Por que o carro mais vendido do Brasil não reflete a preferência real do consumidor

O consumidor de entrada está cada vez mais longe do carro zero-quilômetro
Enquanto frotistas e locadoras compram em massa, pessoas comuns migram para o mercado de usados.
Mark

Por que ninguém fala sobre essa distorção? Os números de vendas são publicados todo mês.

Mimi

Porque é mais simples publicar o ranking oficial. Ninguém questiona. Mas para entender o que o brasileiro realmente quer, você precisa separar os dados.

Mark

E as locadoras — por que elas têm tanto poder de compra agora?

Mimi

Ficaram presas durante a crise dos semicondutores. Não conseguiam renovar as frotas. Quando a produção voltou, elas tinham 500 mil carros para comprar. Viraram o cliente mais importante das montadoras.

Mark

Então a Fiat Strada não é realmente o carro mais popular?

Mimi

Não. É o carro que as locadoras mais compram. O Hyundai Creta é o que as pessoas realmente escolhem quando vão à concessionária com dinheiro do bolso.

Mark

O que isso diz sobre o mercado brasileiro?

Mimi

Que se dividiu. Quem tem dinheiro continua comprando carro novo. Quem não tem migrou para o usado. E as montadoras estão usando as locadoras como válvula de escape para manter a produção em dia.

Mark

Isso vai mudar?

Mimi

Depende. Se os preços caírem, o consumidor de entrada volta. Se não caírem, o mercado de varejo fica cada vez mais restrito aos ricos, e as locadoras seguem sendo o grande cliente.

  • Quase 44% dos emplacamentos no Brasil são feitos por frotistas e locadoras, distorcendo profundamente os rankings mensais que a imprensa divulga como verdade do mercado.
  • A crise dos semicondutores represou uma demanda de 500 mil veículos nas locadoras, que explodiram em compras ao longo de 2022 — chegando a responder por um em cada três carros vendidos no país em apenas um trimestre.
  • No varejo real, o Hyundai Creta supera a Fiat Strada, e três dos cinco modelos mais procurados pelos consumidores finais são SUVs acima de R$ 100 mil — revelando um mercado que não ficou mais rico, mas sim mais desigual.
  • O consumidor de entrada desistiu do zero-quilômetro: os preços subiram durante a pandemia e não recuaram, empurrando essa fatia da população para o mercado de usados.
  • O mercado se partiu em dois: de um lado, quem pode gastar mais de cem mil reais e continua comprando; do outro, quem precisaria de um hatch compacto e simplesmente saiu do jogo.

Todo mês, os rankings de automóveis mais vendidos no Brasil apresentam uma realidade incompleta: quase metade das vendas não chega às mãos de consumidores comuns, mas sim a frotistas e locadoras que operam sob condições fiscais e comerciais inteiramente distintas. Quando se filtra esse ruído e se observa apenas o varejo, emerge um retrato diferente — e mais revelador — de um país economicamente polarizado, onde o consumidor de menor renda abandonou o carro zero-quilômetro enquanto os SUVs e picapes acima de cem mil reais seguem em alta.

Os números mensais sobre os carros mais vendidos no Brasil escondem uma distorção fundamental: quase 44% de todos os automóveis emplacados no país são negociados diretamente com frotistas e locadoras, empresas que pagam impostos reduzidos e obtêm descontos volumosos das montadoras por comprarem em escala. O resultado é um ranking oficial completamente desalinhado com as preferências reais dos consumidores.

Quando se observa apenas as vendas de varejo, o cenário muda radicalmente. O Hyundai Creta assume a liderança, seguido pelo Chevrolet Onix. Três dos cinco modelos mais vendidos ao consumidor final são SUVs; outro é uma picape. Todos custam acima de R$ 100 mil — não porque o Brasil enriqueceu, mas porque o consumidor de menor renda simplesmente saiu do mercado de zero-quilômetro, empurrado por preços que subiram na pandemia e nunca voltaram.

As locadoras são o motor invisível dessa distorção. Durante a crise dos semicondutores, elas acumularam uma demanda reprimida de quase 500 mil veículos. Quando a produção normalizou, compraram com ferocidade: no terceiro trimestre de 2022, foram responsáveis por um em cada três automóveis vendidos no país — 179 mil unidades em três meses, um salto de 129% em relação ao início do ano. Os modelos preferidos por essas empresas, como Fiat Strada e Chevrolet Onix Plus, inflam artificialmente o ranking geral.

A polarização é clara nos dados de participação de mercado: a Fiat domina as vendas diretas com 27,61%, mas no varejo cai para 17,71%. O Brasil está, na prática, comprando dois carros diferentes ao mesmo tempo — e por muito tempo ninguém estava olhando para isso.

Os números que os jornais publicam todo mês sobre os carros mais vendidos do Brasil contam apenas metade da história. A Fiat Strada aparece no topo das listas, seguida pelo Chevrolet Onix, mas essas cifras escondem uma distorção fundamental: quase 44% de todos os automóveis emplacados no país não foram comprados por pessoas comuns. Foram negociados diretamente com frotistas e locadoras, empresas que operam sob regras completamente diferentes das que regem o mercado de varejo.

Os frotistas e locadoras têm acesso a vantagens que o consumidor comum nunca terá. Pagam alíquotas de imposto reduzidas. Conseguem descontos volumosos das montadoras simplesmente porque compram em escala. Mas há mais: quando uma fabricante quer inflar seus números de vendas ou desocupar a capacidade da fábrica, oferece descontos ainda mais agressivos para essas empresas fecharem negócio. O resultado é que o ranking oficial fica completamente desalinhado com o que as pessoas realmente querem comprar.

Quando se olha apenas para as vendas de varejo — aquelas feitas diretamente ao consumidor final — o cenário muda radicalmente. O Hyundai Creta sai do anonimato e se torna o carro mais procurado, com 9.156 unidades vendidas. O Chevrolet Onix vem em segundo, com 9.064. Depois vêm o Tracker, a Fiat Strada e o Toyota Corolla Cross. Três dos cinco primeiros são SUVs; outro é uma picape. Todos custam acima de 100 mil reais. Isso não significa que o Brasil ficou rico. Significa exatamente o oposto.

O consumidor de entrada — aquele que antes compraria um hatch compacto ou subcompacto — está cada vez mais longe do carro zero-quilômetro. Os preços subiram demais durante a pandemia e nunca voltaram. Essas pessoas migraram para o mercado de usados. Enquanto isso, quem já tinha disposição para gastar mais de 100 mil reais sofre menos com a inflação de preços e continua comprando. O mercado se polarizou: os ricos seguem consumindo; os pobres desistiram.

As locadoras são o motor invisível por trás dessa distorção. Durante a crise dos semicondutores, quando faltava carro em todo o mundo, essas empresas não conseguiram renovar suas frotas. Acumularam uma demanda reprimida de quase 500 mil veículos. Quando a produção finalmente normalizou, elas explodiram em compras. No terceiro trimestre de 2022, as locadoras foram responsáveis por um em cada três automóveis vendidos no país — 179.048 veículos em apenas três meses. Comparado ao trimestre anterior, foi um crescimento de 22,8%. Comparado ao primeiro trimestre de 2022, foi um salto de 129%.

Os carros que as locadoras mais compram são sedãs e hatches baratos: Fiat Strada, Chevrolet Onix Plus, Jeep Compass, Fiat Mobi e Fiat Argo. Essas empresas buscam modelos de menor custo para manter suas frotas funcionando e para oferecer opções acessíveis aos clientes que alugam carros. É por isso que a Fiat Strada lidera o ranking geral — não porque os brasileiros a querem, mas porque as locadoras a compram em massa.

Em 2023, a Fiat domina o mercado de vendas diretas com 27,61% de participação, seguida pela Chevrolet com 17,61%. Mas no varejo, o cenário é outro: Fiat com 17,71%, Chevrolet com 15,97%, Toyota com 13,38%, Volkswagen com 13,23% e Hyundai com 10,74%. A polarização é clara. As montadoras que vendem mais para frotistas e locadoras não são necessariamente as que vendem mais para pessoas comuns. O Brasil está comprando dois carros diferentes ao mesmo tempo, e ninguém estava olhando para isso.

A lista de carros mais emplacados fica distorcida quando comparada com o que o consumidor final anda comprando
— Análise do mercado automotivo
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