O mercado está mais tranquilo agora, mas é uma conjuntura muito excepcional
Em um mundo ainda marcado pela pandemia, pela guerra na Ucrânia e pela inflação mais alta em décadas, a possibilidade de uma trégua comercial entre Washington e Pequim devolveu, por um dia, o otimismo aos mercados. O governo Biden estuda reduzir tarifas herdadas da era Trump como forma de aliviar a pressão sobre os preços — um gesto calculado que, mesmo sem altruísmo, foi suficiente para mover bolsas e renovar esperanças. O Ibovespa subiu 1,71% nesta segunda-feira, impulsionado por exportadoras, commodities e bancos, mas economistas lembram que alívios externos raramente resolvem fragilidades internas — e que 2023 já se anuncia como um ano de escolhas difíceis.
- A possível redução de tarifas comerciais por Biden acendeu um sinal verde nos mercados globais, com o Ibovespa fechando em alta de 1,71%, aos 110.346 pontos.
- A flexibilização dos lockdowns na China e a guerra na Ucrânia pressionam simultaneamente a demanda e a oferta de commodities, disparando os preços de minério, aço e petróleo.
- Vale, CSN, Petrobras e grandes bancos lideraram os ganhos do dia, mas juntos representam metade do índice — e sobem não por prosperidade, mas por inflação e juros elevados.
- O dólar recuou para R$ 4,80 e a curva de juros futuros cedeu, mas economistas alertam que o Banco Central enfrenta sozinho a batalha contra a inflação enquanto o governo pode ampliar gastos.
- Com eleições à vista e uma herança fiscal pesada, analistas avisam: os ganhos de hoje podem ser ilusão de ótica, e quem assumir o Brasil em 2023 terá decisões muito duras pela frente.
Três anos depois de dominar manchetes, a guerra comercial entre EUA e China voltou ao centro do debate — desta vez, com um sinal de distensão. Pressionado pela inflação mais alta em quatro décadas, o governo Biden estuda derrubar parte das barreiras tarifárias erguidas por Trump. A lógica é pragmática: menos impostos de importação significam mais comércio e menos pressão nos preços. Para os mercados, a intenção já foi suficiente.
O Ibovespa abriu a semana em alta de 1,71%, fechando aos 110.346 pontos, em sintonia com os principais mercados globais. O impulso veio de múltiplas frentes: na China, a flexibilização dos lockdowns reaquece a demanda por matérias-primas; na Ucrânia, a guerra continua estrangulando a oferta global. O resultado é uma pressão dupla sobre os preços de ferro, aço e petróleo. Contratos futuros de minério dispararam mais de 4% na China. Vale subiu 2,04%, CSN avançou 3,98%. Petrobras ganhou 3,69%. No setor bancário, o Banco do Brasil liderou com alta de 4,22% — afinal, inflação alta significa juros altos, e bancos lucram com crédito mais caro. Das 92 ações do Ibovespa, 69 subiram, com volume de pouco mais de R$ 20 bilhões.
Mas há uma armadilha embutida nessa euforia. Petróleo, minério e bancos respondem por cerca de 50% do índice — e subiram não porque a economia melhora, mas porque a inflação e os juros avançam. O dólar caiu 1,41%, para R$ 4,80, sustentado pelo fluxo de commodities, mas economistas já olham além do dia.
Alvaro Bandeira alerta que o Banco Central enfrenta sozinho a batalha contra a inflação, enquanto o governo pode surpreender com novos gastos fiscais às vésperas das eleições. Alessandra Ribeiro, da Tendência Consultoria, vai na mesma direção: o período eleitoral polarizado oferece poucos incentivos para propostas economicamente responsáveis. 'Deixamos uma herança forte para 2023', diz ela. 'Qualquer um que assuma o Brasil terá de tomar decisões muito difíceis.' Os ganhos desta segunda-feira podem ser reais — mas também podem ser o reflexo de forças externas que mascaram problemas que nenhuma trégua comercial resolve.
Três anos atrás, a guerra comercial entre Estados Unidos e China era o pesadelo que mantinha investidores acordados à noite. Depois a pandemia chegou, o assunto desapareceu das manchetes, e tudo que se seguiu — lockdowns, inflação, a invasão russa na Ucrânia — fez aquela velha tensão parecer coisa de outro mundo. Mas na segunda-feira, 23 de maio, ela voltou. E desta vez, trouxe notícias que fizeram o mercado respirar aliviado.
A mudança está em Washington. Joe Biden não é exatamente um amigo de Pequim, mas as circunstâncias o forçam a agir diferente de seu antecessor. Com a inflação disparada — a maior em quatro décadas — e o Federal Reserve desesperado para conter os preços, a Casa Branca estuda derrubar algumas das barreiras tarifárias que Trump havia erguido. A lógica é direta: menos impostos de importação significam mais comércio, mais crescimento econômico, menos pressão nos preços. É uma concessão calculada, não altruísmo, mas para os mercados a intenção importa menos que o resultado.
O Ibovespa respondeu imediatamente. A bolsa abriu a semana com alta de 1,71%, fechando aos 110.346 pontos, alinhada ao ritmo dos principais mercados globais. As exportadoras voaram. Mas o impulso veio também de outros ventos. Na China, com os contágios de covid-19 em queda, as autoridades começam a flexibilizar os lockdowns que sufocavam a demanda por matérias-primas. Simultaneamente, a guerra na Ucrânia continua estrangulando a oferta global de commodities. O resultado é uma pressão dupla para cima nos preços de ferro, aço e petróleo.
Os números refletem essa dinâmica. Contratos futuros de minério de ferro no mercado chinês dispararam mais de 4%. A Vale ganhou 2,04%, enquanto a CSN, mais exposta à demanda chinesa, avançou 3,98%. No petróleo, os preços oscilaram entre US$ 100 e US$ 113 nas duas últimas semanas, e as ações das petroleiras acompanharam. Petrobras subiu 3,69%, PetroRio 2,71%, 3R Petroleum 2,73%. O setor bancário também brilhou — com mais inflação vem mais juros, e bancos lucram cobrando crédito mais caro. Banco do Brasil liderou o bloco com alta de 4,22%. Das 92 ações do Ibovespa, 69 subiram. O volume movimentado foi pouco mais de R$ 20 bilhões.
Mas há um problema. Petróleo, minério e bancos respondem por nada menos que 50% do índice. E eles subiram não porque a economia está melhorando, mas porque a inflação e os juros estão subindo — exatamente o oposto do que se deveria comemorar. O dólar caiu 1,41% para R$ 4,80, sustentado pelo fluxo de commodities em alta, e a curva de juros futuros recuou em linha com os mercados americanos. Mas economistas veem armadilhas.
Alvaro Bandeira, economista e consultor financeiro, é direto: o Banco Central está sozinho na luta contra a inflação, enquanto o governo pode surpreender com mais gastos fiscais. "O tempo vai se esgotando para o começo das eleições", diz ele, "daqui a pouco o governo não poderá mais aumentar salários do funcionalismo. Mas é preciso tomar muito cuidado com os programas econômicos que podem começar a se desenhar para 2023. Reformas terão de ser feitas no próximo ano e, provavelmente, mais duras do que se já tivessem sido feitas." Alessandra Ribeiro, economista da Tendência Consultoria, concorda. O período eleitoral é altamente polarizado, com poucos incentivos para que candidatos ofereçam propostas economicamente responsáveis. "Por mais que os mercados já tenham embutido esse cenário nos preços, acho que ainda há turbulências para serem colhidas", afirma. "Deixamos uma herança forte para 2023. Qualquer um que assuma o Brasil terá de tomar decisões muito difíceis."
O real acumula "gordurinha para ser queimada quando a ficha cair", como resumiu um analista. Os ganhos de hoje podem ser ilusão de ótica — reflexo de forças externas (commodities em alta, possível trégua comercial) que mascaram problemas estruturais domésticos. A inflação ajuda a arrecadação no curto prazo, mas não há nada de significativamente estrutural que melhore as contas públicas para o futuro. O mercado respira aliviado nesta segunda-feira, mas economistas já olham para 2023 com apreensão.
Notable Quotes
O Banco Central está precisando fazer das tripas coração para segurar o ritmo dos preços sozinho, já que podemos ter ainda mais surpresas negativas do ponto de vista fiscal— Alvaro Bandeira, economista e consultor financeiro
Deixamos uma herança forte para 2023. Qualquer um que assuma o Brasil terá de tomar decisões muito difíceis— Alessandra Ribeiro, economista da Tendência Consultoria
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a possibilidade de Biden reduzir tarifas sobre produtos chineses faz a bolsa brasileira subir?
Porque menos barreiras comerciais significam mais fluxo de comércio global, menos inflação nos preços, e isso ajuda o Federal Reserve a conter a alta de preços. Para o Brasil, especificamente, significa que a China — nosso maior cliente de commodities — pode voltar a comprar com mais força.
Mas a China já estava comprando. O que muda?
Muda a velocidade e a confiança. Com lockdowns sendo flexibilizados lá e a perspectiva de tarifas menores, investidores apostam que a demanda vai acelerar. Vale, CSN, Petrobras — todas ganham com isso. É uma aposta no futuro próximo.
Os economistas parecem preocupados. Por quê?
Porque estão vendo um espetáculo de ilusionismo. A bolsa sobe porque petróleo e minério estão caros, e bancos lucram com juros altos. Mas isso não é saúde econômica — é inflação. E inflação exige juros mais altos, que sufocam o crescimento real.
Então os ganhos de hoje são falsos?
Não são falsos, mas são frágeis. Dependem de commodities em alta e de uma situação fiscal excepcional. Quando a inflação ceder e as contas públicas forem cobradas, o mercado vai descobrir que pouco mudou estruturalmente.
E o que vem depois?
Reformas difíceis em 2023, qualquer que seja o governo eleito. O mercado está tranquilo agora, mas essa tranquilidade é temporária. É como acumular gordura para queimar quando a realidade bater à porta.