos direitos — a trabalhadora pode ainda cobrar judicialmente créditos e indenizações não satisfeitos.

No momento do resgate, a mulher estava sob cuidados de uma equipe psicossocial. Emilie Kluwen, técnica do Centro de Referência em Direitos Humanos da Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará, informou que a família biológica da vítima já foi identificada, mas seu paradeiro não foi divulgado para não prejudicar o trabalho de reaproximação — um vínculo que está fragilizado e não será restabelecido da noite para o dia. A mulher continuará temporariamente na casa dos empregadores enquanto recebe acompanhamento psicossocial e passa por um processo de escolarização para ser reinserida na sociedade. Os auditores fiscais deixaram claro que essa permanência não altera a caracterização do resgate nem da exploração constatada. A exoneração de Zaamarah marca o reconhecimento institucional de que essa relação, independentemente de como a família a descreve, foi uma violação grave da dignidade humana.

Ela vivia em uma prisão induzida. Não sabe se locomover na cidade, tem medo da violência lá fora.
— Maria Neuzeli, auditora fiscal do Trabalho
A família nega com veemência as acusações divulgadas até o momento, que não retratam a relação de convivência, cuidado e afeto construída ao longo de décadas
— Assessoria da família empregadora
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como uma situação assim persiste por 55 anos sem que ninguém de fora soubesse?

Model

Porque ela estava completamente isolada. Sem educação, sem contato com a família biológica, sem amizades no condomínio, sem sair sozinha. Vivia em um mundo que se resumia àquele núcleo familiar.

Inventor

A família diz que era uma relação de afeto. Como se responde a isso?

Model

Os auditores encontraram uma mulher que acordava às 4h30 e trabalhava o dia inteiro sem receber salário. Ela tinha medo de sair porque não conhecia a cidade. Afeto não é compatível com essa dependência total e essa privação.

Inventor

Por que ela continua morando lá depois do resgate?

Model

Porque sair de repente, sem rede de apoio, poderia ser outro tipo de vulnerabilidade. Ela criou um vínculo com aquelas pessoas, mesmo que tóxico. A equipe psicossocial está ajudando-a a construir autonomia gradualmente.

Inventor

E a servidora pública que está sendo exonerada — ela é vítima também?

Model

Ela é parte da estrutura que manteve a exploração. Trabalhou para a prefeitura desde 2017 enquanto sua família mantinha essa mulher em escravidão doméstica. A exoneração é o reconhecimento de que isso é incompatível com o cargo público.

Inventor

Os R$ 1,5 milhão em créditos — ela vai receber tudo isso?

Model

O acordo garante R$ 50 mil em parcelas e um imóvel. Os R$ 1,5 milhão é o que os auditores estimam que ela deveria ter recebido em salários, férias, décimos terceiros. Mas o TAC deixa aberta a possibilidade de ela cobrar judicialmente o resto.

Inventor

O que muda para ela agora?

Model

Ela vai aprender a ler, vai receber acompanhamento psicossocial, vai tentar se reconectar com a família biológica. Mas aos 62 anos, depois de uma vida inteira de isolamento, é um caminho muito longo.

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