Por que animais feios conquistam nossos corações (e prejudicam sua saúde)

Animais de estimação populares como pugs e buldogues franceses sofrem dificuldades respiratórias, infecções frequentes e risco de insolação devido à criação seletiva extrema.
Aquele som fofo é na verdade um sinal de vias aéreas obstruídas
O que as pessoas interpretam como personalidade encantadora em pugs é frequentemente um sintoma de doença respiratória grave.
Mark

Por que achamos tão atraentes justamente os animais que parecem estar sofrendo?

Mimi

Porque eles ativam um mecanismo evolutivo que não conseguimos desligar. Nossos ancestrais que respondiam fortemente a características infantis tiveram mais filhos que sobreviveram. Aquele instinto está gravado em nós.

Mark

Mas as pessoas que compram pugs sabem que eles têm problemas respiratórios, certo?

Mimi

Muitas sabem, mas há barreiras psicológicas poderosas. As pessoas amam a personalidade desses cães—a preguiça, a falta de energia. Não conseguem aceitar que aquilo não é uma característica, é uma doença.

Mark

E se todos parassem de comprar pugs amanhã?

Mimi

A raça provavelmente desapareceria ou teria que ser completamente recriada através de cruzamentos com outras raças. Mas isso levaria décadas. Enquanto isso, os cães que existem continuariam sofrendo.

Mark

As redes sociais têm culpa nisso?

Mimi

Têm uma parte importante. Influenciadores exibem pugs e buldogues franceses para milhões de pessoas. Isso criou uma demanda que os criadores se apressam em satisfazer. Amplificou uma tendência que já existia.

Mark

Então o que muda?

Mimi

Os veterinários estão pedindo cruzamentos com outras raças para aumentar a diversidade genética. Mas isso requer que as pessoas aceitem que seus cães "fofos" precisam mudar. E isso é psicologicamente difícil quando você está apaixonado por aquele rosto achatado.

Mark

A ciência consegue reverter isso?

Mimi

Consegue, mas leva tempo. O problema é que enquanto a ciência trabalha, cada geração de pugs nasce com problemas piores. As vértebras ficam mais deformadas. As vias aéreas ficam mais estreitas. Estamos criando caricaturas das formas originais.

  • Registros de pugs no Kennel Clube britânico aumentaram cinco vezes entre 2005 e 2017
  • Pugs no Reino Unido têm o dobro da probabilidade de sofrer um ou mais transtornos de saúde por ano
  • Buldogue francês tornou-se a raça de cachorro mais popular nos Estados Unidos em 2022
  • Análise de 102 buldogues ingleses mostrou baixa diversidade genética nas linhagens materna e paterna

Características infantis como olhos grandes e cabeças enormes em animais feios ativam instintos evolutivos de proteção e cuidado nos humanos. Raças populares como pugs e buldogues franceses sofrem problemas respiratórios, infecções de pele e doenças oculares causados pela criação seletiva extrema.

Animais feios com traços infantis ativam instintos protetores humanos, mas a obsessão por raças braquicéfalas causa sérios problemas de saúde e baixa diversidade genética.

Em junho, em Petaluma, na Califórnia, jurados se reuniram para escolher o vencedor de um concurso anual que celebra o que há de mais inusitado na aparência canina: focinhos achatados, dentes irregulares, olhos protuberantes, bigodes salientes. O Concurso do Cão Mais Feio do Mundo virou fenômeno global, com fotos dos participantes viralizando nas redes sociais e conquistando corações de amantes de animais em todo o planeta. Mas por trás dessa atração aparentemente superficial existe uma explicação profunda, enraizada na nossa biologia evolutiva.

O zoólogo austríaco Konrad Lorenz identificou há oito décadas um padrão que ele chamou de "esquema do bebê": características infantis como olhos grandes, cabeças proporcionalmente enormes e corpos macios disparam em nós uma resposta automática de proteção e cuidado. Essas mesmas características aparecem em animais que consideramos feios—peixes-bolha, pugs, lêmures de Madagascar, buldogues. Marta Borgi, pesquisadora do Instituto Superior de Saúde de Roma, estudou essa conexão e descobriu que ela funciona desde muito cedo na vida. Crianças com até três anos de idade já demonstram preferência por rostos com olhos grandes, narizes pequenos e feições arredondadas, tanto em animais quanto em humanos. Um estudo de 2014 analisou o movimento dos olhos de crianças entre três e seis anos enquanto observavam imagens digitalmente modificadas: elas focavam mais nos rostos que haviam sido alterados para parecer mais infantis. Quando pedidas para avaliar as imagens em uma escala de um a cinco, as crianças consistentemente davam notas mais altas aos traços mais "fofos"—aqueles que mais se aproximavam do esquema do bebê.

A razão evolutiva é clara. Entre os humanos, cujos bebês dependem totalmente de cuidadores para sobreviver, essa reação automática aumenta significativamente as chances de que os filhotes recebam proteção e atenção. O instinto não é racional; é visceral. Borgi explica que essas características infantis amplificam o comportamento protetor, a atenção e a disposição ao cuidado, reduzindo simultaneamente a probabilidade de agressão. Nossos ancestrais que respondiam fortemente a esses sinais tiveram mais filhos que sobreviveram até a idade reprodutiva. Aqueles que não respondiam deixaram menos descendentes. Ao longo de milhares de gerações, a seleção natural consolidou essa resposta em nosso código genético.

Mas existe um lado sombrio nessa atração. A obsessão contemporânea por animais "feios mas fofos" foi amplificada pelas redes sociais, onde celebridades e influenciadores exibem pugs e buldogues franceses para milhões de seguidores. Rowena Packer, professora de bem-estar animal na Faculdade Real de Veterinária da Universidade de Londres, observa que essa tendência criou uma demanda que os criadores de cães se apressam em satisfazer. O resultado é uma crise de saúde animal que passa despercebida pela maioria dos donos encantados.

Os pugs e buldogues franceses passaram por séculos de criação seletiva extrema para acentuar exatamente aqueles traços que nos parecem irresistivelmente fofos: focinhos cada vez mais achatados, olhos cada vez mais protuberantes, corpos cada vez mais compactos. Mas essas características têm um custo biológico devastador. Um estudo de 2022 concluiu que os pugs "não podem mais ser considerados cães típicos do ponto de vista da saúde". No Reino Unido, eles têm o dobro da probabilidade de sofrer um ou mais transtornos de saúde por ano comparado com outras raças. Dificuldades respiratórias são endêmicas—aqueles sons que as pessoas acham "fofos", os roncos e bufos, são na verdade sinais de vias aéreas obstruídas. Infecções de pele frequentes, doenças oculares, problemas na coluna vertebral. No verão, muitos pugs enfrentam risco de insolação porque seus narinas pequenas e vias aéreas estreitas impedem a regulação eficiente da temperatura corporal. Os lobos, ancestrais dos cães, dependem de narizes longos para trocar calor através da passagem nasal. Os pugs perderam essa capacidade.

Apesar desses problemas, a popularidade dessas raças continua crescendo. Os registros de pugs no Kennel Clube britânico aumentaram cinco vezes entre 2005 e 2017. Nos Estados Unidos, o pug está entre as 35 raças mais populares entre 280 registradas. Em 2022, o buldogue francês—outra raça braquicéfala com problemas de saúde similares—tornou-se pela primeira vez a raça de cachorro mais popular nos Estados Unidos.

Packer identifica "muitas barreiras psicológicas" que impedem as pessoas de aceitar a realidade dos problemas de saúde desses animais. Os donos amam o fato de que pugs são engraçados, preguiçosos, aparentemente sem energia. Temem que cruzá-los com outras raças para melhorar a saúde destruiria essa personalidade. Mas aquela preguiça não é uma característica desejável—é uma doença. É o resultado de vias aéreas obstruídas, de um corpo que não consegue funcionar normalmente.

O cruzamento com outras raças é, segundo Packer, "realmente essencial". Além dos fenótipos extremos, essas raças sofrem de diversidade genética muito baixa. Uma análise de 2016 de 102 buldogues ingleses revelou pouca diversidade genética nas linhagens materna e paterna, incluindo na região do genoma que regula respostas imunológicas normais. Sem diversidade genética, doenças e traços prejudiciais se espalham rapidamente pela população. Os buldogues estão "se tornando caricaturas das suas formas originais", afirma Packer. As dobras de pele exageradas e os corpos compactos que achamos adoráveis refletem malformações da coluna vertebral—vértebras deformadas que geram uma variedade enorme de doenças neurológicas. Aqueles olhos saltados e aquele focinho cheio de rugas que nos fazem rir podem estar causando sofrimento silencioso. A obsessão pelo "feio mas fofo" precisa ser reconsiderada não por razões estéticas, mas por compaixão genuína pelos animais que amamos.

Os pugs não podem mais ser considerados cães típicos do ponto de vista da saúde
— Estudo de 2022
Os buldogues estão se tornando caricaturas das suas formas originais
— Rowena Packer, Faculdade Real de Veterinária da Universidade de Londres
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