Portugal é 4.º país da UE com mais trabalho precário entre jovens

Milhões de jovens europeus vivem em regime de trabalho precário, afetando estabilidade financeira e segurança laboral de gerações inteiras.
Quase quatro em cada dez jovens portugueses vivem sob contratos temporários
Portugal é o quarto país da UE onde a precariedade laboral juvenil é mais prevalente, superado apenas pelos Países Baixos, França e Polónia.
Mark

Porque é que Portugal se destaca nesta posição específica — quarto lugar em precariedade juvenil — e não em primeiro ou quinto?

Mimi

Há uma confluência de fatores. Portugal tem uma economia que ainda depende bastante de setores como turismo e construção, onde os contratos temporários são norma. Mas não é o pior — os Países Baixos, apesar de mais ricos, têm uma estrutura de mercado que favorece ainda mais a flexibilidade laboral.

Mark

A diferença entre estrangeiros e nacionais — 34% versus 14% — é dramática. O que explica isso?

Mimi

Os estrangeiros frequentemente chegam para preencher lacunas no mercado, em posições menos estáveis. Há menos proteção legal, menos redes de contactos, menos capacidade de negociar. É uma vulnerabilidade que se sobrepõe à vulnerabilidade de ser jovem.

Mark

O trabalho a tempo parcial em Portugal é muito mais baixo que noutros países europeus. Isso é bom ou mau?

Mimi

Depende da perspetiva. Significa que os portugueses trabalham mais horas quando trabalham. Mas também pode significar menos flexibilidade, menos oportunidade de conciliar trabalho com educação ou cuidados familiares — algo que afeta particularmente as mulheres.

Mark

Os salários aumentaram em termos reais, mas Portugal continua a ganhar um terço do que se ganha no Luxemburgo. Como é que isso se sustenta?

Mimi

Não se sustenta bem. É uma das razões pelas quais há emigração. Jovens qualificados saem porque conseguem ganhar muito mais noutros países. E quem fica, muitas vezes em contratos precários, vê o seu poder de compra erodido.

Mark

O aumento de 50 euros no salário mínimo — é significativo?

Mimi

Nominalmente, sim. Mas quando se vê que a inflação foi de 2,3%, é um aumento real modesto. E não resolve o problema da precariedade — muitos jovens ganham o mínimo, em contratos temporários, sem segurança.

  • Quase 40% dos jovens portugueses com menos de 30 anos trabalham sem a segurança de um contrato permanente, superando largamente a média europeia de um em cada três.
  • Os trabalhadores estrangeiros em Portugal são os mais vulneráveis: 34% enfrentam contratos temporários, mais do dobro da taxa registada entre os trabalhadores nacionais.
  • A precariedade juvenil em Portugal só é superada pelos Países Baixos, França e Polónia, colocando o país num grupo de Estados-membros onde a instabilidade laboral é estrutural e não excecional.
  • O salário mínimo subiu para 920 euros em 2026, mas Portugal continua a pagar menos de um terço do que o Luxemburgo oferece em média, expondo a profunda fratura salarial dentro da própria União Europeia.
  • Os dados, divulgados no Primeiro de Maio, reacendem o debate sobre se as políticas laborais europeias estão a proteger as gerações mais jovens ou a perpetuar a sua marginalização económica.

No Dia do Trabalhador, os dados compilados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos revelam que Portugal ocupa o quarto lugar na União Europeia em precariedade laboral juvenil, com quase quatro em cada dez jovens presos a contratos temporários. Esta realidade, que pesa ainda mais sobre os trabalhadores estrangeiros, inscreve-se numa Europa onde a promessa do trabalho digno continua a ser distribuída de forma profundamente desigual — tanto entre gerações como entre fronteiras.

Portugal ocupa o quarto lugar entre os países da União Europeia com maior precariedade laboral juvenil. Quase quatro em cada dez trabalhadores com menos de trinta anos vivem sob contratos temporários — uma taxa que supera a média europeia, onde cerca de um em cada três dos 36 milhões de jovens trabalhadores enfrenta a mesma situação. Apenas os Países Baixos, a França e a Polónia apresentam números piores.

A precariedade ganha contornos ainda mais agudos quando analisada pela perspetiva da nacionalidade. Em Portugal, quase 34% dos trabalhadores estrangeiros têm contratos temporários, enquanto entre os nacionais a proporção desce para cerca de 14%. Esta diferença, uma das maiores da União Europeia, revela uma camada adicional de vulnerabilidade para quem chega ao país em busca de oportunidades.

O trabalho a tempo parcial afeta apenas 8,1% dos portugueses — muito abaixo da média europeia de 18,8% —, mas as mulheres continuam a ser proporcionalmente mais afetadas do que os homens, tanto em Portugal como no resto da Europa. O teletrabalho situa-se em 21,3%, ligeiramente abaixo da média europeia, e tende a estar associado a posições mais qualificadas e melhor remuneradas.

No plano salarial, o salário mínimo português subiu para 920 euros em 2026, um aumento que supera a inflação registada no ano anterior. Em três décadas, o valor mais do que triplicou em termos nominais. Ainda assim, Portugal, com um salário médio de 2.068 euros, fica muito aquém do Luxemburgo, onde a média ultrapassa os 6.900 euros — uma disparidade que ilustra a profunda desigualdade que persiste no interior da União Europeia.

Portugal ocupa o quarto lugar entre os países da União Europeia onde o trabalho precário mais marca a vida dos jovens. Quase quatro em cada dez trabalhadores com menos de trinta anos vivem sob contratos temporários — uma realidade que supera significativamente a média europeia, onde um em cada três dos aproximadamente 36 milhões de jovens trabalhadores enfrenta a mesma situação. Apenas três nações apresentam taxas piores: os Países Baixos, com 51,1%, a França, com 39,2%, e a Polónia, com 39,1%.

A precariedade não é um fenómeno exclusivo dos jovens portugueses, mas neles ganha contornos particularmente agudos. Na União Europeia como um todo, cerca de 13% dos trabalhadores por conta de outrem — aproximadamente 23 milhões de pessoas — têm contratos temporários. Portugal, porém, situa-se entre os cinco Estados-membros com as percentagens mais elevadas, ao lado dos Países Baixos, Polónia, França e Espanha, onde 15,1% da força de trabalho labora sob este regime. Os números foram compilados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, através da Pordata, e divulgados no Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador.

Uma divisão ainda mais profunda emerge quando se examina a questão pela perspetiva da nacionalidade. Na União Europeia, 19,2% dos trabalhadores estrangeiros tinham emprego temporário em 2025, comparado com 12% entre os nacionais de cada país. Portugal distingue-se como um dos países com a maior diferença nesta métrica: quase 34% dos trabalhadores estrangeiros enfrentam contratos temporários, enquanto entre os nacionais a proporção desce para quase 14%. Esta disparidade revela uma camada adicional de vulnerabilidade para quem chega ao país em busca de oportunidades.

O panorama do trabalho português estende-se para além dos contratos temporários. O trabalho a tempo parcial afeta 8,1% dos trabalhadores portugueses, uma das proporções mais baixas da União Europeia — muito abaixo da média de 18,8% e em contraste marcante com países como os Países Baixos, onde 43,8% trabalham a tempo parcial. Ainda assim, em Portugal, as mulheres representam 10,4% dos trabalhadores a tempo parcial, enquanto entre os homens a percentagem é de 5,9%. Na União Europeia, essa diferença de género é muito mais pronunciada: 29,1% das mulheres contra 9,8% dos homens.

O trabalho por conta própria mantém-se relativamente estável em Portugal, com 14,7% dos trabalhadores nesta situação, alinhado com a média europeia de 13,7%. A Grécia lidera neste indicador, com 25,2%. Quanto ao trabalho à distância, que ganhou relevância na última década, Portugal apresenta uma taxa de 21,3% — ligeiramente inferior à média europeia de 23,1%. Países com salários mais elevados tendem a registar maior prevalência de teletrabalho, sugerindo que a flexibilidade de localização está frequentemente associada a posições de maior qualificação e remuneração.

No que respeita aos salários, Portugal viu o seu salário mínimo nacional fixado em 920 euros em 2026, um aumento de 50 euros relativamente a 2025, que supera a taxa de inflação registada nesse ano de 2,3%. Numa perspetiva de longo prazo, o salário mínimo mais do que triplicou entre 1995 e 2025, passando de 259,4 euros para 870 euros em valor nominal. Em termos reais, descontando o efeito da inflação, o crescimento é de aproximadamente 75%. Contudo, quando se observa a União Europeia no seu conjunto, as disparidades salariais revelam-se abissais. O salário médio bruto, ajustado a tempo completo, era de 3.317,3 euros mensais em 2024 — um valor que mascara as enormes diferenças entre os 27 Estados-membros. No Luxemburgo, o país que mais paga em média aos seus trabalhadores, com 6.914,10 euros mensais, os salários são cinco vezes superiores aos da Bulgária, a nação com os vencimentos mais baixos, onde a média é de 1.282,3 euros. Portugal, com um salário médio de 2.068,2 euros, fica significativamente abaixo do Luxemburgo — menos do que um terço do que se pratica naquele país.

A precariedade é particularmente grande entre os jovens: um em cada três dos cerca de 36 milhões de jovens trabalhadores da União Europeia vivem em regime de trabalho temporário
— Fundação Francisco Manuel dos Santos / Pordata
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