Num momento em que a Europa acelera a transição para uma economia de baixo carbono, Portugal revela-se ainda na fase inicial desta jornada financeira: apenas oito fundos ESG, nenhum produto de seguros verdadeiramente verde e um sistema bancário pouco preparado para os desafios regulatórios que se aproximam. O estudo apresentado esta semana pela Embaixada Britânica e pela Systemicsphere não é apenas um diagnóstico de atraso — é um convite à reflexão sobre o papel do Estado, das instituições e da vontade coletiva na construção de um futuro financeiramente sustentável.
Portugal ainda está nos primeiros passos em produtos financeiros verdes
Nenhum banco português questiona os clientes sobre emissões de CO2
O que é que torna este estudo importante neste momento específico?
Portugal está a ficar para trás numa transição que é cada vez mais central para a economia europeia. Se os bancos não conseguem financiar a economia verde, e se as seguradoras não têm produtos para proteger investimentos sustentáveis, o país fica vulnerável.
Mas espera — o estudo diz que mais de metade das instituições financeiras já tem políticas de sustentabilidade. Isso não é um sinal de movimento?
É, mas há uma diferença entre ter uma política e ter produtos reais que os clientes possam usar. Oito fundos ESG para um país inteiro é muito pouco.
E o papel do Banco de Fomento? Pode realmente mudar isto?
Teoricamente sim. Se o Estado partilhar risco com o setor privado, consegue desbloquear produtos que de outra forma seriam demasiado arriscados para os bancos criarem sozinhos.
Mas o estudo não diz como é que o Banco de Fomento deveria fazer isto, nem quanto custaria, nem qual seria o impacto real. É uma recomendação, não um plano.
Então o que é que os bancos estão a fazer agora?
Estão a calcular emissões, a desenvolver estratégias internas. Mas nenhum deles pergunta aos clientes sobre CO2. É como preparar-se para um exame sem saber qual é a matéria.
Exatamente. E essa regulação europeia que o estudo menciona — testes de stress de carbono — ainda não é obrigatória. Portanto os bancos têm tempo, mas talvez não muito.
Qual é o prazo?
O Governo português quer neutralidade carbónica em 2050. Mas a regulação europeia pode chegar bem antes disso.
E ninguém sabe exatamente quando. Isso é um risco real para os bancos que não se prepararem agora.
Il Polso
- Portugal tem apenas oito fundos ESG e nenhum produto de seguros verde, ficando muito aquém dos seus parceiros europeus numa área cada vez mais estratégica.
- Nenhum banco português questiona os clientes sobre as suas emissões de CO2, uma lacuna que pode tornar-se crítica à medida que a regulação europeia aperta os rácios prudenciais ligados ao carbono.
- O sistema financeiro nacional está pouco preparado para os testes de stress de carbono que a Europa poderá impor em breve, sem sequer um inventário das emissões dos clientes empresariais.
- Mais de metade das instituições financeiras já tem políticas de sustentabilidade e calcula emissões, sinalizando uma evolução interna ainda não traduzida em produtos concretos para o mercado.
- O Banco Português de Fomento surge como peça-chave para acelerar o alinhamento do sistema financeiro com a neutralidade carbónica prevista para 2050, partilhando risco com o setor privado.
Num momento em que a Europa acelera a transição para uma economia de baixo carbono, Portugal revela-se ainda na fase inicial desta jornada financeira: apenas oito fundos ESG, nenhum produto de seguros verdadeiramente verde e um sistema bancário pouco preparado para os desafios regulatórios que se aproximam. O estudo apresentado esta semana pela Embaixada Britânica e pela Systemicsphere não é apenas um diagnóstico de atraso — é um convite à reflexão sobre o papel do Estado, das instituições e da vontade coletiva na construção de um futuro financeiramente sustentável.
Portugal dispõe de apenas oito fundos de investimento ESG e nenhum produto de seguros que possa ser considerado verdadeiramente verde — é este o retrato traçado por um estudo apresentado esta semana pela Embaixada Britânica em parceria com a consultora Systemicsphere. A maioria dos fundos concentra-se em energia renovável e eficiência energética, com apenas dois ligados à economia circular, e temas como floresta sustentável ou serviços dos ecossistemas estão completamente ausentes.
No setor bancário de retalho foram identificados 21 produtos distribuídos por cinco categorias, mas o padrão repete-se: quase tudo direcionado para energias renováveis, com escassa atenção à mobilidade limpa ou a outras prioridades ambientais. No setor segurador, os investigadores não encontraram um único produto verdadeiramente verde.
Sofia Santos, diretora executiva da Systemicsphere, reconhece sinais positivos: mais de metade das instituições financeiras portuguesas já possui políticas de sustentabilidade e calcula emissões de gases de efeito de estufa. Mas a distância entre intenção e prática é ainda considerável. Nenhum banco questiona os clientes sobre as suas emissões de CO2 — uma omissão preocupante face à regulação europeia que associa os rácios prudenciais dos bancos à exposição a setores de elevado carbono.
Os autores do estudo defendem que o Estado deve tornar-se um parceiro mais ativo na partilha do risco com o setor privado, e apontam o Banco Português de Fomento como instituição central para acelerar este processo. O relatório foi elaborado no contexto da presidência britânica da COP26, prevista para novembro de 2021, e o embaixador Chris Sainty enquadrou-o num esforço mais amplo de colaboração internacional em financiamento sustentável. O caminho para alinhar o sistema financeiro português com as metas climáticas europeias e nacionais, conclui o estudo, ainda é longo.
Portugal está ainda longe de acompanhar os seus pares europeus quando se trata de oferecer produtos financeiros alinhados com objetivos ambientais. Um estudo apresentado esta semana pela Embaixada Britânica, em parceria com a consultora Systemicsphere, traça um retrato pouco animador do mercado nacional de finanças sustentáveis: o país dispõe de apenas oito fundos de investimento com características ambientais, sociais e de governação — aquilo que se conhece por ESG — e nenhum deles aborda temas como floresta sustentável ou serviços dos ecossistemas.
A maioria destes fundos concentra-se em energia renovável e eficiência energética, refletindo uma estratégia que privilegia a mitigação climática em detrimento de outras prioridades ambientais. Apenas dois dos oito fundos estão ligados à economia circular. No setor bancário de retalho, a situação é ligeiramente menos restrita: foram identificados 21 produtos diferentes distribuídos por cinco categorias — linhas de crédito apoiadas pelo Governo, outras linhas de crédito, crédito pessoal, crédito à habitação, crédito automóvel e leasing. Mas aqui também o padrão é semelhante: a esmagadora maioria está direcionada para financiar energias renováveis e eficiência energética, com poucos produtos dedicados à mobilidade limpa.
O setor segurador apresenta um cenário ainda mais embrionário. Após uma análise abrangente do mercado português, os investigadores não conseguiram identificar nenhum produto de seguros que pudesse ser considerado verdadeiramente verde. Sofia Santos, diretora executiva da Systemicsphere e responsável pelo estudo, reconhece contudo que existe uma evolução positiva em curso. Mais de metade das instituições financeiras portuguesas já possui políticas de sustentabilidade e calcula emissões de gases de efeito de estufa nos âmbitos 1 e 2. A grande maioria está internamente a desenvolver estratégias de sustentabilidade ou a incorporar riscos financeiros climáticos nas suas análises de risco.
Mas há lacunas críticas que precisam ser colmatadas. Nenhum banco português questiona atualmente os seus clientes sobre as emissões de CO2 — uma omissão que se torna preocupante à luz da regulação europeia em desenvolvimento, que associa os rácios prudenciais dos bancos à exposição das suas carteiras a setores com elevadas emissões de carbono. O sistema bancário português, concluem os autores do estudo, está ainda pouco preparado para potenciais testes de stress de carbono que possam ser iniciados num futuro próximo. Tal preparação exigiria, entre outras coisas, um inventário das emissões de CO2 dos clientes empresariais dos bancos e dos fundos de investimento.
Santos argumenta que o Estado português precisa de se tornar um participante mais ativo na partilha do risco com o setor financeiro privado, de forma a promover a criação de produtos bancários que respondam a objetivos ambientais para além da mitigação climática. O Banco Português de Fomento, sugere, poderá ter um papel fundamental neste processo. O estudo recomenda que esta instituição crie e desenvolva conhecimento e ferramentas para acelerar o alinhamento do sistema financeiro com a meta de neutralidade carbónica definida pelo Governo Português para 2050.
O contexto internacional não é alheio a este esforço. O Reino Unido tem sido um dos maiores impulsionadores do mercado de finanças sustentáveis a nível mundial desde 2005, quando o governo britânico falou pela primeira vez nas implicações económicas das alterações climáticas. A Embaixada Britânica em Lisboa apoiou a elaboração deste estudo no contexto da presidência britânica da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, prevista para novembro de 2021. O embaixador britânico Chris Sainty descreveu o relatório como parte de um esforço mais amplo para promover colaboração internacional em matéria de financiamento sustentável.
O estudo reconhece que o tema ganhou relevância junto das instituições financeiras portuguesas, com grande parte delas a desenvolverem as suas políticas de investimento sustentável. Mas a distância entre a intenção e a prática permanece considerável. Portugal continua a dar os primeiros passos numa área onde outros países europeus já avançaram significativamente, e o caminho para alinhar o sistema financeiro nacional com as metas climáticas europeia e portuguesa ainda é longo.
Citazioni salienti
O mercado dos produtos financeiros verdes em Portugal está ainda numa fase inicial, e os produtos existentes contribuem em geral para a mitigação climática— Estudo 'Sustainable Finance Market in the UK and Portugal'
Isto pode refletir a necessidade de o setor público se tornar um participante mais ativo na partilha do risco com o setor financeiro privado, a fim de promover a criação de produtos bancários que respondam a outros objetivos ambientais— Sofia Santos, diretora executiva da Systemicsphere