Por que levou séculos para descobrir que pensamos com o cérebro

Não sentimos nosso cérebro pensando — sabemos disso porque a ciência nos ensinou
Morgado explica por que levou séculos para a humanidade compreender que o pensamento ocorre no cérebro.
Mark

Por que levou tanto tempo para a humanidade perceber que pensamos com o cérebro e não com outro órgão?

Mimi

Porque não há nada que você sinta acontecendo lá dentro. Você não sente seu cérebro pensando. Sabemos disso apenas porque a ciência nos ensinou. Durante séculos, as pessoas acreditavam que era o coração, ou que havia "espíritos" invisíveis viajando pelos nervos.

Mark

Mas Aristóteles era um gênio. Como ele chegou à ideia de que o cérebro era um refrigerador?

Mimi

Ele observou o que via — o coração aquecia com as paixões, o sangue ficava quente, e o cérebro tinha que servir para algo. Então pensou: deve ser um refrigerador. Era lógico com o conhecimento que tinha. Seus erros eram baseados em grandes acertos.

Mark

E quando descobrimos que estava errado?

Mimi

Levou séculos. Luigi Galvani descobriu eletricidade no meio do século 18, mostrando que o cérebro produz sua própria energia. Mas mesmo assim, as pessoas continuaram atribuindo emoções ao coração. É mais bonito, mais vermelho.

Mark

Você disse que sabemos muito sobre o cérebro. Mas há coisas que ainda não compreendemos?

Mimi

Sim. Sabemos como os neurônios funcionam, mas não sabemos como eles criam consciência, imaginação, subjetividade. E não sabemos curar Alzheimer. Essas são as grandes questões.

Mark

E se um dia conseguirmos responder todas essas perguntas?

Mimi

Então teremos novas perguntas que nem conseguimos imaginar agora. Um chimpanzé não se pergunta sobre consciência porque seu cérebro não evoluiu para isso. Se tivesse um cérebro humano, poderia fazer matemática, mas também teria esses problemas. Sempre haverá mistérios.

Mark

Então nunca vamos saber tudo?

Mimi

Provavelmente não. E talvez seja assim que deve ser. Muitas das perguntas que fazemos são criações de nossa própria mente. Se não existisse nenhum cérebro humano, essas perguntas não teriam sentido. Sempre haverá incógnitas que nos ultrapassam.

  • Aristóteles acreditava que o cérebro funcionava como refrigerador de sangue aquecido pelas paixões do coração
  • Luigi Galvani descobriu no século 18 que eletricidade faz músculos se contrairem, revelando que o cérebro produz eletricidade
  • Santiago Ramón y Cajal descobriu que neurônios são células individuais que se conectam por contato, não por continuidade
  • Ignacio Morgado é catedrático de psicobiologia da Universidade Autônoma de Barcelona e autor de mais de cem trabalhos em neurociência

Aristóteles acreditava que o cérebro funcionava como refrigerador de sangue aquecido pelas paixões do coração, refletindo a dificuldade histórica em entender o órgão. A descoberta de Luigi Galvani sobre eletricidade e a posterior compreensão de neurônios como células individuais revolucionaram o conhecimento sobre funcionamento cerebral.

Neurocientista espanhol Ignacio Morgado explora como a humanidade compreendeu gradualmente que pensamos com o cérebro, desde teorias antigas como a de Aristóteles sobre uma 'geladeira' craniana até descobertas modernas sobre neurônios e eletricidade neural.

Há séculos, a humanidade enfrentou uma questão aparentemente simples: onde reside o pensamento? Hoje, para qualquer pessoa educada, a resposta é óbvia — no cérebro. Mas o neurocientista espanhol Ignacio Morgado oferece uma perspectiva perturbadora: não existe nenhuma sensação intuitiva que nos indique isso. Você sente seu cérebro pensar? Claro que não. Sabemos que pensamos com o cérebro apenas porque a ciência, a cultura e o conhecimento acumulado nos ensinaram. Durante séculos, muitas pessoas acreditavam que outros órgãos — não o cérebro — eram responsáveis pelo pensamento e pela razão.

Morgado, catedrático de psicobiologia da Universidade Autônoma de Barcelona e autor de mais de cem trabalhos em neurociência, explora essa jornada intelectual em seu livro recente, que examina tudo o que aprendemos sobre o cérebro e o muito que ainda temos a descobrir. A dificuldade em compreender o órgão começa com uma verdade incômoda: não sentimos nada acontecendo dentro da cabeça. Levou séculos para as pessoas acreditarem que doenças mentais tinham origem cerebral — durante muito tempo, acreditava-se que eram de natureza espiritual.

Na Antiguidade, os pensadores sabiam que algo importante ocorria no cérebro, mas não conseguiam explicar o quê. Claudio Galeno, o grande médico grego, propôs a teoria dos "espíritos naturais" — entidades invisíveis que viajavam pelos nervos e faziam os músculos se contrairem, permitindo movimento e fala. Sem conhecimento de eletricidade, era uma explicação tão racional quanto possível. Galeno imaginou que esses "espíritos" se transformavam para realizar diferentes funções corporais. Hoje podemos considerá-lo equivocado, mas as mentes mais brilhantes da época provavelmente intuíram que esses "espíritos" eram algo que um dia seria compreendido com precisão. E estavam certos. No meio do século 18, o italiano Luigi Galvani descobriu através de experimentos com rãs que a eletricidade podia fazer músculos se contrairem — revelando que o cérebro produz sua própria eletricidade. Cada neurônio funciona como uma pequena central elétrica, e o cérebro, junto com o sistema digestivo, é o órgão que mais consome energia no corpo.

Mas talvez nenhuma teoria antiga seja tão peculiar quanto a de Aristóteles, o grande pai da filosofia ocidental. Ele acreditava que o cérebro era um refrigerador. Não era uma ideia absurda — era baseada em observação cuidadosa. Aristóteles via o coração como o verdadeiro órgão da sensibilidade e do pensamento. Quando alguém estava apaixonado, o coração aquecia o sangue com as paixões. Esse sangue superaquecido precisava ser resfriado em algum lugar, e Aristóteles olhou para a estrutura do cérebro e concluiu: ali está o refrigerador. O sangue esfriado retornava ao corpo para que continuasse funcionando normalmente. Era uma teoria incrível, construída sobre uma lógica que fazia sentido com o conhecimento disponível.

Demoramos séculos para abandonar essas ideias. Ainda hoje, muitas pessoas atribuem ao coração capacidades cognitivas que ele não possui. Quando perguntado por que essa dicotomia entre cérebro e coração persiste, Morgado oferece uma resposta desarmante: é porque é muito mais bonito um coração com uma flecha cravada do que um cérebro, que tem um aspecto tosco. O coração é vermelho e vibrante; o cérebro é escuro, estratificado, pouco convidativo esteticamente. Ligá-lo às emoções e aos sentimentos é algo ao qual já estamos absolutamente acostumados.

Quanto ao conhecimento atual sobre o cérebro, Morgado rejeita a noção de que sabemos muito pouco. Quando estudantes lhe fazem essa pergunta, ele mostra um livro grosso de sua sala e pergunta se aquilo parece "saber pouco". O conhecimento avançou dramaticamente, especialmente após Santiago Ramón y Cajal, seu compatriota espanhol, descobrir como os neurônios funcionam — células individuais que se conectam por contato, não por continuidade, tornando o cérebro um órgão verdadeiramente inteligente. Aprendemos muitíssimo, mas ainda há muito a aprender.

O paradoxo, porém, é que sabemos mais sobre a mente do que sobre o cérebro. Os grandes pensadores da Antiguidade compreendiam profundamente a mente humana sem saber nada sobre o cérebro. Os filósofos teólogos medievais escreveram tratados sobre a mente que mantêm validade extraordinária até hoje. Continuamos separando mente de cérebro, tratando o mental como algo espiritual, diferente do corpo — um dualismo que remonta aos escolásticos e foi formalizado por René Descartes. As questões pendentes mais importantes envolvem curar doenças neurológicas como Alzheimer e compreender como os neurônios geram consciência, subjetividade e imaginação. Mas há algo mais profundo em jogo. Quando confrontados com mistérios que não conseguem resolver, os seres humanos tendem a recorrer a explicações sobrenaturais. Essa incapacidade do cérebro humano de entender certos aspectos de sua própria mente é precisamente o que alimenta crenças sobrenaturais desde a Antiguidade até hoje. Se pudéssemos compreender completamente os mistérios da consciência e da subjetividade, muitas ideologias religiosas e sobrenaturais provavelmente não existiriam. Mas Morgado oferece uma reflexão final perturbadora: por que acreditar que nosso cérebro tem capacidade de entender tudo? Um chimpanzé não pode compreender raízes quadradas ou entropia porque seu cérebro não evoluiu para isso. Se tivesse um cérebro humano, poderia fazer cálculos, mas também teria problemas que agora não tem — perguntaria-se sobre imaginação, subjetividade e consciência. O mesmo pode acontecer conosco. Dentro de anos, podemos compreender a subjetividade, mas então teremos novos problemas que nem sequer conseguimos imaginar agora. Sempre haverá incógnitas que nos ultrapassam.

Não existe nenhum sinal, sentido ou sentimento especial que nos indique, nem sequer de maneira intuitiva, que pensamos com o que existe dentro de nossa cabeça
— Ignacio Morgado
Sempre haverá incógnitas que nos ultrapassam — mesmo que um dia compreendamos a subjetividade, teremos novos problemas que agora nem sequer conseguimos imaginar
— Ignacio Morgado
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